Lula promete chegar “na cobertura” do crime — discurso sobe, realidade continua no térreo

Lula promete chegar “na cobertura” do crime — discurso sobe, realidade continua no térreo

Presidente cita Banco Master, defende PEC da Segurança e fala em enfrentar o topo da criminalidade, mas retórica grandiosa contrasta com velhas práticas do poder

Em mais um discurso carregado de frases de efeito, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o Brasil vive um “momento histórico” no combate ao crime organizado. Durante a posse do novo ministro da Justiça, Wellington Lima e Silva, Lula citou investigações envolvendo o Banco Master, operações da Polícia Federal e ações da Receita como provas de que, agora, o Estado finalmente estaria prestes a “chegar ao andar de cima” da corrupção

Segundo o presidente, nunca houve tanta chance de enfrentar os verdadeiros beneficiários do crime. Em tom épico, Lula listou operações, apreensões milionárias e reuniões com autoridades como sinais de que o governo estaria prestes a derrotar organizações criminosas que, historicamente, sempre escaparam ilesas.

A ironia, porém, é inevitável. O mesmo governo que promete alcançar a “cobertura” segue convivendo com escândalos bilionários, relações nebulosas entre poder político e sistema financeiro e uma estrutura estatal que, há décadas, conhece muito bem esse andar — mas raramente sobe até lá de fato.

Lula também defendeu a chamada PEC da Segurança Pública, que pretende integrar forças federais, estaduais e municipais. Para ele, não basta “matar gente em favela” ou “prender pobre”, é preciso alcançar quem ganha dinheiro, sonega impostos e financia o crime. Um discurso que soa bem aos ouvidos, mas que já foi repetido por governos anteriores sem grandes mudanças práticas.

O presidente ainda exaltou a autonomia da Polícia Federal, do Ministério Público e da Receita Federal, dizendo que as instituições não pertencem a governos, mas ao povo. Curiosamente, essa defesa da independência surge justamente quando decisões e prioridades dessas mesmas instituições costumam coincidir, quase sempre, com os interesses do Planalto.

Ao final, Lula garantiu estar entregando um país “extraordinariamente bem-sucedido” e disse confiar na aprovação da PEC no Congresso. Resta saber se, desta vez, o elevador do poder realmente vai subir — ou se o discurso ficará, mais uma vez, parado entre o térreo e o primeiro andar, enquanto a cobertura segue intocada.

Compartilhe nas suas redes sociais
Categorias
Tags