
Liderança Munduruku cobra Lula na COP30 e protesta contra Ferrogrão
Sem resposta do governo, indígenas fecham acessos da conferência e exigem demarcações, proteção do território e o fim da ferrovia que ameaça suas comunidades
A tensão na COP30 ganhou um novo capítulo nesta sexta-feira. Alessandra Munduruku, uma das vozes mais firmes do povo Munduruku, rompeu o silêncio que o governo insiste em manter e lançou um recado direto ao presidente Lula: “A gente quer uma resposta do Lula.”
Do lado de fora das salas climatizadas onde acontecem discursos sobre clima e sustentabilidade, indígenas protestam contra a Ferrogrão — a ferrovia planejada para ligar Mato Grosso ao Pará, cortando áreas sensíveis e impactando diretamente comunidades tradicionais.
Alessandra não disfarçou a indignação. Para ela, a obra representa uma ameaça grave:
“A nossa preocupação é o decreto. A Ferrogrão vai nos prejudicar bastante.”
Mesmo com a pressão crescente, não há qualquer confirmação de que Lula vá receber as lideranças. O governo apenas acenou com uma “possível agenda”, mas nada concreto — nada que alivie a sensação de abandono entre os povos afetados.
O que está em jogo
A Ferrogrão mexe nos limites do Parque Nacional do Jamanxim, e embora seja defendida por setores do próprio governo, depende ainda da palavra final do STF. Os indígenas, porém, têm pressa — não querem ver suas terras transformadas em corredores de carga a serviço do agronegócio.
A pauta ganhou força com protestos durante a semana, muitos deles em barcos, simbolizando a relação íntima entre os povos amazônicos e seus rios. Nesta sexta, o movimento fechou o acesso à Zona Azul da COP, impedindo até negociadores de entrar. O ato foi pacífico, mas impossível de ignorar.
Governo tenta conter desgaste
Diante da repercussão, as ministras Marina Silva e Sonia Guajajara receberam as lideranças em um auditório fora da área oficial da conferência. O presidente da COP30, André Corrêa do Lago, também participou e classificou o encontro como “positivo”.
Os indígenas entregaram documentos e reforçaram duas demandas que o governo segue evitando:
- Demarcação de terras
- Freio em hidrovias e obras que avancem sobre territórios tradicionais
“A nossa casa é o rio”
Apesar da reunião, Alessandra Munduruku deixou claro que a mobilização continua:
“A gente não vai permitir. A nossa casa é o nosso rio, a nossa floresta.”
E a COP30, já marcada por controvérsias, vê mais uma vez sua vitrine internacional expor contradições profundas entre discurso ambiental e decisões políticas dentro do Brasil.
Se Lula vai responder? Até agora, silêncio.
E para quem depende da terra para viver, silêncio também é violência.