
LULA ANUNCIA “FIM DA FILA” DO INSS, MAS 235 MIL PEDIDOS AINDA ESPERAM HÁ MAIS DE 45 DIAS
Às vésperas da eleição, governo transforma redução do estoque em vitória política e adota nova forma de medir a fila; mais de 1,2 milhão de requerimentos continuavam pendentes em agosto
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), anunciou nesta quinta-feira, 3 de setembro de 2026, no Palácio do Planalto, que o governo federal teria conseguido “zerar a fila” do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). A declaração foi apresentada como uma importante realização de sua terceira gestão e ocorre a pouco mais de um mês das eleições, nas quais Lula tenta permanecer no Palácio do Planalto.
O anúncio, entretanto, exige uma ressalva essencial: a fila não desapareceu no sentido literal da expressão.
De acordo com os próprios números apresentados pelo governo e por levantamentos publicados após o anúncio, o INSS encerrou agosto com aproximadamente 1,252 milhão de requerimentos ainda pendentes. Ao mesmo tempo, cerca de 235 mil pedidos permaneciam sem resposta havia mais de 45 dias, prazo que vinha sendo utilizado pelo próprio governo para identificar processos atrasados.
O que mudou foi principalmente a forma de definir o que significa “fila zerada”.
Em vez de afirmar que não existem mais pessoas esperando, o governo passou a considerar que o sistema está “sem fila” quando o número de processos pendentes fica abaixo da quantidade de novos requerimentos que entram mensalmente.
Em agosto, foram cerca de 1,394 milhão de novos pedidos, enquanto o estoque pendente terminou o mês em aproximadamente 1,252 milhão. Pela nova métrica, o INSS teria passado a processar a demanda em ritmo suficiente para absorver o fluxo corrente.
É uma conquista administrativa relevante em comparação com o caos registrado no início do ano. Mas não equivale, tecnicamente, a dizer que ninguém mais espera por um benefício.
O anúncio em pleno calendário eleitoral
A escolha do momento do anúncio é um dos aspectos que mais chamam atenção.
O governo Lula transformou a redução da demora no INSS em uma das vitrines da gestão justamente quando a campanha eleitoral de 2026 entra em uma fase decisiva.
A promessa de reduzir e eliminar a fila vinha sendo apresentada por Lula desde sua campanha de 2022. Agora, às vésperas da eleição, o Planalto apresenta o resultado como uma demonstração de eficiência administrativa.
A dimensão política do anúncio é evidente.
O problema é que uma promessa de “zerar a fila” e a realidade de mais de 1 milhão de processos pendentes não são exatamente a mesma coisa.
A diferença entre “fila” e “fluxo”
É nesse ponto que está o principal esclarecimento necessário para compreender o anúncio.
O ministro da Previdência Social, Wolney Queiroz, explicou que sempre haverá novos pedidos porque cidadãos continuam requerendo aposentadorias, pensões, auxílios e benefícios assistenciais.
Na nova definição, o governo considera que a fila foi zerada porque o INSS passou a responder a uma quantidade de processos equivalente ou superior ao fluxo de entrada.
“O que era fila se transformou em fluxo”, afirmou Wolney Queiroz, segundo o relato do Metrópoles.
A definição é administrativamente compreensível, mas politicamente pode produzir uma impressão muito diferente da realidade vivenciada por quem ainda aguarda uma decisão.
Para o segurado, pouco importa se o governo chama a espera de “fila”, “fluxo” ou “estoque”: o benefício ainda não foi decidido.
Essa é a crítica central à narrativa oficial.
O número que contradiz o discurso de “fila zerada”
O dado mais contundente está justamente nos processos que ultrapassaram o prazo de 45 dias.
Segundo informações divulgadas na ocasião do anúncio, aproximadamente 235 mil pedidos ainda aguardavam resposta além desse período. Esse era justamente o parâmetro historicamente utilizado para identificar os requerimentos atrasados.
Portanto, não é correto interpretar o anúncio como se o último cidadão tivesse sido atendido.
Há milhares de pessoas esperando.
Há processos ainda em análise.
Há requerimentos que ultrapassaram o prazo anteriormente utilizado como referência de atraso.
E há um estoque total superior a um milhão de processos.
A diferença está na classificação utilizada pelo governo.
O estoque caiu — e isso precisa ser reconhecido
A crítica à linguagem utilizada pelo governo não significa ignorar a melhora efetivamente registrada.
O estoque chegou a aproximadamente 3,1 milhões de requerimentos em janeiro de 2026, segundo dados divulgados posteriormente. Em agosto, estava em cerca de 1,252 milhão, uma queda superior a 50% desde o pico.
Também houve redução expressiva do número de processos com espera superior a 45 dias.
No início do ano, eram aproximadamente 1,9 milhão nessa situação; em agosto, o número havia caído para cerca de 235 mil.
Ou seja: o governo tem um resultado concreto para apresentar.
O problema é transformar uma forte redução da fila em uma afirmação literal de que a fila acabou.
O governo Lula mudou a régua?
Essa é a questão que mais provoca controvérsia.
Reportagem da Folha de S.Paulo classificou a mudança como uma alteração do critério utilizado para declarar o fim da fila. Segundo a publicação, o governo passou a considerar o estoque de pedidos em relação ao número de novos requerimentos, enquanto anteriormente o foco estava nos processos que ultrapassavam o prazo de 45 dias.
O governo nega que tenha simplesmente mudado a régua para produzir uma vitória estatística.
A presidente do INSS, Ana Cristina Silveira, explicou que parte dos requerimentos pendentes é composta por pedidos recentes ou por processos que dependem de documentação do próprio segurado. Segundo essa justificativa, o estoque não representa simplesmente uma fila de pessoas esperando além do prazo.
A explicação é importante.
Mas ela não elimina o fato de que 235 mil pedidos ainda estavam acima de 45 dias.
O que aconteceu com a antiga definição?
Em junho, antes do anúncio, o próprio INSS divulgava uma fotografia bastante diferente.
O órgão informou naquele mês que havia 1,8 milhão de requerimentos, sendo 825 mil com menos de 45 dias de espera, 555 mil com mais de 45 dias e outros 451 mil que dependiam de alguma ação do segurado, como o envio de documentos.
A diferença demonstra como a discussão sobre metodologia é decisiva.
A quantidade de processos pode cair substancialmente sem que todos sejam imediatamente decididos.
Por isso, apresentar apenas a expressão “fila zerada” sem explicar a metodologia pode levar o cidadão a acreditar que não existem mais requerimentos aguardando análise, o que não corresponde aos números divulgados pelo próprio governo.
A entrada do pedido também mudou
Outro elemento importante é que o acesso aos serviços do INSS está cada vez mais digital.
O Meu INSS concentra requerimentos, consultas, benefícios e agendamentos, permitindo que grande parte dos processos seja iniciada pela internet. O governo também ampliou modalidades de análise documental e automação.
Isso significa que o que chega ao sistema hoje não necessariamente passa pela mesma trajetória burocrática de anos atrás.
Em determinados benefícios, o cidadão pode fazer o requerimento digitalmente e apresentar documentos para análise sem precisar comparecer imediatamente a uma agência.
Portanto, existe uma diferença importante entre a quantidade de pedidos que entram no sistema, a quantidade que está efetivamente aguardando análise, os processos dentro do prazo, os processos atrasados e aqueles que dependem de documentação ou perícia.
Misturar todas essas categorias simplesmente sob a palavra “fila” pode esconder nuances importantes.
A promessa de Lula
O combate à espera do INSS foi uma promessa política importante de Lula.
O presidente já havia anunciado durante a campanha eleitoral que pretendia eliminar as longas esperas por benefícios previdenciários e assistenciais.
Por isso, a divulgação de setembro de 2026 foi cuidadosamente apresentada como o cumprimento de uma promessa.
A narrativa governamental é simples: o governo encontrou uma situação de enorme atraso, adotou medidas de emergência, ampliou a capacidade de análise e conseguiu fazer o INSS processar mais pedidos do que recebe.
Há elementos objetivos que sustentam essa narrativa.
Mas há também outra realidade que precisa ser apresentada ao eleitor: o atendimento não chegou a zero espera.
Lula transforma resultado administrativo em peça eleitoral
É nesse ponto que surge a crítica política.
Não há problema em um governo apresentar resultados positivos.
O problema começa quando uma informação verdadeira — a queda expressiva da fila — é apresentada com uma expressão capaz de produzir uma conclusão mais ampla do que os números permitem.
Lula não “eliminou” todos os pedidos pendentes.
O governo conseguiu, segundo sua própria metodologia, colocar o sistema em uma situação na qual o estoque é inferior ao volume mensal de entrada.
É uma diferença técnica, mas também uma diferença de comunicação política.
Em ano eleitoral, essa diferença ganha importância ainda maior.
O caso dos 235 mil pedidos
O número de 235 mil processos atrasados é especialmente relevante porque desmonta a interpretação de que ninguém mais espera além do prazo.
Essas pessoas continuam aguardando uma resposta.
Algumas situações podem envolver processos mais complexos.
Algumas podem depender de documentos.
Outras podem exigir perícia ou avaliação social.
Isso precisa ser discriminado.
Mas, independentemente da causa individual, um pedido com mais de 45 dias sem decisão continua sendo um requerimento sem resposta.
Por isso, a expressão “fila zerada” deve ser compreendida dentro da definição adotada pelo governo, e não como se significasse inexistência absoluta de espera.
O tempo médio melhorou
Outro argumento do governo é o tempo médio.
Segundo o Metrópoles, o tempo médio para atendimento chegou a aproximadamente 34 dias em agosto, contra 59 dias em fevereiro, quando o número de requerimentos abertos alcançou o recorde de cerca de 3 milhões.
Também houve redução expressiva no tempo médio para realização de perícias médicas.
O governo informou que esse intervalo caiu de cerca de 70 dias em agosto de 2023 para 17 dias em agosto de 2026.
São números que mostram uma melhora efetiva.
A questão é que tempo médio não significa que todo cidadão foi atendido em 34 dias.
Uma média pode esconder diferenças enormes entre tipos de benefícios e situações individuais.
Nem todos os benefícios têm a mesma espera
A própria realidade dos processos mostra essa diferença.
Segundo o Metrópoles, pedidos de salário-maternidade estavam sendo decididos, em média, em cerca de 11 dias, enquanto benefícios que exigem perícia médica e avaliação social, como o Benefício de Prestação Continuada (BPC), podiam chegar a cerca de 65 dias.
Portanto, falar simplesmente em “34 dias” não retrata integralmente a experiência de todos os segurados.
Para quem recebe rapidamente, o sistema realmente melhorou.
Para quem continua aguardando por meses, a expressão “fila zerada” pode parecer completamente distante da realidade.
O problema herdado por Lula
Também seria incorreto atribuir todo o problema da fila exclusivamente ao atual governo.
O INSS já enfrentava dificuldades antes do terceiro mandato de Lula.
A fila cresceu por problemas administrativos, déficit de servidores, aumento da demanda, dificuldades de perícia e acúmulo de processos de diferentes naturezas.
O próprio governo Lula promoveu mudanças na direção do instituto.
Em abril, Gilberto Waller Júnior deixou o comando do INSS depois de 11 meses à frente do órgão. Ana Cristina Viana Silveira, servidora de carreira, assumiu a presidência com a tarefa de reduzir o estoque.
A gestão atual, portanto, pode reivindicar parte do resultado — mas também responde politicamente pelos problemas existentes durante seu próprio mandato.
A troca no comando do INSS
A crise administrativa tornou-se mais difícil depois do escândalo dos descontos associativos indevidos em aposentadorias e pensões.
O então presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, havia sido demitido em meio às repercussões do caso.
Posteriormente, Gilberto Waller assumiu o órgão e acabou substituído.
A sequência revela que o problema do INSS não era apenas uma questão estatística.
Existiam dificuldades de gestão, atendimento, fiscalização e confiança institucional.
A Medida Provisória para acelerar o atendimento
O governo também apostou em mudanças legislativas para acelerar a análise.
A Câmara dos Deputados aprovou em 3 de setembro uma medida provisória que amplia e reorganiza mecanismos de gerenciamento de benefícios e prioriza processos que atingem determinados períodos de tramitação.
Outra mudança aprovada pelo Congresso reduziu de 45 para 30 dias o prazo para que determinados requerimentos, especialmente aposentadorias e pensões, integrem a fila prioritária de análise.
Esse detalhe merece atenção.
Enquanto o governo anuncia que a fila foi zerada, o Congresso aprovou uma mudança justamente para acelerar a prioridade de determinados processos.
Isso demonstra que a máquina ainda precisa de mecanismos adicionais para administrar a demanda.
O governo realmente venceu uma batalha
Apesar das críticas, seria injusto afirmar que nada aconteceu.
A redução do estoque foi expressiva.
O número de processos com mais de 45 dias caiu drasticamente.
O tempo médio melhorou.
A capacidade mensal de análise aumentou.
O problema, portanto, não é dizer que o INSS melhorou.
O problema está em usar uma formulação que pode induzir o eleitor a concluir que não existe mais espera.
Existe.
Ela simplesmente passou a ser contabilizada de outra maneira para fins da nova declaração oficial de “fila zerada”.
A propaganda e a realidade
O risco político desse tipo de anúncio é transformar uma métrica administrativa em slogan eleitoral.
A propaganda pode dizer:
“Lula zerou a fila do INSS.”
Os dados dizem algo mais complexo:
o estoque caiu para cerca de 1,252 milhão, ficou abaixo do número de novos requerimentos mensais, mas ainda existem centenas de milhares de processos acima do antigo prazo de 45 dias.
As duas frases partem dos mesmos números.
Mas produzem impressões completamente diferentes.
O que o eleitor precisa saber
O segurado que está esperando uma decisão não deve ser levado a acreditar que sua espera deixou de existir simplesmente porque o governo mudou a forma de definir a fila.
Ele precisa saber:
se seu pedido foi analisado;
se está dentro do prazo;
se houve exigência de documentação;
se precisa de perícia;
se o processo foi concluído;
ou se continua pendente.
Essa é a informação realmente relevante para quem depende de um benefício previdenciário ou assistencial.
Lula anuncia uma vitória, mas os números contam uma história mais complexa
O anúncio do Planalto é politicamente conveniente porque transforma uma redução administrativa importante em uma marca de governo às vésperas da eleição.
Lula tem todo o direito político de apresentar seus resultados.
Mas o eleitor também tem o direito de conhecer os números completos.
E eles mostram uma realidade que não cabe em um slogan.
A fila diminuiu muito. O sistema melhorou. O tempo médio caiu. A capacidade de atendimento aumentou. Mas a fila não desapareceu no sentido literal.
Ainda havia cerca de 1,252 milhão de requerimentos pendentes em agosto, e aproximadamente 235 mil estavam acima de 45 dias.
A diferença é que o governo passou a chamar de “sem fila” uma situação na qual o estoque consegue ser absorvido pelo fluxo de novos pedidos.
A questão eleitoral
A poucos meses do voto, Lula apresenta o resultado como prova de eficiência de seu terceiro mandato.
Mas a eleição não deve ser decidida por slogans.
O eleitor pode reconhecer uma melhora no INSS e, ao mesmo tempo, questionar a maneira como ela foi apresentada.
Pode reconhecer que o estoque despencou e ainda perguntar por que centenas de milhares de pessoas continuam esperando.
Pode reconhecer a redução da demora e ainda cobrar por que determinados processos ultrapassaram 45 dias.
Essas perguntas não diminuem o resultado administrativo.
Ao contrário: obrigam o governo a apresentar o resultado com precisão.
Conclusão
A declaração de Luiz Inácio Lula da Silva de que o governo “zerou” a fila do INSS precisa ser entendida dentro da nova metodologia adotada pelo Executivo.
O governo conseguiu uma redução expressiva do estoque e passou a processar mais requerimentos do que recebe em determinados períodos.
Isso é um avanço.
Mas não significa que não existam mais pessoas esperando.
Em agosto, o estoque ainda era de aproximadamente 1,252 milhão de requerimentos, enquanto cerca de 235 mil pedidos permaneciam sem resposta há mais de 45 dias.
A transformação dessa situação em “fila zerada” é, portanto, uma questão de definição.
Para o governo Lula, o sistema deixou de ser uma fila estrutural e passou a ser um fluxo administrável.
Para o cidadão que ainda aguarda a análise de seu benefício, entretanto, a espera continua sendo espera.
E é justamente essa diferença entre uma melhora real do sistema e a narrativa política de que a fila simplesmente acabou que precisa ser apresentada com clareza ao eleitor brasileiro.
Às vésperas das eleições, Lula pode reivindicar a redução histórica do problema.
Mas não pode apagar dos números as pessoas que ainda aguardam uma resposta.