
Justiça do Ceará absolve nove acusados de ligação com o PCC através do Jogo do Bicho
Tribunal aponta falta de provas concretas; sobrinho de Marcola estava entre os réus
O Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE) decidiu absolver nove pessoas que eram acusadas de operar o “Jogo do Bicho” e manter suposta ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC). A sentença, proferida em 27 de agosto e publicada no dia 1º de setembro, considerou que não havia provas concretas que sustentassem a condenação dos acusados.
Entre os absolvidos está Leonardo Alexander Ribeiro Herbas Camacho, sobrinho de Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, líder máximo da facção. O colegiado de magistrados entendeu que, embora os réus tivessem vínculos com a Loteria Fort, não ficou comprovada qualquer relação da empresa com o PCC. A Loteria Fort, segundo a decisão, era legalmente constituída e tinha autorização judicial para operar no Ceará, com sorteios transmitidos em canais de TV aberta.
A investigação começou em 2022 e levou à Operação Primma Migratio, deflagrada em abril de 2024 pela Força Integrada de Combate ao Crime Organizado no Ceará (Ficco/CE). A ação visava desmantelar um suposto núcleo do PCC responsável por lavagem de dinheiro por meio de casas de apostas. O ponto de atenção das autoridades surgiu quando a facção rival, Comando Vermelho (CV), passou a proibir a atuação da Loteria Fort em territórios que reivindicava, associando a empresa à facção paulista.
O tribunal ressaltou que nenhuma das evidências apresentadas, nem mensagens encontradas nos celulares dos réus, comprovava envolvimento direto com o PCC. “O fato de uma organização criminosa rival proibir a atuação de uma empresa não caracteriza, por si só, participação em atividades ilícitas em benefício de facção”, afirmou a sentença.
Além de Leonardo Alexander, também foram absolvidos Francisco Julienio Lima Vasconcelos, Matheus Victor Saboia Moreira, Marcelo Anderson Alves da Silva, Renato Ramos, Paulo Monteiro da Silva, Cintia Chaves Gonçalves, Maria Aldênia de Lima e Geomá Pereira de Almeida. Juntos, os nove movimentaram mais de R$ 300 milhões em 146 transações bancárias entre 2011 e 2022.
Geomá Pereira, dono da loteria, declarou em depoimento que nunca manteve contato com Leonardo e que sua empresa não explorava o Jogo do Bicho, apenas operações de loteria convencional. Ele ainda contou que, quando o Comando Vermelho passou a ameaçar seus pontos de aposta, não buscou reaver os locais perdidos, sofrendo prejuízos de até 70% de sua operação no estado.
O tribunal também destacou que Francisca Alves da Silva, parceira de Marcolinha (irmão de Marcola), foi apontada como figura de comando, mas não houve provas que comprovassem seu envolvimento efetivo com a facção, assim como os demais réus, que foram considerados integrantes de um suposto “Núcleo Operacional/Executivo”, mas acabaram absolvidos.