
Farpas, Sorrisos e Interesses Cruzados: Lula e Milei Frente a Frente no Mercosul
Encontro entre os presidentes do Brasil e da Argentina revela tensão diplomática, divergências ideológicas e acordos que ainda resistem à antipatia mútua.
Quando os presidentes se cumprimentam, mas os sorrisos não aparecem
O reencontro entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Javier Milei aconteceu nesta quinta-feira (3/7), durante a Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul, em Buenos Aires. Foi a primeira vez que Lula pisou em solo argentino desde que Milei assumiu a presidência, e o clima, como era de se esperar, foi tudo menos caloroso.
A presidência rotativa do Mercosul agora sai das mãos de Milei e passa para Lula, em um cenário recheado de tensão diplomática, provocações públicas e um histórico recente de rusgas ideológicas.
1. Dois mundos e um só palco: o teatro diplomático
Lula vive uma fase difícil, tanto interna quanto externamente. No Brasil, enfrenta 40% de desaprovação, segundo o Datafolha, e no exterior, a revista The Economist o classifica como “impopular no Brasil e incoerente no exterior”.
Já Milei, que se apresenta como um “anarcocapitalista”, foi celebrado pela mesma publicação como um presidente de “experimento extraordinário”. Mas isso não impediu que seu histórico de ataques a Lula se tornasse parte do atrito. Ainda candidato, chegou a chamá-lo de “comunista nervoso” e o acusou (sem provas) de financiar seu oponente na eleição argentina, Sergio Massa.
Lula, por sua vez, insinuou que a Argentina precisava de um presidente que respeitasse a democracia — e simplesmente ignorou a posse de Milei, enquanto Bolsonaro, opositor de Lula, foi à cerimônia com destaque.
2. Disputas pessoais, interesses institucionais
Apesar das faíscas trocadas nos bastidores e redes sociais, especialistas afirmam que os dois líderes sabem que precisam manter as aparências e, sobretudo, os acordos. Oliver Stuenkel, professor da FGV, destaca que Brasil e Argentina ainda compartilham interesses fundamentais — como negociações com a União Europeia e combate ao narcotráfico.
A agenda oficial de Lula em Buenos Aires ainda é uma incógnita, e pouco provável é um encontro privado entre os dois. Ainda assim, o gesto de Lula em ir à cúpula já mostra um movimento político cauteloso — necessário para a estabilidade diplomática entre os dois países.
3. Mercosul sob pressão: entre Europa e EUA
O Mercosul, criado em 1991, vive um momento decisivo. O esperado acordo com a União Europeia ainda está em fase de ratificação e depende da boa vontade de todos os países envolvidos — algo que a presidência brasileira pode facilitar.
Curiosamente, essa aproximação com a UE favorece os dois presidentes. Mesmo Milei, que já disse querer deixar o bloco, precisa dos benefícios que esse pacto pode trazer para a economia argentina em frangalhos.
Ele chegou a dizer que o Mercosul só serviu para enriquecer a indústria brasileira, mas sua retórica encontra limites na realidade diplomática. Uma saída unilateral do bloco não seria simples, nem bem-vista pelos vizinhos — e tampouco resolveria os dilemas econômicos do país.