
Suspeita de fraude em concurso coloca João Campos na mira do impeachment
Mudança no resultado levanta indignação, denúncias de favorecimento e questionamentos sobre respeito às regras
O prefeito do Recife, João Campos (PSB), passou a enfrentar um pedido formal de impeachment após uma controversa alteração no resultado de um concurso público para procurador municipal. A mudança, que beneficiou um candidato com fortes vínculos familiares no Judiciário, gerou revolta, acusações de tentativa de fraude e críticas contundentes sobre a condução do processo pela gestão municipal.
O caso envolve a exclusão de um advogado que havia sido o único aprovado na vaga destinada a pessoas com deficiência (PCD). No lugar dele, foi nomeado outro candidato que originalmente disputou a ampla concorrência e só passou a reivindicar a condição de PCD anos depois da inscrição, após apresentar diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA).
O ponto mais sensível, que gerou forte reação popular e institucional, é que o candidato beneficiado é filho de um juiz da Vara dos Crimes Contra a Administração Pública e de uma procuradora do Ministério Público de Contas, o que levantou suspeitas de favorecimento político e institucional.
Mudança tardia, pareceres ignorados e decisão política
O concurso foi realizado em 2022 e teve seu resultado homologado em 2023. À época, Marko Venício dos Santos Batista foi reconhecido como o único aprovado na cota PCD. Tudo indicava que sua nomeação seria apenas questão de tempo.
No entanto, em 2025 — mais de dois anos após a homologação e quase três anos depois das inscrições —, o outro candidato pediu reclassificação fora do prazo, alegando novo diagnóstico médico. Três procuradoras concursadas da Prefeitura emitiram pareceres contrários ao pedido, afirmando que a mudança violaria frontalmente o edital do concurso.
Mesmo assim, o pedido foi aceito pelo procurador-geral do município, cargo de confiança indicado pelo prefeito. Pouco depois, a nova classificação foi publicada em edição extra do Diário Oficial, e João Campos assinou a nomeação.
A repercussão negativa foi imediata. Diante da pressão, a Prefeitura voltou atrás e anulou a nomeação dias depois, reconduzindo o candidato originalmente aprovado. Ainda assim, o estrago político já estava feito.
Indignação, notas de repúdio e reação da sociedade
O advogado prejudicado afirmou ter recebido a notícia com profundo sentimento de injustiça, dizendo que as regras do jogo foram alteradas depois de encerrado o certame. Entidades nacionais e locais de procuradores também se manifestaram, classificando a mudança como uma afronta à legalidade, à impessoalidade e à segurança jurídica.
As associações alertaram que permitir esse tipo de manobra abre um precedente perigoso, enfraquece os concursos públicos e compromete a confiança da sociedade nas instituições.
Pedido de impeachment e suspeitas de favorecimento
O vereador Eduardo Moura (Novo) protocolou o pedido de impeachment, afirmando que o prefeito pode ter cometido crime de responsabilidade e atos de improbidade administrativa. O documento destaca não apenas a violação do edital, mas também a coincidência temporal envolvendo a abertura da vaga, a promoção do pai do candidato beneficiado e decisões judiciais sensíveis envolvendo o poder público municipal.
Embora o vereador afirme que não faz acusações pessoais, ele sustenta que os fatos levantam indícios graves que precisam ser investigados com rigor pelos órgãos competentes, incluindo o Ministério Público e a Polícia Civil.
Repúdio e alerta à sociedade
O episódio expõe um cenário preocupante: quando regras claras são flexibilizadas por decisões políticas, a meritocracia perde espaço e a credibilidade do serviço público é colocada em xeque. Independentemente do desfecho jurídico, o caso já se tornou símbolo de um modelo de gestão que muitos enxergam como arrogante, fechado ao diálogo e tolerante a exceções convenientes.
Concursos públicos existem para garantir igualdade, justiça e impessoalidade. Qualquer tentativa de driblar essas bases — ainda que posteriormente revertida — merece repúdio firme da sociedade e vigilância permanente.