
“Orientação recebida”: mensagem expõe trânsito livre do Careca do INSS no entorno de Lula
Lobista fala em aval interno enquanto tenta emplacar negócio milionário no Ministério da Saúde
Uma simples mensagem de WhatsApp, agora nas mãos da Polícia Federal, ajudou a jogar mais luz sobre a atuação do famoso Careca do INSS — e, claro, levantou novas sobrancelhas em Brasília. No texto, o lobista Antonio Carlos Camilo Antunes avisa tranquilamente a um interlocutor: “Berger já está com aquela orientação em mãos”. Tudo muito informal para quem, em tese, não teria influência alguma.
“Berger”, no caso, é Swedenberger Barbosa, que à época era secretário-executivo do Ministério da Saúde e hoje ocupa um cargo no gabinete pessoal do presidente Lula. Coincidência? A PF prefere chamar de indício.
O Careca do INSS tentava viabilizar, por meio da empresa World Cannabis, um acordo com o Ministério da Saúde para fornecer medicamentos à base de canabidiol ao SUS — detalhe importante: sem licitação. Para isso, contou com o apoio formal de Roberta Luchsinger, empresária e amiga próxima de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. Porque, aparentemente, bons negócios também gostam de bons contatos.
Dados obtidos via Lei de Acesso à Informação mostram que o lobista esteve pelo menos cinco vezes na secretaria-executiva do ministério nos últimos dois anos. Nada exagerado, claro — apenas visitas suficientes para deixar qualquer cidadão comum imaginando como conseguir uma audiência dessas.
Registros oficiais ainda indicam que Careca e Roberta circularam juntos pelo prédio do ministério para tratar do tema “cannabis” com o então secretário-executivo. Tudo institucional, segundo as versões oficiais. A palavra “orientação”, nesse contexto, teria sido só força de expressão.
Em nota, Swedenberger Barbosa afirmou que as reuniões estavam na agenda pública e que não houve qualquer tipo de direcionamento ou influência política. Segundo ele, não houve interesse da pasta em comprar produtos da World Cannabis e, portanto, nada avançou. Ou seja, encontros aconteceram, mensagens circularam, mas, oficialmente, não deu em nada.
Curiosamente, outra conversa interceptada pela PF mostra que o Careca do INSS parecia bem informado sobre mudanças no comando do ministério antes mesmo de elas se concretizarem. Em mensagem enviada quando Alexandre Padilha ainda era apenas cotado para assumir a Saúde, o lobista cravou: “Nossos projetos foram assumidos pelo novo ministro. Ficou melhor…”. Previsão? Otimismo? Ou apenas excesso de confiança?
O enredo fica mais delicado quando entram as mensagens de Roberta Luchsinger, alvo da PF na Operação Sem Desconto. Preocupada com jornalistas investigando o caso, ela orientou o lobista a se desvincular de empresas e, num toque digno de filme policial, recomendou: “Some com esses telefones. Joga fora.” A PF, ao que tudo indica, não achou graça.
Roberta teria recebido cerca de R$ 1,5 milhão do Careca do INSS. Em uma das explicações, o dinheiro seria para “o filho do rapaz” — supostamente uma referência a Lulinha. Lula, questionado, respondeu com a frase padrão de manual: “Se tiver filho meu envolvido, será investigado.”
Preso em setembro de 2025, o Careca do INSS admitiu, em depoimento à CPMI do INSS, que teve negócios com Roberta, mas garantiu que a consultoria “não prosperou”. Prosperidade, afinal, parece um conceito bastante flexível nesse caso.
No fim, fica a ironia: oficialmente, ninguém orientou ninguém, nada avançou e tudo foi técnico. Extraoficialmente, mensagens falam em “orientação”, previsões se confirmam e cifras milionárias circulam. Mais um capítulo do velho roteiro em que, no papel, está tudo certo — mas, nos bastidores, a história parece sempre um pouco diferente.