USP conta até a última cabeça em ato de Flávio Bolsonaro, mas o milhão de Lula fica sem conferência: a matemática política que merece explicação

USP conta até a última cabeça em ato de Flávio Bolsonaro, mas o milhão de Lula fica sem conferência: a matemática política que merece explicação

Estimativa aponta 71,9 mil pessoas na Avenida Paulista durante manifestação pró-Flávio; uma semana antes, o PT falou em 1 milhão de apoiadores no ato de Lula, mas não autorizou a mesma contagem por drones. Na política brasileira, parece que alguns números vêm com calculadora, inteligência artificial e casas decimais — enquanto outros ficam na conta da organização.

A manifestação em apoio ao senador Flávio Bolsonaro (PL), realizada no domingo, 18 de outubro de 2026, na Avenida Paulista, em São Paulo, reuniu aproximadamente 71,9 mil pessoas no horário de pico, segundo estimativa do Monitor do Debate Político da Universidade de São Paulo (USP) e do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), em parceria com a organização More in Common. A contagem utilizou imagens aéreas captadas por drones e analisadas com auxílio de inteligência artificial. <Cite refs={[“turn539215search0″,”turn539215search1”]}/>

Setenta e um mil e novecentas pessoas! Que precisão impressionante! A tecnologia identifica cabeças, calcula concentrações, estabelece um horário de pico e apresenta até margem de erro. É a ciência trabalhando com números, imagens e metodologia. Nada contra contar pessoas com critérios técnicos — pelo contrário, é assim que estimativas de público devem ser feitas.

Mas é justamente aí que começa a ironia.

Uma semana antes, em 11 de outubro, apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) também ocuparam a Avenida Paulista. A campanha petista afirmou que a manifestação reuniu 1 milhão de pessoas. Só que, segundo as reportagens, o PT não autorizou o sobrevoo do drone utilizado pelo grupo responsável pela contagem independente. <Cite refs={[“turn539215search0″,”turn539215search3”]}/>

E agora, como ficamos? Para Flávio, temos 71,9 mil. Para Lula, temos 1 milhão declarado pela organização. Um número passou por uma metodologia de contagem; o outro não pôde ser verificado pelo mesmo procedimento naquela ocasião.

Parece que, quando o assunto é a Paulista, a precisão matemática tem endereço certo — e o milhão, por enquanto, ficou por conta de quem organizou o evento.

É claro que não autorizar uma contagem não prova que o número divulgado seja falso. Seria incorreto afirmar isso. Mas também não faz sentido tratar uma estimativa declarada pela organização como se tivesse sido confirmada por uma medição independente.

Se a pergunta é quantas pessoas compareceram, o ideal é aplicar o mesmo método aos dois atos, com critérios equivalentes, transparência e possibilidade de conferência. A ciência não deveria mudar de importância conforme a cor da camiseta ou o partido do candidato.

E vale um detalhe que também merece atenção: a própria estimativa de 71,9 mil pessoas tem margem de erro de 12%. Isso significa uma faixa aproximada entre 63,3 mil e 80,5 mil participantes no pico da manifestação — não uma contagem individual absolutamente exata. <Cite refs={[“turn539215search0″,”turn539215search5”]}/>

No fim, a ironia está pronta: para um evento, a inteligência artificial faz as contas; para o outro, a organização apresenta um milhão. E o cidadão brasileiro, que já precisa fazer malabarismo com o orçamento doméstico, ainda tem de tentar descobrir qual calculadora está sendo usada em cada discurso político.

Uma sugestão simples para acabar com a discussão: que todos os organizadores autorizem a mesma metodologia independente, seja em atos de Lula, Flávio Bolsonaro ou qualquer outro candidato. Assim, ninguém precisará transformar estimativa em disputa de torcida, e o público poderá comparar números com critérios iguais.

Porque contar pessoas não deveria ser uma questão de preferência política. E, convenhamos, quando a diferença vai de 71,9 mil a 1 milhão, uma conferência independente seria muito mais útil do que qualquer guerra de números nas redes sociais.

Compartilhe nas suas redes sociais
Categorias
Tags