
Moraes pede “humildade” ao Judiciário — mas, na prática, a conversa é outra
Ministro fala em aceitar críticas, mas logo explica que as críticas válidas raramente vêm de quem critica
Em um evento do CNJ em Florianópolis, Alexandre de Moraes decidiu vestir o figurino da humildade. Disse que o Judiciário precisa aprender a ouvir, respirar fundo e aceitar críticas “válidas”. Soa bonito, quase espiritual. Seria até inspirador — se não fosse justamente ele quem, alguns minutos depois, tratou de explicar que as críticas realmente válidas são poucas, raras… e, na prática, quase nunca vêm das redes sociais.
“Temos que ter humildade para aceitar algumas críticas”, afirmou, como quem abre um TED Talk sobre autorreflexão. Mas logo completou que muitas críticas vêm de grupos econômicos poderosos que acham que igualdade e liberdade são direitos exclusivos. Ou seja: críticas até são bem-vindas… desde que venham das pessoas certas, sobre os temas certos, com o tom certo. Nada como definir os termos do próprio debate, não é?
E aí veio a pérola do dia:
“Hoje qualquer influencer virou analista judiciário”, reclamou Moraes, irritado com o fato de que opinião pública agora tem nome, rosto e, pior, seguidores. Milhões deles.
No resumo da ópera: o Judiciário até aceita críticas — desde que não venham de quem critica.
Quando a humildade dá lugar à blindagem
Depois da defesa da autocrítica controlada, Moraes voltou ao papel que conhece bem: o de guardião das instituições. Disse que o Judiciário vive “sob ataque”, fruto de grupos internacionais que não aceitam um país onde igualdade e liberdade atingem todos, não apenas os privilegiados.
Segundo ele, esses ataques se refletem em pesquisas, análises, influenciadores e em parte da mídia “supostamente independente”. Um mundo inteiro, aparentemente, empenhado em incomodar ministros que só querem trabalhar em paz.
E, claro, não podia faltar o “penduricalho”
No final, Moraes tratou de um tema essencial à sobrevivência nacional:
a volta do quinquênio, o famoso adicional por tempo de serviço — aquele benefício que garante aumento automático de salário a cada cinco anos de toga.
Chamou de “erro” o fato de terem cortado o penduricalho, porque, segundo ele, não faz sentido alguém recém-chegado à magistratura ganhar o mesmo que quem está há 40 anos no sistema. Seria quase uma ofensa à natureza, à tradição… e ao contracheque.
Assim, entre pedidos de humildade, críticas aos críticos e a defesa de um benefício suspenso desde 2006, Moraes conseguiu entregar um discurso completo: uma aula de como falar em modéstia enquanto reafirma a hierarquia, a blindagem e a lógica interna do próprio poder.