
R$ 37,9 milhões em jogo: Deputado recua após escândalo com ONG que prometia aulas de videogame a jovens
Após denúncias sobre falsificações e “laranjas” na Associação Moriá, Fred Linhares pede a suspensão de verba milionária para projeto gamer no DF
Depois que uma avalanche de denúncias expôs um possível escândalo com dinheiro público, o deputado federal Fred Linhares (Republicanos-DF) decidiu recuar. Ele pediu ao Ministério do Esporte que suspenda o repasse de R$ 37,9 milhões para a Associação Moriá, entidade que seria responsável por um projeto para ensinar adolescentes a jogar Free Fire e League of Legends.
O recuo veio após reportagens do Metrópoles revelarem que a ONG não funciona no endereço declarado, que seus dirigentes são, em boa parte, pessoas sem qualificação na área — como um motorista e uma esteticista —, e que ela apresentou informações falsas em documentos oficiais para justificar o projeto. A cereja do bolo foi o absurdo de declarar que teria atendido 3,5 milhões de pessoas numa cidade que nem chega a 400 mil habitantes.
Fred Linhares foi o maior financiador da ideia: só de sua autoria, sairiam R$ 27,6 milhões da emenda coletiva do DF. Agora, pressionado pela repercussão negativa e com a credibilidade em risco, o parlamentar pediu não apenas o cancelamento do pagamento, mas também uma investigação rigorosa sobre as denúncias.
Outros parlamentares envolvidos — como Bia Kicis, Julio Cesar e Izalci Lucas — também se apressaram em pedir o cancelamento das emendas que destinaram à entidade. No total, a Associação Moriá foi indicada para receber impressionantes R$ 74,5 milhões entre 2023 e 2024. Parte desse valor já foi paga, mesmo com todos os indícios de que algo estava muito errado.
A situação revolta ainda mais quando se sabe que o projeto se baseava em uma parceria com a Secretaria de Educação do DF — uma parceria que, na prática, nunca existiu. A Secretaria deixou claro que recusou a proposta da ONG por falta de critérios técnicos e administrativos.
Enquanto milhões de reais são prometidos para projetos sem pé nem cabeça, escolas públicas seguem sucateadas e jovens da periferia continuam sem acesso a educação básica de qualidade, muito menos a “salas gamers”. A resposta do poder público, como de costume, veio só depois do escândalo estourar.
A história da Associação Moriá é mais um retrato do descaso com o dinheiro do povo: uma ONG obscura, sem estrutura, que se vende como salvadora da juventude gamer, mas que, ao que tudo indica, só estava jogando mesmo era com os cofres públicos. E nesse jogo, quem sempre perde é a população.