
Venezuela solta genro de opositor de Maduro e sinaliza nova fase com os EUA de Trump
Libertação ocorre após compromissos assumidos pelo governo interino e reforça mudança de rota política após a queda de Maduro
A Venezuela libertou Rafael Tudares, genro de um dos principais adversários de Nicolás Maduro nas controversas eleições de 2024, em um gesto que simboliza a tentativa de reaproximação do país com os Estados Unidos sob a liderança de Donald Trump. A soltura faz parte de uma série de compromissos assumidos pela nova presidente interina, Delcy Rodríguez, após os desdobramentos do ataque de 3 de janeiro e a prisão de Maduro.
Tudares é casado com Mariana González, filha de Edmundo González Urrutia, candidato da oposição que entrou na disputa presidencial no lugar de María Corina Machado. Apesar de Maduro ter sido proclamado vencedor pelas autoridades eleitorais — sob acusações de favorecimento e fraude —, González Urrutia acabou deixando o país e se exilou na Espanha. Sua família, no entanto, permaneceu na Venezuela.
Em janeiro de 2025, Rafael Tudares foi detido de forma violenta por homens encapuzados enquanto levava os filhos à escola. Acusado de terrorismo, recebeu a pena máxima de 30 anos de prisão. A condenação foi denunciada pela oposição como um ato claro de retaliação política.
Após 380 dias de prisão, Mariana González anunciou a libertação do marido com um desabafo emocionado. “Depois de mais de um ano de uma prisão injusta, arbitrária e marcada por desaparecimento forçado, Rafael voltou para casa. Foi uma luta estoica, dura e desumana”, escreveu.
A libertação ocorre em meio a uma mudança profunda no poder em Caracas. Com Maduro preso em Nova York e aguardando julgamento por narcotráfico, Delcy Rodríguez assumiu interinamente o comando do país. Ex-vice-presidente, ela passou a redesenhar a relação com Washington, negociando acordos no setor de petróleo e prometendo a libertação gradual de presos políticos.
Segundo a ONG Foro Penal, a Venezuela ainda mantém 777 presos políticos, embora 143 tenham sido libertados desde o anúncio oficial do governo, em 8 de janeiro. O ritmo lento das solturas mantém famílias acampadas em frente a presídios, à espera de notícias.
Enquanto isso, nomes importantes da oposição seguem encarcerados, como Juan Pablo Guanipa, aliado de María Corina Machado, além de Freddy Superlano e do ativista Javier Tarazona. Organismos internacionais, como a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, continuam denunciando a existência de centros de detenção clandestinos no país.
No plano político, Rodríguez consolidou o controle do governo. Reformou ministérios, reestruturou comandos militares e impulsionou mudanças na lei de hidrocarbonetos para atrair investimentos estrangeiros — um ponto central na agenda de Trump para a Venezuela pós-Maduro. A interina também deve se reunir com o presidente norte-americano na Casa Branca, em data ainda indefinida.
Em Davos, Trump elogiou a condução do novo governo venezuelano, afirmando que “os líderes do país foram muito inteligentes”. Já Rodríguez declarou que o diálogo com os Estados Unidos ocorre “sem medo”, apesar de ainda ser alvo de sanções, incluindo o congelamento de bens.
A libertação de Rafael Tudares, mais do que um ato isolado, surge como símbolo de uma Venezuela que tenta virar a página — ainda sob desconfiança, feridas abertas e um longo caminho pela frente até a normalização democrática.