
Zambelli na Câmara: relator tenta salvá-la, oposição trava e cassação fica para depois
Mesmo condenada pelo STF e presa na Itália, a deputada ganha fôlego político graças a um parecer favorável — enquanto a oposição acusa manobras e pede tempo para adiar o julgamento.
O processo de cassação de Carla Zambelli, que já virou praticamente um seriado político, ganhou mais um capítulo nesta terça-feira. O relator do caso na Comissão de Constituição e Justiça, Diego Garcia (Republicanos-PR), apresentou um parecer que tenta manter o mandato da deputada, mesmo ela estando presa na Itália e já condenada pelo Supremo Tribunal Federal.
Assim que o voto foi lido, deputados da oposição correram para pedir vista — aquela velha manobra que empurra tudo para depois — adiando a discussão por pelo menos duas sessões. Os responsáveis pelo freio de mão foram Marcon, Gisela Simona, Claudio Cajado e Pompeo de Matos.
Em entrevista, Garcia afirmou que não cabe à CCJ analisar faltas ou ausência da parlamentar, jogando essa bola para a Mesa Diretora. E foi além: disse que viu “fragilidades demais” no processo que condenou Zambelli no STF. Segundo ele, nada do que leu produz certeza de que ela ordenou a invasão ao sistema do Conselho Nacional de Justiça — episódio que detonou toda a crise.
O relator se agarrou fortemente ao argumento de que a acusação depende quase inteiramente do depoimento de Walter Delgatti. Sem outras provas materiais, segundo ele, o caso fica “por demais frágil”.
É a versão “não tem print, não tem crime” elevada ao nível institucional.
Garcia ainda citou relatos de peritos ligados à defesa, afirmando que nenhum arquivo nos aparelhos da deputada apontava para participação na invasão. De quebra, disse ter encontrado sinais de “perseguição política” contra Zambelli, mencionando testemunhas que teriam admitido que ela era um “alvo preferencial” dentro do Judiciário.
Enquanto isso, o presidente da CCJ, Paulo Azi, agradecia o Ministério da Justiça e o STF pelas informações prestadas — um recado indireto ao relator, que alegou não ter tido acesso ao processo completo.
É Brasília sendo Brasília: cada qual com suas verdades paralelas.
Apesar do parecer que tenta salvar o mandato, a base governista reagiu imediatamente. O líder do PT, Lindbergh Farias, já correu ao STF com um mandado de segurança para que a Mesa Diretora cumpra a cassação decidida pela Corte.
Lindbergh foi direto:
— O presidente da Câmara tem que cumprir a decisão judicial, não inventar interpretação.
Zambelli, por sua vez, segue longe dos holofotes presenciais. Está detida em Roma desde julho, após a Interpol incluí-la na lista vermelha. Ela deixou o Brasil depois de esgotar os recursos na ação penal sobre a invasão ao CNJ, condenação que, em tese, já pavimenta sua perda de mandato.
Mesmo assim, o presidente da Câmara, Hugo Motta, resolveu não cassá-la diretamente pela Mesa. Mandou tudo para a CCJ — o que, na prática, deu tempo, fôlego e um novo palco político para a defesa da deputada.
Nos bastidores, ninguém espera avanço rápido. O pedido de vista já era previsto e empurra o debate para a próxima semana. E, para completar, a composição da CCJ favorece Zambelli, com maioria de parlamentares de direita — fator que pode pesar no destino final do caso.
A novela continua. E, como toda boa novela de Brasília, quanto mais tempo passa, mais longe fica o desfecho — e mais perto fica a sensação de que alguns mandatos têm um estofo político que nem condenação, prisão e Interpol conseguem abalar.