
Lula muda o tom e ataca Trump após meses de elogios e silêncio
Presidente volta a criticar o líder dos EUA no RS, mesmo após já ter exaltado a “boa química” entre os dois
Depois de um período de conveniência diplomática e discursos amenos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a atacar publicamente o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nesta terça-feira (20), durante um evento em Rio Grande, no Rio Grande do Sul. A mudança de postura chama atenção — e provoca críticas — por contrastar com declarações recentes em que Lula chegou a elogiar o norte-americano.
Durante a entrega de 1.276 moradias do programa Minha Casa, Minha Vida, Lula afirmou que Trump quer “governar o mundo por rede social”, numa crítica direta ao uso do Twitter como ferramenta política. O tom duro reaparece justamente após meses em que o presidente brasileiro evitou confrontos, especialmente depois que os Estados Unidos reduziram tarifas sobre produtos brasileiros.
Discurso seletivo e conveniência política
A fala escancara uma contradição difícil de ignorar. Não faz muito tempo, o próprio Lula afirmou que havia “química” entre ele e Trump, chegando a dizer que existiam “duas versões” do presidente americano: a da televisão e a da vida real. Agora, o mesmo Trump é retratado como alguém que desrespeita pessoas e tenta mandar no mundo por meio de postagens.
“Todo dia ele fala uma coisa. E você acha que dá para tratar o povo com respeito sem olhar no rosto?”, disse Lula, num discurso que mais parece responder a conveniências políticas do momento do que a uma linha coerente de política externa.
Críticas reaparecem após temas sensíveis no cenário internacional
O novo ataque acontece dias depois de Lula publicar um artigo no The New York Times, criticando a atuação dos Estados Unidos na Venezuela, e em meio à repercussão de uma proposta de Trump para criar um suposto “Conselho da Paz” voltado à situação na Faixa de Gaza — convite que o governo brasileiro ainda avalia se responderá.
Aliados do Planalto admitem, nos bastidores, que não está claro qual seria o real objetivo da iniciativa americana, o que torna ainda mais evidente o jogo de palavras e o vaivém discursivo do presidente brasileiro.
Enquanto isso, o foco deveria ser outro
Antes de atacar Trump, Lula também criticou o uso excessivo de redes sociais e defendeu maior rigor na regulação de plataformas de apostas. No entanto, o contraste entre discurso moralizante e prática política segue sendo alvo de questionamentos, sobretudo em um ano pré-eleitoral, no qual cada fala parece cuidadosamente calculada.
No fim das contas, a retomada das críticas a Trump soa menos como posição firme e mais como retórica oportunista — algo que enfraquece a credibilidade do discurso presidencial e expõe, mais uma vez, a incoerência entre o que se diz ontem e o que se ataca hoje.