
Ex-dono da Reag relata suposto esquema de propinas ligado a Vorcaro
Em delação firmada com a PGR, João Carlos Mansur afirma que fundos administrados pela Reag teriam sido utilizados para ocultar pagamentos a autoridades públicas; acordo ainda aguarda homologação no STF
O caso Banco Master ganhou um novo capítulo com a delação premiada de João Carlos Mansur, fundador e ex-presidente do conselho de administração da Reag Investimentos. Segundo informações divulgadas pelo Poder360 e pela Folha, Mansur afirmou à Procuradoria-Geral da República (PGR) que fundos administrados pela gestora teriam sido utilizados para ocultar pagamentos de propina atribuídos a Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master.
A colaboração, porém, ainda precisa ser homologada pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Portanto, as declarações apresentadas por Mansur fazem parte de uma investigação e não representam, por si só, uma conclusão definitiva sobre a responsabilidade criminal dos citados.
A Reag no centro das investigações
De acordo com os relatos divulgados, Mansur teria detalhado à PGR como determinados fundos administrados pela Reag foram utilizados em operações relacionadas ao Banco Master.
A suspeita investigada é que essas estruturas financeiras poderiam ter servido para movimentar recursos retirados do banco e posteriormente direcionados ao patrimônio de Vorcaro ou para pagamentos considerados indevidos pelas autoridades.
O Banco Central já havia identificado operações consideradas irregulares entre o Banco Master e fundos ligados à Reag entre julho de 2023 e julho de 2024. A colaboração de Mansur pretende aprofundar justamente a compreensão sobre a origem, o destino e a finalidade desses recursos.
Recursos no exterior
Um dos pontos considerados relevantes pela investigação é a existência de recursos que teriam sido enviados para empresas offshore, estruturas constituídas fora do país.
Segundo o relato atribuído a Mansur, parte desses valores estaria fora do Brasil. A colaboração também apresentaria informações que poderiam auxiliar os investigadores a localizar recursos e estabelecer caminhos para eventual recuperação dos valores.
Esse aspecto pode ser especialmente importante para a investigação, pois identificar o caminho financeiro dos recursos é fundamental para determinar se houve lavagem de dinheiro, ocultação patrimonial ou utilização de estruturas financeiras para dificultar o rastreamento das operações.
Relação com Daniel Vorcaro
Daniel Vorcaro aparece como personagem central nas investigações envolvendo o Banco Master. Segundo a delação de Mansur, fundos administrados pela Reag teriam sido utilizados em operações relacionadas a recursos controlados por Vorcaro.
A defesa de Vorcaro afirmou que não teve acesso aos anexos da colaboração e, por essa razão, não poderia comentar especificamente as acusações apresentadas por Mansur.
Isso significa que, neste momento, é necessário separar aquilo que consta do relato do delator das conclusões que eventualmente serão alcançadas pela Polícia Federal, pelo Ministério Público e pelo Judiciário.
Mansur também assume compromissos com a Justiça
Como parte do acordo, Mansur teria se comprometido a pagar uma multa de R$ 40 milhões, além de colaborar com as autoridades para esclarecer a movimentação dos recursos e contribuir para a eventual recuperação de valores.
O empresário deixou o comando da Reag em 2025, após a crise provocada pela Operação Carbono Oculto, que investigou a infiltração do crime organizado na economia formal. Posteriormente, ele também foi alvo de busca e apreensão no âmbito da Operação Compliance Zero, relacionada às investigações sobre o Banco Master.
Suspeitas envolvendo autoridades públicas
As informações divulgadas indicam que a colaboração não se limita à descrição de movimentações financeiras. Mansur teria apresentado informações sobre supostos pagamentos de vantagens indevidas a autoridades públicas, além de indicar pessoas que, segundo seu relato, teriam atuado como intermediárias ou laranjas.
Um dos episódios já mencionado nas investigações envolve Paulo Henrique Costa, ex-presidente do Banco de Brasília (BRB). A Polícia Federal suspeita que estruturas financeiras administradas pela Reag possam ter sido utilizadas para ocultar pagamentos relacionados a ele.
Costa também teria buscado uma colaboração premiada, mas as negociações não avançaram. Atualmente, ele está preso, assim como Daniel Vorcaro.
Uma nova frente no caso Master
A delação de Mansur se soma a outros acordos e depoimentos que começam a ampliar o mapa das relações financeiras envolvendo o Banco Master.
Outro colaborador, Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como “Mineiro”, também firmou acordo com a PGR e teve sua colaboração homologada pelo ministro André Mendonça. Ele é apontado como operador financeiro ligado a Vorcaro e relatou operações envolvendo remessas financeiras, dinheiro em espécie e transferências para o exterior.
Com diferentes colaboradores apresentando informações sobre o funcionamento das estruturas financeiras ligadas ao caso, a investigação passa a ter como um de seus principais desafios confrontar os depoimentos com documentos bancários, contratos, transferências, registros contábeis e demais provas independentes.
O que ainda precisa ser comprovado
Apesar da gravidade das acusações, a delação de Mansur não deve ser tratada como uma condenação antecipada.
A investigação ainda precisa esclarecer:
- quais valores efetivamente circularam pelos fundos;
- quem recebeu os recursos;
- qual era a finalidade de cada operação;
- se os serviços e contratos relacionados às movimentações eram legítimos;
- se houve efetivamente pagamento de propina;
- quais autoridades públicas teriam sido beneficiadas;
- qual era a participação de Daniel Vorcaro;
- e se os recursos enviados ao exterior tiveram origem ilícita.
Também será necessário confrontar as declarações de Mansur com os documentos apreendidos e com os dados financeiros já obtidos pelas autoridades.
Homologação será etapa decisiva
O acordo de João Carlos Mansur foi encaminhado ao ministro André Mendonça, relator das investigações relacionadas ao Banco Master no STF, e ainda depende de homologação judicial. A Polícia Federal participou do início das negociações, mas não continuou diretamente nas tratativas.
A eventual homologação não significa que tudo o que foi declarado pelo colaborador esteja automaticamente comprovado. O conteúdo deverá ser analisado e confrontado com outras provas.
O caso que continua se ampliando
O novo relato acrescenta mais uma camada às investigações sobre o Banco Master: além das suspeitas envolvendo operações financeiras, fundos de investimento, empresas offshore e movimentações internacionais, os investigadores passaram a examinar com maior profundidade a possível utilização dessas estruturas para ocultar pagamentos e vantagens indevidas.
O caso, portanto, está longe de ser encerrado. A partir de agora, o ponto central será descobrir quais afirmações dos colaboradores encontram respaldo em provas independentes e quais ainda permanecem no campo das alegações.
Enquanto isso, Daniel Vorcaro permanece como um dos principais investigados no caso, e Mansur passa de investigado a colaborador em uma investigação que pode revelar detalhes sobre a circulação de recursos do Banco Master e suas conexões com agentes públicos e privados.
Até que as investigações sejam concluídas e eventuais acusações sejam julgadas, as informações atribuídas aos colaboradores devem ser tratadas como declarações sob investigação, e não como fatos definitivamente comprovados.