
Lula e a Rouanet: um romance bilionário com a cultura nacional
Enquanto o país luta contra a fome e desigualdades, o governo investe R$ 34,4 bilhões em um dos maiores financiadores culturais da história — afinal, quem precisa de pão se há dinheiro para holofotes?
Quando o assunto é quebrar recordes, o presidente Lula sabe bem como entrar para a história — mas não necessariamente da forma que muitos esperavam. Em apenas dois anos, ele autorizou a absurda quantia de R$ 34,4 bilhões para a Lei Rouanet, aquela ferramenta que virou o maior tapete vermelho para projetos culturais em 2023 e 2024. Só no ano passado, foram exatos R$ 17,5 bilhões, já corrigidos pela inflação. Para comparar: isso dá para comprar um monte de comida, remédio e quem sabe até um pouco mais para as famílias que ainda enfrentam o fantasma da fome no Brasil. Mas nada disso importa quando o brilho dos holofotes está garantido, não é?
Nessa mesma toada, Lula recebeu com pompa no Palácio da Alvorada o elenco do filme O Agente Secreto — a produção que ganhou alguns prêmios em Cannes e promete mostrar a “lógica do nosso país”. Aliás, o presidente destacou com aquela dose costumeira de emoção que a cultura é revolucionária, que ela “desperta consciência política” e é o remédio contra a submissão. Tudo muito bonito, sobretudo para um governo que despeja rios de dinheiro público em projetos culturais enquanto tantos brasileiros ainda choram por comida na mesa.
O diretor Kleber Mendonça Filho, que já havia sofrido os tempos difíceis em que a cultura era quase tratada como inimiga, celebrou o novo momento. Afinal, para ele, “a cultura hoje é festejada, faz parte da nossa identidade”. Que alívio, não? Pena que a identidade de muitos ainda é marcada pela falta de acesso aos direitos básicos.
Mas não para por aí: o governo também planeja aumentar o número de salas de cinema no país — porque, claro, quando se tem verba farta, nada mais importante que o cinema florescer. São mais 100 novas salas prometidas até o fim do mandato. Isso, claro, enquanto o número de brasileiros passando fome segue como uma triste realidade que não cabe em prêmios de cinema ou festas oficiais.
Lula ainda se comoveu ao falar das crianças famintas na Faixa de Gaza, numa delicada lembrança de que, no mundo real, a batalha por alimento e dignidade é uma tragédia diária. Mas aqui no Brasil, pelo menos, a aposta é na cultura para transformar, com cifras recordes que soam mais como espetáculo do que como solução.
No fim, a Rouanet vira quase um personagem da política cultural brasileira — amada, contestada, milionária, e sempre presente nas manchetes. Quem sabe, com esse investimento astronômico, o país não vira o novo paraíso do audiovisual enquanto a fome fica só no roteiro de tragédias esquecidas?