
“As únicas vítimas foram os policiais”, diz Cláudio Castro — após a operação mais letal da história do Rio
Governador defende ação como “sucesso” e afirma que todos os mortos eram criminosos. Polícia diz que 119 foram “neutralizados”; Defensoria aponta 132 vítimas.
O governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), afirmou nesta quarta-feira (29) que as únicas vítimas da megaoperação nas comunidades da Penha e do Alemão foram os quatro policiais mortos em combate. A fala ocorreu em coletiva de imprensa, enquanto a Defensoria Pública do Estado denunciava um total de 132 mortos, a maioria moradores das comunidades, em uma ação que já entrou para a história como a mais letal já registrada no Rio.
“As verdadeiras vítimas foram os quatro policiais. De vítimas, ontem, só tivemos os quatro policiais”, disse o governador, defendendo o que chamou de “sucesso da operação”.
Segundo o governo, a ofensiva foi uma resposta direta ao Comando Vermelho, facção que domina boa parte das áreas onde a operação aconteceu. O secretário de Polícia Civil, Felipe Curi, detalhou que 119 pessoas morreram, sendo 115 classificadas como narcoterroristas e 4 policiais.
“Ontem foram 58 neutralizados e, hoje, mais 61 encontrados na mata. Total de 119 mortos”, afirmou Curi, usando o termo “neutralizados” para se referir aos suspeitos mortos.
⚔️ Entre o dever e o caos
A megaoperação envolveu 2,5 mil agentes, com o apoio de helicópteros blindados, veículos pesados e drones, em uma ação que, segundo o governo, visava “retomar o controle de territórios dominados pelo crime organizado”.
Nas ruas, porém, o cenário era outro: moradores em desespero, corpos amarrados e famílias tentando reconhecer entes queridos sob lonas na Praça São Lucas, na Penha. Segundo o ativista Raull Santiago, do Instituto Papo Reto, mais de 60 corpos foram levados até a praça por moradores após uma madrugada de confrontos.
Mesmo diante das cenas de horror, o governador manteve o discurso de vitória:
“A operação foi um sucesso. O Estado do Rio mostrou que não vai recuar diante do crime.”
🚨 O Rio entre o medo e o dever
Durante a madrugada, o Centro de Operações da Prefeitura chegou a decretar estágio de alerta máximo, com ruas interditadas e transportes paralisados. Escolas e universidades suspenderam as aulas, e o Hospital Getúlio Vargas ficou lotado de feridos.
Às 6h, o Rio voltou ao estágio 1, mas o clima de tensão continua. O Estado comemora o que chama de avanço contra o tráfico, enquanto famílias ainda procuram seus desaparecidos.
🕯️ Entre números e nomes
A fala do governador reflete o conflito entre o discurso oficial e a realidade nas favelas. De um lado, o governo comemora a ofensiva como uma vitória contra o crime. Do outro, a Defensoria e organizações sociais denunciam um massacre e cobram investigações sobre as mortes.
Em meio à tragédia, a frase “as únicas vítimas foram os policiais” sintetiza o abismo entre o poder público e a vida nas periferias. Para uns, heróis que cumpriram o dever; para outros, o Estado que age como se a dor tivesse lado.