
Flávio Bolsonaro diz que Eduardo errou ao agradecer tarifa de Trump e tenta separar irmão de medida contra o Brasil
Durante sabatina na Globo, candidato do PL afirmou que Eduardo Bolsonaro não pediu o “tarifaço”, mas admitiu que foi um erro agradecer pela medida; senador atribuiu as tarifas de 50% ao governo brasileiro e disse ter trabalhado nos Estados Unidos para tentar cancelá-las
A campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ganhou um novo capítulo de tensão familiar e diplomática nesta sexta-feira (28), durante a sabatina da TV Globo. Questionado pelo jornalista César Tralli sobre a atuação de seu irmão, Eduardo Bolsonaro, diante das tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros, Flávio fez uma distinção que chama atenção: afirmou que Eduardo não pediu as tarifas, mas reconheceu que o deputado “errou” ao agradecer pela decisão do governo de Donald Trump.
A declaração representa uma tentativa de separar duas coisas que, desde o anúncio das medidas norte-americanas, passaram a aparecer juntas no debate político brasileiro: a atuação de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos e os interesses comerciais do Brasil.
Segundo Flávio, o irmão teria trabalhado para apresentar autoridades americanas a sua versão sobre a situação política brasileira e para denunciar aquilo que considera violações de direitos e ataques ao ex-presidente Jair Bolsonaro. A decisão de aplicar tarifas, porém, teria sido tomada exclusivamente pelo governo Trump.
“Ele [Eduardo Bolsonaro] nunca pediu tarifas para empresas brasileiras”, afirmou Flávio. Em seguida, fez sua concessão mais importante: “Eu acho que ele errou de agradecer com relação às tarifas.”
A contradição resume o problema enfrentado pela família Bolsonaro: enquanto Eduardo atuava politicamente nos Estados Unidos em defesa dos interesses de seu pai e de sua própria narrativa sobre o Brasil, Donald Trump adotava uma medida com impacto direto sobre empresas brasileiras.
A pergunta de César Tralli
A questão foi colocada de maneira direta pelo jornalista César Tralli.
Ele lembrou que, em 9 de julho de 2025, quando Trump anunciou uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, Eduardo Bolsonaro publicou uma mensagem comemorando a medida e pedindo que brasileiros agradecessem ao presidente americano.
Na publicação, Eduardo escreveu que as conversas mantidas nos Estados Unidos haviam conseguido apresentar ao governo Trump, segundo sua própria interpretação, a realidade brasileira e que a decisão tarifária confirmaria o “sucesso” desse trabalho.
Tralli perguntou então se Eduardo havia colocado interesses familiares e eleitorais acima dos interesses nacionais.
A resposta de Flávio foi uma tentativa de reconstruir a motivação do irmão.
Segundo ele, Eduardo não teria buscado punições econômicas contra empresas brasileiras. Teria atuado para defender as “liberdades” e denunciar o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes.
Na narrativa apresentada por Flávio, as tarifas seriam uma decisão soberana de Trump, e não uma medida encomendada ou manipulada diretamente por Eduardo.
O erro reconhecido por Flávio
Apesar de defender o irmão, Flávio acabou fazendo uma crítica explícita.
Disse que Eduardo errou ao agradecer pelas tarifas.
É uma admissão politicamente significativa.
A família Bolsonaro sempre tratou Eduardo como um interlocutor importante em Washington. Ele se mudou para os Estados Unidos no início de 2025 e passou a atuar intensamente junto a parlamentares, autoridades e setores políticos americanos.
Se a missão era defender o Brasil, agradecer por uma medida que encarece produtos brasileiros constitui, no mínimo, uma contradição de imagem.
Flávio percebeu isso durante a sabatina.
Por isso, estabeleceu uma separação:
Eduardo poderia ter feito o trabalho político que julgava necessário; o erro teria sido agradecer pelo efeito econômico da decisão.
“Ele não tem absolutamente nada a ver com isso”
Flávio foi além ao insistir que Eduardo não poderia ser responsabilizado pela decisão de Trump.
Segundo o candidato, o irmão poderia apresentar argumentos, pedir providências e conversar com autoridades estrangeiras, mas não teria poder para determinar a política comercial americana.
“O trabalho que ele fez para conscientizar, e a decisão que ele tomou foi o governo americano, não foi Eduardo Bolsonaro. Portanto, ele não tem absolutamente nada a ver com isso”, afirmou.
A frase procura encerrar uma questão central da oposição:
se Eduardo trabalhou para influenciar Washington, até onde vai a responsabilidade política por aquilo que Washington decidiu fazer?
A resposta de Flávio é que influência não significa comando.
E, juridicamente, essa distinção é importante.
Mas politicamente, a situação é mais complexa.
O que Eduardo escreveu
A mensagem publicada por Eduardo no período do anúncio das tarifas é justamente o que tornou o episódio tão sensível.
Ele escreveu que a decisão de Trump confirmava, em sua avaliação, o sucesso do trabalho realizado nos Estados Unidos para apresentar a situação brasileira.
Também pediu que brasileiros agradecessem ao presidente americano e associou a medida à sua estratégia política.
É esse texto que coloca a família Bolsonaro diante de uma pergunta difícil:
como defender o interesse nacional enquanto se comemora uma medida que penaliza empresas brasileiras?
Flávio tentou resolver o problema admitindo o erro.
Mas não negou o conteúdo da mensagem.
A intervenção de Donald Trump
O presidente americano Donald Trump é o terceiro personagem central do episódio.
Foi o governo dos Estados Unidos que decidiu aplicar as tarifas.
Flávio insistiu que Trump tomou a decisão por conta própria.
“Você não pode acusar o Eduardo de manipular o Trump. Já seria demais. O Trump faz o que está na cabeça dele”, afirmou o senador.
A declaração revela a estratégia de Flávio.
Ele quer preservar a relação política com Trump sem assumir que o trabalho de Eduardo produziu a tarifa.
Ao mesmo tempo, não quer que o eleitor brasileiro interprete a atuação do irmão como uma defesa deliberada de prejuízos às empresas nacionais.
Flávio diz ter trabalhado contra as tarifas
Para reforçar essa distância, Flávio afirmou que ele próprio adotou posição oposta à de Eduardo no episódio.
Disse ter ido aos Estados Unidos para defender empresas brasileiras e tentar impedir ou cancelar o “tarifaço”.
Segundo o candidato, ele esteve em contato com a United States Trade Representative (USTR), órgão responsável pela política comercial americana, e buscou convencer o governo Trump a retirar as tarifas.
“Eu fiz questão também, no mesmo dia, de vir a público dizer que era contrário a isso”, afirmou.
Flávio tentou, assim, construir uma distinção entre os irmãos:
Eduardo atuava politicamente em defesa de Jair Bolsonaro e contra Alexandre de Moraes; Flávio afirma ter atuado contra as tarifas que atingiriam empresas brasileiras.
A acusação contra Lula
Mas Flávio não deixou o assunto apenas na defesa do Brasil.
Ele aproveitou a entrevista para atacar Luiz Inácio Lula da Silva.
Segundo o senador, o próprio governo Lula teria criado as condições políticas para a imposição das tarifas.
Flávio chegou a ironizar:
“Parabéns, Lula, você conseguiu tarifar as empresas brasileiras.”
A frase tem função eleitoral evidente.
Em vez de aceitar que o debate ficasse concentrado na atuação de Eduardo, Flávio transferiu o eixo para Lula.
A estratégia é a mesma utilizada pelo candidato em outros assuntos durante a sabatina:
quando pressionado por uma questão envolvendo sua família ou seu campo político, procura demonstrar que o adversário também teria responsabilidade ou problemas semelhantes.
O argumento da “provocação”
Flávio afirmou que Lula teria adotado uma postura de confronto com os Estados Unidos, inclusive por meio de declarações críticas ao governo Trump e ao secretário de Estado Marco Rubio.
Na narrativa do candidato, essa postura teria contribuído para a decisão americana.
Flávio disse ainda que Lula teria interesse eleitoral em apresentar a política externa como uma disputa contra os Estados Unidos.
Essa interpretação, contudo, é uma avaliação política do candidato.
A decisão tarifária pertence ao governo americano, e estabelecer causalidade entre declarações brasileiras e a decisão de Trump exige mais do que uma afirmação durante uma entrevista.
É necessário demonstrar os fatos e os elementos concretos que levaram à medida.
A pergunta sobre os interesses do Brasil
O momento mais delicado veio quando Tralli insistiu na diferença entre interesses familiares e interesses nacionais.
A pergunta colocava Eduardo no centro de um dilema:
se o filho de um ex-presidente tenta influenciar autoridades estrangeiras para interferir em processos relacionados ao pai, até que ponto ele continua atuando em nome do Brasil?
Flávio respondeu defendendo a legitimidade da atuação de Eduardo.
Disse que o irmão estava nos Estados Unidos para defender liberdades, denunciar Moraes e apresentar sua versão sobre o cenário brasileiro.
O ponto controverso é que uma atuação de natureza política internacional pode gerar consequências concretas para o próprio país.
A Lei Magnitsky
Outro elemento citado por Flávio foi a chamada Lei Magnitsky, legislação americana usada para aplicar sanções a indivíduos acusados de corrupção grave ou violações de direitos humanos.
Segundo Flávio, Eduardo trabalhou para levar aos americanos sua visão sobre o ministro Alexandre de Moraes, que foi alvo de medidas do governo Trump.
Flávio afirmou que Eduardo tentou apresentar a Moraes como alguém que violava direitos humanos.
A questão tornou-se ainda mais sensível porque o próprio Eduardo Bolsonaro enfrenta consequências judiciais no Brasil relacionadas à sua atuação nos Estados Unidos.
Segundo a decisão do Supremo mencionada pelo Poder360, Eduardo foi condenado por coação no curso do processo, em razão de sua atuação para interferir no andamento de ações penais envolvendo Jair Bolsonaro.
Esse detalhe ajuda a explicar por que sua atividade em Washington se tornou um dos temas mais delicados da família Bolsonaro.
O julgamento de Eduardo Bolsonaro
Flávio também criticou a participação de Alexandre de Moraes no processo contra Eduardo.
Na entrevista, afirmou que considera inadequado que Moraes, que seria parte interessada nos fatos relacionados às sanções americanas, participe do julgamento do irmão.
Essa é uma posição política apresentada por Flávio.
O argumento parte da tese de que Moraes teria interesse direto no caso.
O Supremo, por sua vez, possui regras próprias de impedimento e suspeição, e a competência de cada ministro é definida institucionalmente.
A questão, portanto, não pode ser resumida apenas à crítica do candidato.
O cenário diplomático
O episódio ocorre em uma relação já tensionada entre Brasil e Estados Unidos.
Tarifas comerciais possuem efeitos que ultrapassam a política.
Podem atingir exportadores.
Podem encarecer produtos.
Podem prejudicar cadeias produtivas.
Podem provocar retaliações.
Podem alterar decisões empresariais.
Por isso, a controvérsia ganhou dimensão econômica e diplomática.
A família Bolsonaro está no meio desse conflito por causa da atuação de Eduardo nos Estados Unidos e da posição política de Flávio.
O dilema de Eduardo
Eduardo Bolsonaro se colocou em uma posição politicamente difícil.
Ao atuar para defender seu pai e criticar autoridades brasileiras nos Estados Unidos, pode dizer que está lutando por princípios políticos.
Mas, quando uma decisão do governo americano atinge empresas brasileiras, a mesma atuação passa a ser examinada pelo prisma dos interesses nacionais.
A mensagem de agradecimento a Trump tornou-se especialmente problemática.
Não porque ela prove que Eduardo tenha solicitado o tarifaço — Flávio nega que isso tenha ocorrido —, mas porque produz uma imagem politicamente desfavorável.
Agradecer por uma tarifa contra produtos brasileiros é uma mensagem difícil de explicar ao empresário, ao exportador e ao trabalhador brasileiro afetado pela medida.
Flávio tenta corrigir o dano
Ao admitir que Eduardo “errou” ao agradecer, Flávio tenta fazer aquilo que políticos frequentemente fazem diante de uma fala inconveniente:
preserva a essência da atuação do aliado, mas concede que a forma foi inadequada.
Em outras palavras:
Eduardo teria razão em sua cruzada política contra Moraes.
Mas teria errado na forma de reagir ao tarifaço.
É uma defesa intermediária.
Não abandona o irmão.
Mas reconhece o problema.
O debate sobre patriotismo
O episódio também revela uma disputa mais profunda sobre o significado de patriotismo.
Para Flávio e Eduardo, defender Jair Bolsonaro e denunciar o que consideram abusos do Judiciário também seria defender o Brasil.
Para seus críticos, entretanto, qualquer atuação que contribua para pressionar o país economicamente não pode ser apresentada como defesa do interesse nacional.
É uma disputa de conceitos.
E justamente por isso a frase de agradecimento ganhou tanto peso.
O Brasil acima da família?
A pergunta feita por Tralli contém, no fundo, um dilema maior:
quando os interesses da família e os interesses do país entram em conflito, qual deles vem primeiro?
Flávio respondeu que o irmão nunca pediu as tarifas.
Mas reconheceu que agradecer por elas foi um erro.
A resposta evita admitir que Eduardo tenha colocado deliberadamente a família acima do Brasil.
Ao mesmo tempo, reconhece que a imagem criada pelo gesto não foi aceitável.
O Pix como segundo capítulo
A divergência entre os irmãos também apareceu na discussão sobre o Pix.
Tralli lembrou que Eduardo havia falado sobre levar o sistema de pagamentos brasileiro para a mesa de negociações com os Estados Unidos.
Flávio foi categórico:
“O Pix é inegociável.”
Segundo ele, Eduardo teria sido mal interpretado e apenas explicado que os Estados Unidos possuem ferramenta semelhante.
Flávio fez questão de afirmar que o Pix não poderia ser objeto de negociação.
É outra tentativa de estabelecer uma diferença entre sua posição e aquilo que foi interpretado como uma fala ambígua do irmão.
A guerra de versões
No fim, o episódio reúne três versões.
A versão de Eduardo Bolsonaro: sua atuação nos Estados Unidos seria voltada à defesa das liberdades e à denúncia de supostas violações praticadas por autoridades brasileiras.
A versão de Flávio Bolsonaro: Eduardo não pediu tarifas, Trump decidiu sozinho, e o único erro do irmão foi agradecer publicamente pela medida.
A versão dos críticos da família: a atuação de Eduardo teria ajudado a criar um ambiente político favorável à pressão econômica contra o Brasil e revelou uma disposição de colocar a disputa familiar acima dos interesses nacionais.
São narrativas diferentes.
Os fatos precisam ser separados de cada interpretação.
Observação em destaque
OBSERVAÇÃO: Flávio Bolsonaro afirmou que Eduardo Bolsonaro não pediu as tarifas americanas e reconheceu que o irmão “errou” ao agradecer pela decisão de Donald Trump. Essa declaração não equivale a uma prova de que Eduardo tenha provocado ou determinado o “tarifaço”; tampouco elimina o debate político sobre sua atuação nos Estados Unidos. A decisão tarifária foi tomada pelo governo americano, e a responsabilidade jurídica ou política por eventuais efeitos precisa ser analisada com base em fatos comprováveis.
O que Flávio ganhou com a resposta
Politicamente, Flávio tentou sair da sabatina com três objetivos.
Primeiro, proteger Eduardo sem repetir a defesa integral da mensagem de agradecimento.
Segundo, demonstrar ao eleitor brasileiro que ele próprio se posicionou contra as tarifas.
Terceiro, responsabilizar Lula pelo ambiente diplomático que, segundo sua interpretação, teria contribuído para a medida americana.
É uma estratégia de sobrevivência eleitoral.
O candidato não pode abandonar o irmão.
Mas também não pode parecer indiferente às empresas brasileiras atingidas.
O problema que permanece
A admissão de Flávio resolve uma parte do problema, mas não toda a controvérsia.
Ele reconheceu o erro.
Eduardo continua defendendo sua atuação.
Trump continua sendo o responsável pela decisão americana.
Lula é acusado por Flávio de ter contribuído politicamente para o cenário.
E as empresas brasileiras continuam no centro da discussão econômica.
A pergunta que resta é mais profunda do que saber quem publicou qual mensagem.
Até onde um político pode levar sua disputa pessoal e partidária para o campo internacional sem que isso produza consequências para o próprio país?
Flávio respondeu que Eduardo errou.
Talvez essa tenha sido a concessão mais importante de sua entrevista.
Mas o episódio deixa uma lição política clara:
quando a disputa doméstica atravessa a fronteira e chega à diplomacia, o preço de uma frase deixa de ser apenas eleitoral. Pode virar conta para o país inteiro.