
👉 “Bolsonaro deve cumprir pena na cadeia”, diz Kim Kataguiri, que lança novo partido e rompe de vez com o bolsonarismo
O deputado e fundador do MBL afirma que Jair Bolsonaro tentou dar um golpe de Estado e que sua família “nunca se preocupou com o país”. Prestes a criar seu próprio partido, Kataguiri diz ter mudado de visão sobre privatizações e promete uma “nova direita” sem herdeiros do ex-presidente.
Dez anos depois de surgir como rosto jovem das manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff, Kim Kataguiri diz que o Movimento Brasil Livre (MBL) já não é o mesmo. O deputado federal, hoje com 29 anos, afirma que o grupo amadureceu e que ele próprio mudou de visão — principalmente sobre privatizações e sobre a política de alianças com o bolsonarismo.
Em entrevista à BBC News Brasil, Kataguiri foi direto: Jair Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe, “deve cumprir pena na cadeia”. Só sairia de lá, segundo o parlamentar, “para tratar de problemas médicos pontuais”.
“Ele tentou, sim, dar um golpe de Estado — e de forma desastrada”, afirma o deputado. “O julgamento teve erros processuais, mas a tentativa foi real. Bolsonaro só não levou adiante porque o comandante do Exército o ameaçou de prisão.”
Kataguiri lembra que o ex-presidente “traiu os próprios valores” e desperdiçou a chance de consolidar um governo de direita:
“Bolsonaro pegou o país com o PT em baixa e terminou como o primeiro presidente da República a perder uma reeleição. Nem Dilma conseguiu esse feito.”
O deputado, que admite ter votado em Bolsonaro em 2018, diz que se arrependeu do apoio:
“Votei por falta de opção. Hoje, jamais votaria nele ou em qualquer membro da família. A família Bolsonaro é um projeto de poder, não de país.”
Um novo partido e um novo discurso
Kataguiri se prepara para lançar seu próprio partido, o Missão, e aposta em Renan Santos — outro fundador do MBL — como candidato à Presidência em 2026.
“Não quero perpetuar poder, quero cumprir uma missão”, diz ele. “O Missão será um partido de militância e propósito, sem depender de dinheiro público.”
O deputado também reconhece uma virada de pensamento. Se antes defendia privatizações em massa, agora diz que o tema precisa de equilíbrio:
“Aquilo que é público e funciona bem não deve ser privatizado. A Embrapa, por exemplo, é referência mundial.”
Ele mantém críticas duras à gestão pública da saúde, chamando o modelo do SUS de “fracassado”, mas rejeita o rótulo de defensor da privatização total. “A questão é gestão, não ideologia”, resume.
Rompimento com o bolsonarismo
Kataguiri afirma que o rompimento com o bolsonarismo trouxe perseguições: “Nos chamaram de traidores, comunistas, inventaram denúncias absurdas. Tentaram nos destruir”.
O parlamentar cita o “fim da Lava Jato”, o afrouxamento da Lei de Improbidade e as manobras para proteger Flávio Bolsonaro como os símbolos do que chama de “traição moral” de Jair Bolsonaro:
“Ele vendeu o país inteiro em troca da blindagem do filho.”
Entre a direita e a autocrítica
O deputado diz que o MBL passou por uma “revisão ideológica” inspirada em pensadores conservadores como Roger Scruton, e que o liberalismo puro deu lugar a um conservadorismo pragmático.
Na economia, promete propor uma nova Constituição para “romper amarras orçamentárias”, reduzir privilégios do Judiciário e endurecer o combate ao crime organizado. Chega a defender pena de morte e prisão perpétua para chefes de facção.
Lula, eleições e futuro
Kataguiri acredita que Lula não deve disputar a reeleição em 2026:
“Ele está mais preocupado com sua biografia do que com o poder. O PT já pensa no pós-Lula.”
Mesmo assim, o deputado reconhece que seu novo partido enfrentará dificuldades. Sem fundo eleitoral e sem tempo de TV, ele aposta na militância e na comunicação digital — a mesma que projetou o MBL dez anos atrás.
“Não estamos na política para enriquecer ou perpetuar o poder. Estamos aqui para cumprir uma missão — e ela está só começando.”