
Governo aposta na obediência do Senado e transforma veto em troféu político
Enquanto Lula posa de guardião da democracia, líder governista trata senadores como carimbadores de decisão
Nos corredores do Palácio do Planalto, a confiança é tanta que chega a soar como desprezo pelo debate democrático. Um líder do governo avalia que o Senado não deve ousar contrariar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e tende a manter o veto ao Projeto de Lei da Dosimetria, como se a função dos senadores fosse apenas confirmar decisões já tomadas.
A leitura interna do governo é de que a escolha do 8 de janeiro para anunciar o veto não foi mero acaso, mas uma jogada simbólica cuidadosamente ensaiada. A data, marcada pelos ataques às sedes dos Três Poderes, teria sido usada como palco para agradar a militância de esquerda que voltou às ruas exigindo punições exemplares — ainda que isso custe o diálogo institucional.
O que causa repúdio é o tom de naturalidade com que o senador governista trata o Congresso, reduzindo o Senado a uma espécie de extensão do Executivo. A fala deixa claro que, para alguns, a independência entre os Poderes virou detalhe decorativo, bom apenas para discursos formais.
Ao apostar que os senadores manterão o veto sem resistência, o governo reforça a sensação de que o debate legislativo já está decidido antes mesmo de acontecer. Não se trata mais de convencer, argumentar ou dialogar, mas de contar votos como quem confere presença em sala de aula.
No fim das contas, o veto ganha ares de gesto político calculado, embalado em simbolismo e vendido como defesa da democracia — ainda que, nos bastidores, o recado seja outro: quem manda decide, e quem discorda que fique em silêncio.