
đ R$ 43 milhĂ”es para poucos: Projetos inusitados da Lei Rouanet levantam debate sobre gastos e retorno social
Mesmo dentro da legalidade, iniciativas culturais aprovadas pelo Ministério da Cultura chamam atenção pelo alto custo e pouca contrapartida à sociedade
Entre maio e junho, o governo federal autorizou uma nova leva de projetos culturais a captar mais de R$ 700 milhĂ”es via Lei Rouanet atĂ© o fim de 2025. Embora a legislação permita esse tipo de incentivo â em que empresas destinam parte de seus impostos a açÔes culturais aprovadas pelo MinistĂ©rio da Cultura â, alguns projetos vĂȘm gerando debate por chamarem atenção mais pelo valor envolvido do que pelo impacto social.

SĂł oito desses projetos, por exemplo, estĂŁo habilitados a arrecadar R$ 43 milhĂ”es, mesmo com contrapartidas consideradas modestas ou simbĂłlicas. Um dos casos mais emblemĂĄticos Ă© o da Oktoberfest GoiĂąnia, que poderĂĄ captar R$ 12,3 milhĂ”es com apenas uma palestra para estudantes do ensino mĂ©dio como compensação social. O tema da aula? Como captar recursos pĂșblicos.
Outro projeto que gerou surpresa foi a Marcha do Orgulho Trans, que poderĂĄ levantar R$ 4,1 milhĂ”es para um evento e feira cultural em SĂŁo Paulo. Embora alinhados com as regras da lei, os valores altos e os retornos questionĂĄveis para a população geram incĂŽmodo, principalmente diante da escalada na captação de recursos pĂșblicos por meio da Rouanet: sĂł em 2024, foram R$ 3,1 bilhĂ”es, o maior valor da histĂłria da lei.
Veja outros projetos aprovados que também chamaram a atenção:
- R$ 15 milhÔes para um festival em homenagem aos 80 anos de Alceu Valença;
- R$ 7,8 milhĂ”es para a turnĂȘ do musical infantil da Hello Kitty;
- R$ 406 mil para um livro sobre a empresĂĄria de moda de luxo Carol Bassi;
- R$ 3 milhĂ”es para o musical âNossa HistĂłria com Chico Buarqueâ, com ingressos a atĂ© R$ 80;
- R$ 512 mil para oficinas de iluminação cĂȘnica no EspĂrito Santo;
- R$ 200 mil para rodas de conversa sobre cultura afro com foco em mulheres negras, periféricas e de Terreiro.
Em contraste, projetos como o da Associação Renascer em Cristo, que vai usar R$ 2.227 para produzir e distribuir mil brinquedos educativos para crianças vulnerĂĄveis, mostram que Ă© possĂvel oferecer retorno social significativo com pouco recurso.
Apesar de tudo estar dentro da lei, o debate cresce: vale a pena abrir mĂŁo de tanto imposto para iniciativas de retorno limitado? O MinistĂ©rio da Cultura, comandado por Margareth Menezes, prometeu R$ 1 bilhĂŁo para a Lei Rouanet este ano. Mas a discussĂŁo sobre equilĂbrio entre incentivo cultural e responsabilidade fiscal estĂĄ longe de acabar.