
Lula admite que custo de vida está alto e diz: “Se não tem carne, a gente come ovo”
Presidente reconhece pressão sobre os preços dos alimentos durante discurso em Porto Alegre; declaração provoca críticas por apresentar a substituição da carne pelo ovo como alternativa diante da carestia
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reconheceu que o custo de vida está elevado no Brasil e afirmou que a alta dos preços dos alimentos é uma preocupação que está levando “muito a sério”.
A declaração ocorreu na noite de sexta-feira (11), em Porto Alegre, durante um discurso de campanha. Ao falar sobre o preço dos alimentos e as dificuldades enfrentadas pelos brasileiros, Lula afirmou que, quando a carne fica fora do alcance do consumidor, é possível substituí-la por ovos — e, em uma situação ainda mais difícil, recorrer ao tradicional arroz com feijão.
A frase que ganhou repercussão foi:
“Nós gostamos de ovo para caramba. Se não tem carne, a gente come ovo, se não tem ovo, a gente come carne. Mas, quando não tem os dois, a gente come como eu comia quando eu levava marmita: arroz e feijão puro porque não tinha mistura.”
O presidente acrescentou:
“Essa questão do custo de vida é uma coisa que eu estou levando muito a sério.”
A fala que rapidamente virou alvo de críticas
A declaração ganhou repercussão porque ocorre justamente em um momento em que o custo dos alimentos é uma das questões que mais afetam o orçamento das famílias.
A crítica não está no fato de ovos e arroz com feijão serem alimentos importantes e nutritivos. O problema está na forma como a declaração pode ser interpretada: diante do aumento do preço de um alimento, a solução apresentada pelo presidente foi simplesmente substituí-lo por outro.
Para o consumidor que enfrenta preços elevados no supermercado, entretanto, a questão é mais ampla.
Não se trata apenas de escolher entre carne e ovo.
É o preço da cesta inteira.
É o leite.
É o café.
É o arroz.
É o feijão.
É o óleo.
É o pão.
É a fruta.
É a conta de energia.
É o combustível.
É o aluguel.
É o transporte.
Quando vários itens aumentam ao mesmo tempo, trocar um alimento por outro pode aliviar parcialmente uma compra, mas não resolve o problema do orçamento familiar.
O próprio Lula reconheceu o problema
Um ponto importante é que Lula não negou a existência da pressão sobre o custo de vida.
Pelo contrário: ele afirmou explicitamente que está levando o problema a sério.
Isso representa uma mudança importante na narrativa política, porque o governo passa a reconhecer que a percepção de preços elevados não é apenas uma reclamação da oposição ou do mercado.
O cidadão sente o peso no bolso.
E o presidente reconheceu isso.
Ao mesmo tempo, Lula tentou contextualizar a situação dizendo que a alta seria inferior à registrada durante o governo Jair Bolsonaro. Essa comparação faz parte da estratégia do governo para defender sua política econômica.
Mas a comparação histórica não elimina a dificuldade enfrentada pelo consumidor hoje.
Se determinado produto está mais barato do que esteve em outro período, mas continua caro em relação à renda da família, o problema permanece para quem precisa comprá-lo.
A ironia do “tem carne, come carne; não tem, come ovo”
A fala presidencial também abriu espaço para uma ironia inevitável.
Se tem carne, come carne. Se não tem carne, come ovo. Se não tem ovo, arroz e feijão.
A pergunta é: e se o arroz, o feijão, o ovo e a própria carne estiverem caros?
Aí o problema deixa de ser uma simples troca de alimentos.
É exatamente nesse ponto que a declaração de Lula merece ser questionada.
O governo federal não pode tratar o custo de vida apenas como uma questão de adaptação do consumidor. A responsabilidade de uma política econômica também envolve criar condições para que a renda acompanhe os preços e para que a inflação seja controlada de maneira sustentável.
Os preços dos alimentos não estão todos subindo ao mesmo tempo
Também é importante evitar uma generalização.
Os dados mais recentes do IPCA mostram que, em agosto de 2026, o grupo de alimentação e bebidas registrou deflação de 0,34%, embora alguns produtos tenham continuado subindo, entre eles leite, frutas e carnes. O índice geral teve deflação de 0,32% no mês.
Isso significa que a fotografia da inflação é mais complexa do que dizer simplesmente que “tudo está subindo”.
Alguns alimentos caíram de preço, enquanto outros ficaram mais caros.
Para o consumidor, porém, a composição da cesta importa muito. Uma queda expressiva em determinados produtos não necessariamente compensa a alta daqueles que a família compra regularmente.
É justamente por isso que a percepção de custo de vida pode continuar elevada mesmo quando determinados índices apresentam desaceleração.
A carne continua no centro do debate
A carne tem peso especial na declaração porque o produto voltou a ser um símbolo político da discussão sobre poder de compra.
Lula já havia utilizado, em sua trajetória política, a promessa de que os brasileiros deveriam voltar a ter acesso a alimentos considerados básicos e a produtos que representam melhoria da renda.
Agora, ao dizer “se não tem carne, a gente come ovo”, o presidente acaba produzindo uma imagem política bastante diferente daquela associada à promessa de maior poder de compra.
A oposição pode explorar justamente essa contradição.
De um lado, o discurso de prosperidade.
Do outro, a recomendação de substituir um alimento mais caro por outro mais barato.
O ovo virou alternativa — mas também ficou caro
Existe ainda uma ironia adicional.
O ovo também sofreu oscilações de preço nos últimos anos e deixou de ser uma alternativa permanentemente barata em algumas regiões e períodos.
Portanto, a ideia de simplesmente trocar carne por ovos não pode ser apresentada como solução universal.
O consumidor brasileiro conhece essa realidade diretamente no supermercado.
Ele não acompanha apenas a inflação oficial.
Ele acompanha o preço da bandeja de ovos, do quilo da carne, do pacote de arroz e do café na prateleira.
O problema do funcionamento da economia
A fala de Lula permite abrir uma discussão maior sobre o funcionamento da economia.
Os preços dos alimentos dependem de diversos fatores: produção agrícola, clima, custos de transporte, câmbio, exportações, demanda interna e internacional, combustíveis, crédito, logística, impostos e condições de oferta.
Não existe uma única caneta capaz de determinar o preço de todos os alimentos.
Mas o governo possui instrumentos para criar condições macroeconômicas mais favoráveis, estimular produção, melhorar infraestrutura, reduzir gargalos e preservar o poder de compra.
Por isso, a crítica deve ser direcionada não apenas à frase, mas ao funcionamento geral da política econômica.
Se o cidadão precisa escolher entre carne e ovo porque seu salário não acompanha o custo da alimentação, existe um problema de poder de compra que precisa ser enfrentado.
Crítica: o consumidor não deveria ser obrigado a “se adaptar” à carestia
A principal crítica à declaração de Lula está justamente aqui.
O governo deve combater a carestia — e não simplesmente ensinar o consumidor a conviver com ela.
É perfeitamente razoável recomendar alimentação equilibrada e diversificada.
Mas existe uma diferença entre orientação nutricional e adaptação à perda de poder de compra.
Quando uma família deixa de comprar carne porque o preço ficou proibitivo, isso pode representar uma escolha econômica forçada, não uma opção voluntária.
E quando essa família também precisa reduzir outros produtos da cesta, o problema é ainda maior.
O discurso eleitoral
A declaração ocorreu durante um discurso em Porto Alegre, em um momento de intensa disputa eleitoral.
Lula tenta mostrar que reconhece as dificuldades econômicas e, ao mesmo tempo, sustenta que sua administração está trabalhando para reduzir o impacto sobre os brasileiros.
A oposição, por sua vez, encontra na frase uma oportunidade para questionar a situação econômica do país.
O eleitor provavelmente fará sua própria avaliação:
A renda aumentou?
O supermercado ficou mais acessível?
A família consegue comprar os mesmos produtos de antes?
A carne voltou para a mesa?
O salário está rendendo mais ou menos?
São perguntas muito mais concretas do que qualquer discurso político.
A fala de Lula em destaque
“Se não tem carne, a gente come ovo, se não tem ovo, a gente come carne. Mas, quando não tem os dois, a gente come como eu comia quando eu levava marmita: arroz e feijão puro porque não tinha mistura.”
Análise
Lula tentou transmitir uma mensagem de simplicidade e experiência pessoal. Ao recordar que já comeu arroz e feijão sem mistura, buscou criar identificação com trabalhadores que enfrentam dificuldades econômicas.
Entretanto, em uma campanha eleitoral, a mesma fala pode produzir efeito contrário.
Para os apoiadores, é uma demonstração de que o presidente conhece as dificuldades da população.
Para os críticos, é uma declaração que normaliza a perda de poder de compra.
A diferença está na interpretação.
O governo pode dizer que existem alternativas alimentares.
A oposição pode responder que o objetivo de uma política econômica deveria ser aumentar a capacidade de compra, e não ensinar o brasileiro a substituir produtos que ficaram caros.
A crítica editorial
Lula está correto em reconhecer que o custo de vida merece atenção.
Também é verdade que ninguém precisa comer carne todos os dias para ter uma alimentação adequada.
Mas existe uma questão política que não pode ser ignorada:
o brasileiro quer escolher o que colocar na mesa — não receber uma lista de substituições porque os preços ficaram altos.
Se a carne está cara, o governo precisa explicar o que está fazendo para aumentar a oferta, reduzir gargalos e preservar o poder de compra.
Se o ovo também fica caro, qual é a alternativa?
E se o arroz e o feijão subirem?
Aí chegamos ao ponto central.
Não é o brasileiro que precisa se adaptar eternamente à inflação. É a política econômica que precisa funcionar para que o salário do trabalhador tenha capacidade real de compra.
Texto de destaque
“SE NÃO TEM CARNE, A GENTE COME OVO”: Lula reconhece que o custo de vida está caro e afirma que está levando o problema a sério. Declaração ocorre em plena campanha eleitoral e abre novo debate sobre inflação, alimentos e poder de compra.
Partes envolvidas
Luiz Inácio Lula da Silva: presidente da República e autor da declaração durante discurso em Porto Alegre.
Consumidores brasileiros: diretamente afetados pelas variações de preços dos alimentos e pela capacidade de compra da renda familiar.
Governo federal: responsável pelas políticas econômicas e por medidas que podem influenciar inflação, produção, abastecimento, renda e poder de compra.
Setor de alimentos e produtores rurais: participantes de uma cadeia que envolve produção, transporte, comercialização e formação dos preços finais.
Oposição política: deve utilizar a declaração para questionar a situação econômica e o poder de compra durante a campanha eleitoral.
Nome do vídeo
LULA ADMITE CARESTIA E DIZ: “SE NÃO TEM CARNE, A GENTE COME OVO” — E O BRASILEIRO, COMO FICA?
Subtítulo do vídeo
Presidente reconhece que custo de vida está alto, mas declaração sobre substituir carne por ovo provoca críticas sobre poder de compra e funcionamento da economia.
Fechamento
A frase de Lula pode parecer simples, mas representa um debate muito maior.
Carne, ovo, arroz e feijão não são apenas alimentos. São parte do orçamento das famílias brasileiras.
Quando o presidente reconhece que o custo de vida está alto, o governo precisa apresentar mais do que alternativas para substituir produtos.
Precisa mostrar resultados.
Porque, no fim do mês, o brasileiro não paga a conta com discurso.
Paga com o salário.
E a verdadeira medida da economia talvez esteja justamente na pergunta mais simples:
o dinheiro que entra hoje no bolso do trabalhador compra mais ou compra menos do que comprava antes?