
Um acordo histórico sem o presidente
Mercosul e União Europeia oficializam tratado após décadas de negociação
Mesmo sem a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o aguardado acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia será oficialmente assinado neste sábado, em Assunção, no Paraguai. O tratado encerra uma negociação que se arrastou por mais de 25 anos e entra para a lista dos entendimentos comerciais mais longos e complexos da história recente.
O acordo cria uma das maiores áreas de livre comércio do planeta, conectando mercados que somam cerca de 720 milhões de consumidores. A proposta prevê a redução gradual de tarifas sobre produtos e serviços trocados entre os dois blocos, com a expectativa de que aproximadamente 90% do comércio bilateral fique livre de impostos ao longo do tempo. Para setores mais sensíveis, o período de adaptação pode chegar a até 15 anos.
Embora Lula não participe da cerimônia, o governo brasileiro reconhece que o presidente teve papel central para destravar as negociações, especialmente ao assumir compromissos ambientais que ajudaram a diminuir resistências dentro da União Europeia. Em 2023, durante a presidência espanhola do Conselho da UE, Lula chegou a defender publicamente a assinatura do acordo, mas divergências sobre o formato e o local do anúncio acabaram adiando o desfecho.
A solenidade ocorre no teatro José Asunción Flores, sede do Banco Central paraguaio — o mesmo local onde, em 1991, foi assinado o Tratado de Assunção, marco inicial da criação do Mercosul. O Brasil será representado pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira.
Além dos líderes do bloco sul-americano, como os presidentes da Argentina, Bolívia, Paraguai e Uruguai, o evento contará com a presença da cúpula europeia, incluindo a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa.
Lula não viajou ao Paraguai por compromissos de agenda, mas manteve contato direto com os líderes europeus. Na sexta-feira, recebeu Ursula von der Leyen e António Costa no Rio de Janeiro, onde discutiu os próximos passos para a implementação do acordo e outros temas internacionais.
O tratado vai além da ampliação do comércio. O texto inclui regras sobre compras governamentais, propriedade intelectual, normas sanitárias e fitossanitárias, além de compromissos ligados ao desenvolvimento sustentável e à preservação ambiental — pontos decisivos para o consenso final.
Apesar da assinatura, o acordo ainda não entra em vigor imediatamente. Ele precisará ser analisado e aprovado pelo Parlamento Europeu e pelos congressos nacionais dos países do Mercosul, um processo que pode levar anos e enfrentar resistências, especialmente de produtores agrícolas europeus e de setores industriais sul-americanos mais expostos à concorrência externa.
Ainda assim, a assinatura marca um passo simbólico e estratégico, sinalizando que, mesmo em um cenário global instável, grandes acordos multilaterais continuam sendo possíveis.