PF aborda manifestantes e ameaça apreender “Pixuleco” de Lula durante protesto em Natal

PF aborda manifestantes e ameaça apreender “Pixuleco” de Lula durante protesto em Natal

Confronto verbal entre delegado federal e o deputado General Girão marcou manifestação contra o presidente; agente alegou que boneco vestido de presidiário poderia configurar crime contra a honra, mas desistiu de apreendê-lo após discussão

A passagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por Natal, no Rio Grande do Norte, foi marcada nesta quinta-feira (20) por um episódio que rapidamente ganhou repercussão nas redes sociais. Durante um protesto de opositores ao governo, agentes da Polícia Federal abordaram manifestantes que exibiam um boneco inflável representando Lula vestido como presidiário — o chamado “Pixuleco”.

O episódio ocorreu durante a passagem do presidente pela capital potiguar. O grupo estava nas proximidades da BR-101, na região do viaduto de Ponta Negra, e também exibia faixas com críticas ao governo federal.

A intervenção da PF ocorreu justamente por causa do boneco. Segundo o delegado que participou da abordagem, a representação poderia, em tese, configurar crime contra a honra do presidente. O agente pediu que os manifestantes desinflassem o objeto e advertiu que, caso isso não acontecesse, poderia apreendê-lo.

Delegado pede retirada do boneco

Em vídeo que circulou nas redes sociais, o delegado conversa diretamente com os manifestantes e explica que não pretendia impedir a realização do protesto como um todo.

O agente afirmou que bandeiras, cartazes e palavras de ordem poderiam continuar sendo utilizados, mas fez uma ressalva em relação ao boneco.

Segundo o delegado, o problema estaria na caracterização de Lula como presidiário.

“Eu estou pedindo aqui, na gentileza, que vocês desinflem esse boneco. Porque, se não desinflar, eu vou ter que levar ele apreendido como material”, afirmou o policial durante a abordagem.

O delegado justificou a intervenção dizendo que a presença do presidente na cidade poderia tornar a situação mais delicada e que sua intenção seria evitar um problema jurídico durante a manifestação.

A abordagem, entretanto, provocou reação imediata dos manifestantes.

General Girão confronta o delegado

Entre os participantes do protesto estava o deputado federal General Girão (PL-RN), candidato à reeleição.

O parlamentar questionou a atuação do delegado e passou a discutir a possibilidade de apreensão do boneco. Durante a conversa, Girão apresentou sua identificação funcional de deputado federal, enquanto o delegado mostrou sua identificação da Polícia Federal.

Questionado sobre quem seria o responsável pelo boneco, Girão afirmou que não sabia quem havia levado o objeto para a manifestação.

O deputado também argumentou que o chamado “Pixuleco” não era uma criação específica daquele protesto. Segundo ele, o boneco existe desde 2014 e já foi utilizado em manifestações políticas anteriores.

O parlamentar sustentou que os participantes estavam exercendo o direito de manifestação e liberdade de expressão.

Discussão termina sem apreensão

O confronto verbal não terminou em apreensão.

Depois da discussão com Girão e outros manifestantes, o delegado desistiu de recolher o boneco. Os agentes da Polícia Federal deixaram o local e o grupo continuou a manifestação.

O “Pixuleco” permaneceu inflado durante o protesto.

Ao final do episódio, um dos manifestantes gritou: “Ninguém vai nos parar!”

O deputado General Girão posteriormente publicou uma manifestação nas redes sociais defendendo a liberdade de expressão e o direito de protestar.

Segundo o parlamentar, “a liberdade de expressão e o direito à manifestação precisam ser garantidos”. Girão também afirmou que democracia exige participação, coragem e respeito e concluiu: “Não vamos recuar!”

Protesto ocorreu durante agenda de Lula

A manifestação aconteceu enquanto Lula cumpria agenda no Rio Grande do Norte.

O presidente esteve em Natal para compromissos oficiais e políticos, e o protesto foi organizado por opositores que buscavam marcar sua passagem pela capital.

Além do boneco, os manifestantes exibiram uma faixa com críticas ao governo. Uma das mensagens fazia referência às denúncias envolvendo descontos associativos irregulares em benefícios de aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

O protesto, portanto, combinou críticas políticas ao governo Lula com uma representação visual que já se tornou conhecida em manifestações de oposição ao petista.

Debate sobre liberdade de expressão

O episódio abriu uma discussão política e jurídica sobre os limites da manifestação pública e sobre a possibilidade de uma representação satírica de uma autoridade configurar crime contra a honra.

O delegado não afirmou que os manifestantes já haviam cometido um crime. A justificativa apresentada foi de que o boneco “poderia configurar” crime contra a honra, razão pela qual solicitou sua retirada e mencionou a possibilidade de apreensão.

Também é importante destacar que a Polícia Federal não chegou a apreender o objeto. Após o confronto verbal, os agentes deixaram o local e a manifestação prosseguiu.

A Tribuna do Norte informou que procurou a Polícia Federal no Rio Grande do Norte para obter esclarecimentos sobre a abordagem, mas não havia recebido resposta até a publicação de sua reportagem.

Um episódio que ganhou dimensão política

A cena envolvendo o delegado, o boneco e General Girão rapidamente ultrapassou os limites da manifestação em Natal. As imagens passaram a circular nas redes sociais e foram utilizadas por diferentes grupos políticos para defender interpretações opostas sobre o episódio.

De um lado, opositores do governo passaram a apresentar a abordagem como uma tentativa de restringir uma manifestação política. De outro, a atuação do delegado foi justificada, nas imagens, pela preocupação de que a representação pudesse gerar consequências jurídicas.

O fato objetivo, contudo, é que a apreensão não ocorreu. O delegado inicialmente solicitou que o boneco fosse desinflado e afirmou que poderia recolhê-lo, mas, depois da discussão com os manifestantes e com General Girão, recuou da medida.

O episódio acrescenta mais um capítulo à disputa política em torno de Lula em meio à corrida eleitoral de 2026, na qual manifestações de rua, símbolos políticos e confrontos entre apoiadores e opositores do presidente voltaram a ocupar espaço no debate público.

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