
Governo Lula vê blefe do Centrão sobre anistia
Aliados do presidente interpretam sinal de apoio como pressão por cargos e emendas
Interlocutores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enxergam no Centrão um movimento de blefe ao sinalizar adesão ao projeto de anistia aos envolvidos nos atos do dia 8 de janeiro. A leitura no Planalto é que os partidos tentam usar o tema como moeda de troca para conseguir mais espaço em cargos e atenção na liberação de emendas, especialmente em um momento de expectativa por uma reorganização ministerial.
Uma parte do grupo político demonstrou alinhamento com a proposta defendida pela direita justamente durante o início do julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) no Supremo Tribunal Federal (STF), nesta terça-feira (2/9). A estratégia tem dividido o Centrão: alguns defendem um perdão amplo, que poderia alcançar líderes da tentativa de golpe, enquanto outros apoiam uma versão mais restrita, beneficiando apenas os réus de menor expressão.
Fontes próximas ao governo afirmam que União Brasil e PP devem anunciar em breve rompimento com o governo, abrindo espaço na Esplanada e aumentando a disputa por ministérios estratégicos, como Comunicação e Esporte. Nesse cenário, outros partidos observam atentos a oportunidade de ocupar posições de destaque.
A confiança do Palácio do Planalto de que a proposta de anistia não avançará se apoia, em parte, na posição do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). Ele tem afirmado que uma anistia ampla não tem apoio real na Casa e tem resistido a pautar o tema. Motta mantém cautela e evita encontros sobre o assunto, mesmo diante da pressão de aliados do governo e do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Para interlocutores do governo, não existe disposição real do Centrão em confrontar o STF, que condenou centenas de participantes da invasão às sedes dos Três Poderes em janeiro de 2023. O movimento é, portanto, interpretado como estratégia política para barganhar vantagens diante do Planalto, sem compromisso concreto com a aprovação da anistia.