
Lula prepara pacote de R$ 100 bilhões para 2026, mas esbarra em obstáculos no Orçamento
Medidas prometem beneficiar classe média e famílias de baixa renda, mas dependem de manobras financeiras e aprovação no Congresso
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva já tem no radar um pacote de bondades que pode ultrapassar R$ 100 bilhões em 2026, ano eleitoral. A ideia é combinar medidas do Orçamento da União com estímulos a financiamentos e programas sociais, mas o grande desafio é encontrar como financiar tudo isso após a recente derrota na Câmara.
Entre as propostas, estão a ampliação da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil por mês, a distribuição gratuita de gás de cozinha, a isenção da conta de luz para cerca de 17 milhões de famílias e o pagamento de bolsas do programa Pé-de-Meia para estudantes do ensino médio. A cifra total pode crescer se for aprovada a isenção de tarifas de ônibus, atualmente em estudo pelo Ministério da Fazenda.
O problema é que essas medidas dependem de uma verdadeira “engenharia” no Orçamento, já que os programas estão atrelados a receitas que ainda não estão garantidas. Para viabilizar o pacote, o governo precisará levantar cerca de R$ 126 bilhões em novas receitas. Parte desse valor vinha da medida provisória que aumentaria o IOF, derrubada pela Câmara na última quarta-feira, que geraria R$ 20,9 bilhões em recursos livres para financiar os programas.
Além disso, o Executivo planejava arrecadar outros R$ 19,8 bilhões com cortes em benefícios tributários, mas enfrenta resistência no Congresso. Sem essas receitas, o Orçamento corre o risco de ser comprometido, afetando desde despesas obrigatórias como previdência e Fundeb até os programas sociais planejados para o ano eleitoral.
O governo também quer reforçar o crédito imobiliário e financiar reformas em casas de famílias de renda média e baixa. No novo modelo do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE), será mais fácil usar recursos da poupança para financiar imóveis, com o teto do Sistema Financeiro da Habitação (SFH) subindo de R$ 1,5 milhão para R$ 2,25 milhões. Para famílias que ganham até R$ 9,6 mil por mês, o governo oferecerá empréstimos entre R$ 5 mil e R$ 30 mil para reformas, com recursos vindos do Fundo Social do Pré-Sal e de Letras de Crédito Imobiliário emitidas pela Caixa.
“O governo busca reconquistar a classe média com medidas pontuais que podem ter grande efeito eleitoral. Elas tornam Lula mais competitivo, mas não devem ter impactos tão graves como os pacotes da Dilma em 2014”, afirma Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados. Vale alerta, porém, que o estímulo ao crescimento pode atrapalhar o trabalho do Banco Central para controlar a inflação.
Para o cientista político Rafael Cortez, da Tendências Consultoria, a dificuldade do governo será aprovar aumentos de tributos em um Congresso voltado majoritariamente para apoiar candidatos de oposição em 2026. “Mas, diferente de Bolsonaro em 2022, Lula não depende tanto de aprovar um grande pacote econômico para viabilizar sua reeleição”, explica Cortez.