
Milhões em gavetas e prefeitos armados: nova fase da Operação Overclean escancara rede de corrupção na Bahia
Políticos, empresários e servidores são alvo de investigações que envolvem desvio de emendas, fraude em licitações e até dinheiro escondido em armário de ex-prefeito.
Mais uma camada da sujeira: Polícia Federal encontra R$ 3,2 milhões escondidos em casa de ex-prefeito na Bahia

Na última sexta-feira (27), a Polícia Federal deflagrou a quarta fase da Operação Overclean, escancarando mais um capítulo do que parece ser uma teia bem montada de corrupção na Bahia. Ao todo, foram cumpridos 16 mandados de busca e apreensão em cinco cidades do estado, resultando na apreensão de R$ 3,2 milhões em espécie — dinheiro que estava escondido em gavetas da casa de um ex-prefeito.
O foco da operação é desarticular uma organização criminosa suspeita de fraudes em processos licitatórios, desvio de verbas parlamentares, corrupção e lavagem de dinheiro. Entre os investigados estão um deputado federal, dois prefeitos em exercício, um ex-prefeito e um assessor parlamentar.
Quem está na mira
A operação atingiu políticos de peso e gestores municipais:
- Félix Mendonça (PDT), deputado federal, teve o sigilo telefônico quebrado.
- Humberto Raimundo Rodrigues (PT), prefeito de Ibipitanga, foi afastado do cargo e preso em flagrante por posse ilegal de arma.
- Alan Machado França (PSB), prefeito de Boquira, também foi afastado e preso por posse de arma.
- Marcel José Carneiro de Carvalho (PT), ex-prefeito de Paratinga, é o dono das gavetas onde estavam os R$ 3,2 milhões.
- Marcelo Chaves Gomes, assessor de Félix Mendonça, foi afastado após cumprimento de mandado.
Os prefeitos detidos pagaram fiança e foram soltos no mesmo dia. Os valores pagos não foram divulgados.
Dentro das casas: dinheiro, armas e silêncio
O episódio mais escandaloso veio da casa do ex-prefeito de Paratinga. Em meio às roupas no armário, policiais encontraram pacotes de dinheiro que somavam mais de R$ 3 milhões. Já os prefeitos de Boquira e Ibipitanga guardavam armas em suas residências, o que levou às prisões em flagrante.
Como funcionava o esquema
Segundo as investigações, o grupo agia manipulando a liberação de emendas parlamentares e processos de licitação entre 2021 e 2024. Os recursos, que deveriam ser aplicados em melhorias para as cidades de Boquira, Ibipitanga e Paratinga, acabavam desviados em troca de vantagens indevidas.
A Polícia Federal ainda não detalhou o papel de cada um no esquema.
O que dizem os envolvidos
A defesa de Félix Mendonça afirmou que nem ele, nem seus assessores, cometeram qualquer irregularidade com o envio de emendas. O ex-prefeito Marcel José, por sua vez, disse estar à disposição das autoridades e prometeu provar a legalidade de sua gestão. Alan França também negou qualquer ilegalidade, assim como sua equipe.
Relembrando o início da Overclean
A primeira fase da Operação Overclean aconteceu em dezembro de 2024 e já indicava o tamanho do rombo. Na época, a PF estimou que a quadrilha movimentou R$ 1,4 bilhão em contratos públicos — R$ 825 milhões apenas em 2024.
Os recursos federais eram desviados por meio de contratos superfaturados com o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS).
Os rostos por trás dos números
Entre os presos na primeira fase estavam:
- José Marcos Moura, conhecido como “Rei do Lixo” e dono da MM Limpeza Urbana.
- Lucas Maciel Lobão Vieira, ex-coordenador do DNOCS na Bahia.
- Flávio Henrique Lacerda Pimenta, da Secretaria de Educação de Salvador, com R$ 700 mil em casa.
- Os empresários Alex e Fábio Rezende Parente.
- Francisco Nascimento, vereador eleito e primo do deputado Elmar Nascimento, flagrado jogando uma sacola com R$ 220 mil pela janela para tentar se livrar da prova.
Um império de luxo construído com dinheiro público
As apreensões mostram o tamanho do esquema:
- R$ 3,4 milhões em espécie
- 23 carros de luxo
- 3 barcos
- 3 aeronaves
- 6 imóveis de alto padrão
- 38 relógios de luxo
- Joias avaliadas em centenas de milhares de reais