Um “plano de paz” que ameaça a própria paz

Um “plano de paz” que ameaça a própria paz

Ucrânia e Europa tentam conter proposta dos EUA que mais parece um presente para Moscou do que um caminho real para o fim da guerra

O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, desembarcou em Genebra como quem chega para “resolver o mundo”, mas carregando debaixo do braço um plano de paz que deixou Ucrânia e boa parte da Europa com a pulga atrás da orelha. O documento, criado em Washington, soa menos como uma proposta equilibrada e mais como um acordo moldado ao gosto de Vladimir Putin — um detalhe incômodo quando se lembra quem foi o invasor e quem está com as cidades em ruínas.

Do lado ucraniano, o chefe de gabinete de Volodymyr Zelensky, Andrii Yermak, lidera a equipe que agora tenta descobrir como defender a soberania do país sem perder o apoio do aliado que, até ontem, prometia ficar ao lado de Kiev “o quanto fosse necessário”. Junto deles estão França, Alemanha e Reino Unido, todos igualmente alarmados com os pontos que enfraquecem a capacidade de defesa da Ucrânia.

Pelo lado americano, Rubio chega acompanhado do secretário do Exército, Dan Driscoll, e do enviado especial de Donald Trump, Steve Witkoff — todos encarregados de explicar como um plano de 28 pontos pode pedir que a Ucrânia entregue pedaços inteiros de seu próprio território e ainda aceite limitações militares que nenhum país independente deveria tolerar.

Não por acaso, Zelensky já foi direto: o país talvez tenha de escolher entre continuar soberano ou manter a amizade com Washington. A escolha, convenhamos, nunca deveria ter sido colocada na mesa.

A ministra francesa Alice Rufo resumiu o desconforto europeu ao classificar como “limitação de soberania” a parte do plano que restringe a atuação das Forças Armadas ucranianas. Em outras palavras, querem que a Ucrânia lute… mas não tanto.

Enquanto isso, Trump, na porta da Casa Branca, declarou que o plano “não é sua oferta final”, sem explicar absolutamente nada — como se estivesse negociando um prédio, não uma guerra que já ceifou dezenas de milhares de vidas. A Casa Branca, por sua vez, manteve o silêncio constrangedor típico de quem sabe que a proposta pegou mal.

A verdade é que, por trás do discurso de paz, esse projeto tem cheiro de rendição disfarçada. A guerra, como disse Trump, “nunca deveria ter acontecido”, e nisso ele está certo. Mas tentar encerrá-la às custas da liberdade de quem está sendo atacado não é negociação — é imposição.

E, para um país que tanto se apresenta como defensor da democracia, apoiar um acordo que enfraquece uma nação invadida é, no mínimo, um gesto que passa a sensação amarga de abandono.

Se paz for isso, a Ucrânia está certa em desconfiar. Porque nenhuma guerra termina realmente quando um país é obrigado a aceitar a humilhação como condição para sobreviver. É assim que se planta a semente para a próxima.

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