
Lula anuncia “colheita” na CNH do Brasil — mas deixa no ar dúvidas sobre estudos, impactos e conversas de bastidor
Presidente celebra mudanças na habilitação como grande avanço, mas falta transparência: houve estudo sobre acidentes? Conversas com empresários do setor pesaram?
Durante o lançamento do programa CNH do Brasil, nesta terça-feira (9), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a vestir o figurino de líder otimista, anunciando que o País estaria entrando no “momento da colheita” após dois anos de “plantio”.
A metáfora agrícola foi bonita — mas deixou no ar um cheiro de desconfiança: quem exatamente plantou o quê, e quem vai colher os frutos?
Lula celebrou a assinatura da Medida Provisória que muda as regras para tirar a Carteira Nacional de Habilitação e aproveitou o palanque para dizer que é preciso “desmentir as mentiras” espalhadas sobre seu governo.
Nada novo aqui — o script é conhecido.
Mobilidade, motos e a pergunta que ninguém respondeu
O presidente relacionou as mudanças às transformações recentes da mobilidade urbana e ao aumento do uso da moto como instrumento de trabalho. Destacou que muitos condutores trabalham sem habilitação porque o Estado demorou a regularizar o setor.
Até aí, perfeito.
Mas a dúvida fica no ar:
Se o objetivo é aumentar a segurança, será que o governo avaliou o impacto disso em acidentes, mortes no trânsito e crimes cometidos por motoristas não qualificados?
Ou será que alguém do setor de autoescolas — que não anda muito satisfeito com a perda de exigências — entrou na conversa e ajudou a moldar o projeto?
Lula não esclareceu. O ministro Renan Filho apresentou a proposta como um “colapso”, segundo o próprio presidente. Mas, entre a surpresa e a pressa em anunciar mudanças, não se ouviu nenhum dado técnico, estatístico ou estudo robusto.
Cidadania plena, segundo Lula
Lula disse que o programa não se trata apenas de baratear a CNH, mas de oferecer “cidadania plena” ao trabalhador humilde.
Discurso bonito, sem dúvida. Mas fica a observação:
Cidadania plena exige segurança plena. E segurança plena exige estudo, preparo, capacitação e fiscalização — três palavrinhas que o anúncio não detalhou.
Segundo o governo, os motociclistas profissionais serão mais bem formados e mais responsáveis. Porém, ninguém explicou como, com quem e em quanto tempo.
A colheita de Lula: fruto maduro ou verde demais?
O presidente insiste que estamos vivendo a fase da colheita.
Mas quem acompanha de perto sabe que, no trânsito brasileiro, a colheita costuma ser amarga: aumentos de acidentes, aumento de mortes e crescimento do crime ligado a motocicletas.
Modificar o processo de habilitação sem estudo público e transparente é, no mínimo, arriscado — e faz parecer que a plantação foi feita às pressas e sem análise técnica.
Enquanto Lula celebra sua safra política, motoristas e motociclistas ficam com a dúvida:
Estamos colhendo progresso — ou apenas colhendo um projeto sem raiz?