
Lula antecipa campanha e tenta transformar 2026 em um tribunal do passado
Presidente aposta na comparação com governos anteriores enquanto evita responder pelos problemas do presente
Antes mesmo de a corrida eleitoral começar oficialmente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já escolheu o roteiro que pretende repetir até 2026: olhar para trás, apontar culpados e pedir que o eleitor compare gestões passadas com a sua. Em discurso durante a entrega de moradias do programa Minha Casa, Minha Vida, Lula deixou claro que pretende transformar a próxima eleição em um grande exercício de comparação política — convenientemente focado nos governos que o antecederam.
Com um discurso carregado de simbolismo e metáforas agrícolas, o presidente afirmou que os dois primeiros anos de governo teriam sido dedicados à “reconstrução” do país, enquanto 2025 teria sido o ano do plantio. Agora, segundo ele, chegaria o momento da colheita. A narrativa é bonita no papel, mas ignora um detalhe incômodo: o Brasil real segue lidando com problemas antigos que o discurso não resolve.
Comparar é fácil; governar é mais difícil
Lula afirmou que quer confrontar os resultados de sua gestão com os períodos de Michel Temer e Jair Bolsonaro, defendendo que o debate eleitoral seja pautado por números e entregas. O presidente chegou a propor uma comparação direta entre o que seu governo fez em três anos e o que os anteriores teriam feito em sete.
Na prática, porém, a proposta soa menos como transparência e mais como estratégia política para terceirizar responsabilidades. Afinal, passados mais de dois anos de mandato, já não é possível governar apenas com o retrovisor. A população cobra soluções concretas no presente — e não apenas discursos que reciclam o passado como desculpa permanente.
A retórica da verdade seletiva
Durante a fala, Lula também voltou a atacar o que chama de “era da mentira”, criticando a disseminação de fake news e ataques pessoais nas redes sociais. Segundo ele, suas declarações seriam constantemente distorcidas por adversários políticos.
O problema é que o próprio presidente seleciona cuidadosamente os fatos que deseja destacar, enquanto evita enfrentar críticas legítimas sobre economia, segurança, inflação, gastos públicos e alianças políticas controversas. O discurso contra a desinformação perde força quando vem acompanhado de narrativas que ignoram erros do próprio governo.
O eleitor como juiz final — mais uma vez
Ao final, Lula afirmou que caberá ao povo decidir o futuro do país após essa “comparação”. Disse ainda que não aceitará um debate político marcado por grosserias e mentiras. A fala soa contraditória quando parte de um presidente que insiste em polarizar o debate e manter adversários como muleta política constante.
Transformar 2026 no “ano da comparação” pode até funcionar como slogan de campanha. Mas, para muitos brasileiros, a pergunta que fica é outra: quando o governo vai parar de comparar e começar, de fato, a entregar resultados que não precisem de discurso para se sustentar?