
“Vale champanhe”: Senado brinda enquanto o contribuinte paga a conta
Decisão derruba veto e libera até R$ 300 mil extras para servidores, ignorando alertas do TCU
Enquanto o brasileiro comum fecha o ano fazendo malabarismo para pagar as contas, o Senado Federal resolveu comemorar em grande estilo. Na reta final de 2025, a Casa desembolsou R$ 46 milhões em pagamentos extras para cerca de 800 servidores, com valores que chegaram a R$ 300 mil por pessoa, além do salário regular. Um verdadeiro brinde — com dinheiro público.
O benefício, apelidado nos bastidores de “vale champanhe”, havia sido questionado pelo Tribunal de Contas da União (TCU) por indícios de irregularidade. Ainda assim, os senadores decidiram derrubar um veto presidencial e ressuscitar a vantagem, ignorando os alertas técnicos e o óbvio constrangimento moral da medida.
Oficialmente chamada de Vantagem Pessoal Nominalmente Identificada (VPNI), a remuneração extra serve para preservar benefícios antigos que já haviam sido extintos. O detalhe incômodo é que, em 2021, o próprio TCU considerou irregular o acúmulo dessas vantagens dentro do Senado. Nada que um projeto de lei conveniente — e politicamente conveniente — não resolvesse.
Para completar o roteiro, documentos indicam que o sindicato da categoria contratou um escritório de advocacia para atuar na derrubada do veto, com honorários equivalentes a 10% do valor arrecadado com as VPNIs. Só em taxas advocatícias, o custo chegou a cerca de R$ 4,6 milhões, segundo dados do Portal da Transparência. Transparente no papel, indigesto na prática.
O Senado afirma que os pagamentos são legais e variam conforme a situação funcional de cada servidor. Legalidade, ao que tudo indica, virou sinônimo de conveniência. Já a moralidade administrativa parece ter ficado fora do plenário — junto com o bom senso.
Em um país marcado por cortes em áreas essenciais e cobranças constantes por “responsabilidade fiscal”, a decisão soa como um deboche. Para poucos, champanhe. Para milhões, boleto.