
Acusações de ex-sócio de Flávio Bolsonaro entram em cena eleitoral; relatos sobre mulheres, Rolex e STF ainda exigem comprovação independente
Alexandre Santini, antigo sócio e amigo do senador, apresenta mensagens, fotografias e documentos em meio a uma disputa financeira de R$ 1,47 milhão; parte do material sustenta alegações sobre festas privadas, presente de R$ 305 mil e suposta intermediação no STF, mas nem todas as acusações foram confirmadas de forma independente
A cinco dias do primeiro turno das eleições de 2026, novas acusações envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL) ganharam repercussão nacional. O material foi divulgado pelo PlatôBR, a partir de documentos, mensagens, fotografias e outros registros mantidos por Alexandre Ferreira Dias Santini, ex-sócio e antigo amigo do parlamentar.
As informações envolvem diferentes assuntos: relatos sobre festas privadas com mulheres contratadas por intermédio de uma agenciadora, a compra de um Rolex Submariner Date de ouro branco por R$ 305 mil, despesas pessoais supostamente pagas por pessoas próximas e uma alegada tentativa de intermediação de interesses de um cliente junto ao gabinete do ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal.
Mas há uma distinção fundamental: parte do material é documental, enquanto determinadas conclusões apresentadas nas reportagens permanecem como alegações de Santini ou interpretações dos documentos. No caso da suposta intermediação no STF, por exemplo, o próprio UOL registra que não houve comprovação independente de que ela efetivamente ocorreu.
Quem é Alexandre Santini e por que o contexto importa
Santini não é um desconhecido de Flávio Bolsonaro. Os dois foram sócios em uma franquia da Kopenhagen, a Bolsotini Chocolates e Café, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro.
A sociedade terminou em meio a uma disputa financeira. Em 2023, Santini buscou cobrar judicialmente aproximadamente R$ 1,47 milhão, alegando diferenças na divisão dos lucros e despesas que teria pago sem receber reembolso. O caso é anterior às acusações divulgadas agora e está documentado em registros judiciais e reportagens da época.
Esse histórico é relevante porque parte do novo acervo foi preservada por Santini justamente durante o período de rompimento e disputa com o antigo sócio.
Isso não significa que as acusações sejam falsas. Também não significa que sejam automaticamente verdadeiras. O conflito financeiro é um elemento de contexto que precisa ser apresentado ao leitor para que as alegações possam ser avaliadas com cautela.
Relatos sobre festas e mulheres
Entre os materiais divulgados estão mensagens atribuídas a Santini nas quais ele conversa com uma mulher que seria responsável por intermediar a contratação de outras mulheres para encontros privados.
Segundo a reportagem do PlatôBR, Santini teria organizado encontros em hotéis, incluindo o Grand Hyatt, no Rio de Janeiro, e afirmado que Flávio participaria de alguns deles. Também foram divulgadas fotografias que, segundo a reportagem, teriam sido feitas durante um desses encontros.
O ex-sócio teria posteriormente mostrado parte desse material à Fernanda Bolsonaro, mulher de Flávio.
É justamente nesse ponto que a cobertura exige cuidado: fotografias de uma festa, mensagens sobre contratação de pessoas ou relatos de um ex-sócio não constituem, isoladamente, prova independente de todos os fatos narrados ou de cada pessoa que teria participado dos encontros.
Até o momento, nas fontes consultadas, o que existe é a documentação apresentada pelo ex-sócio e a reportagem jornalística sobre esse material. Não há decisão judicial estabelecendo como fato todas as acusações relacionadas à vida privada de Flávio Bolsonaro.
A alegação envolvendo a esposa de Flávio
Outro ponto relatado é que Santini teria procurado Fernanda Bolsonaro durante o conflito com o ex-sócio para apresentar fotografias e mensagens relacionadas à vida pessoal do senador.
Segundo a reportagem, o episódio teria provocado uma crise conjugal e, posteriormente, Flávio teria enviado uma mensagem na qual afirmava ter se arrependido de “muitas escolhas erradas” e que não pretendia voltar a errar com a família.
O próprio conteúdo dessa mensagem, porém, não identifica expressamente quais seriam as “escolhas erradas”. Portanto, associar automaticamente essa frase a determinada acusação seria ir além do que o documento, isoladamente, permite concluir.
Essa é uma das principais diferenças entre o que está documentado e aquilo que é interpretado a partir do documento.
O Rolex de R$ 305 mil
Outra frente da reportagem envolve um relógio Rolex Submariner Date de ouro branco, comprado em fevereiro de 2022 por R$ 305 mil.
A nota fiscal mencionada nas reportagens está em nome do advogado Alan Belaciano. Segundo as mensagens apresentadas pelo PlatôBR, entretanto, o relógio teria sido comprado para Flávio Bolsonaro.
O caso não é inteiramente novo. Em momento anterior, Flávio afirmou que determinados gastos feitos por um amigo representavam um “empréstimo pessoal” que seria quitado. O novo material procura contestar essa versão ao apresentar mensagens e registros sobre a aquisição do relógio.
Aqui também existe uma diferença importante entre os elementos disponíveis:
Fato documentado: existe uma nota fiscal referente a um Rolex de R$ 305 mil emitida em nome de Alan Belaciano.
Alegação da reportagem: mensagens e registros mantidos por Santini indicariam que o relógio teria sido adquirido para Flávio.
Ponto ainda dependente de esclarecimento: a natureza jurídica da transferência, eventual pagamento pelo senador e a finalidade exata do presente.
A suposta atuação junto a Kassio Nunes Marques
O trecho politicamente mais sensível envolve o ministro Kassio Nunes Marques, do STF.
Segundo o material divulgado, Santini teria enviado uma mensagem a Flávio afirmando que o senador havia conversado diretamente com Kassio Nunes e intermediado o interesse de um cliente em determinado processo.
A mensagem existe no acervo apresentado à reportagem, mas isso não comprova, sozinho, que a intermediação tenha acontecido exatamente como descrita.
O UOL foi explícito ao registrar que a reportagem não identificou o cliente ou o processo e não apresentou comprovação independente de que a suposta intermediação efetivamente ocorreu.
Essa ressalva é essencial.
Uma mensagem de uma pessoa acusando outra de determinada conduta comprova, em primeiro lugar, que a mensagem foi enviada, desde que sua autenticidade seja confirmada. Ela não comprova automaticamente a veracidade daquilo que o remetente afirma.
A contradição central da denúncia
A história reúne elementos diferentes que não podem ser colocados todos no mesmo nível de comprovação.
De um lado, existem documentos, notas fiscais, mensagens e registros apresentados como parte do acervo de Santini. De outro, existem conclusões sobre o significado desses documentos e acusações que dependem de confirmação adicional.
A contradição mais evidente está justamente na tentativa de transformar diferentes tipos de material em uma única narrativa conclusiva.
No caso do Rolex, há um documento comercial e mensagens que, segundo a reportagem, ligam o objeto a Flávio.
No caso das festas, há mensagens, fotografias e relatos do ex-sócio, mas a participação individual de cada pessoa e o contexto completo dos registros dependem de verificação.
No caso do STF, existe a mensagem atribuída a Santini, mas não há comprovação independente da suposta intermediação, conforme registrado pelo UOL e pelo Brasil de Fato.
Portanto, não é correto apresentar todos esses elementos como se fossem fatos definitivamente comprovados.
A disputa financeira não pode ser ignorada
Existe ainda um componente que merece atenção: Santini mantém uma disputa financeira com Flávio Bolsonaro.
Em 2023, ele entrou na Justiça para cobrar R$ 1,47 milhão. A cobrança incluía alegações sobre distribuição desigual de lucros e despesas que teriam sido pagas pelo empresário.
Isso não invalida automaticamente qualquer documento apresentado por Santini, mas é uma informação relevante para o leitor conhecer a relação entre a fonte das acusações e o alvo delas.
Da mesma maneira, uma disputa financeira não permite concluir automaticamente que todos os relatos sejam falsos.
A maneira jornalisticamente mais segura é apresentar os dois elementos simultaneamente: existem documentos e mensagens apresentados pelo ex-sócio, e existe também um histórico de conflito financeiro entre os dois.
Poucos dias antes da eleição
O momento da divulgação também chama atenção.
Flávio Bolsonaro é candidato à Presidência da República em 2026, e a divulgação ocorre às vésperas do primeiro turno. Isso faz com que qualquer denúncia envolvendo sua vida pessoal, relações empresariais, empresários e integrantes do Judiciário tenha evidente repercussão eleitoral.
Isso, contudo, não permite afirmar que a publicação tenha sido produzida com finalidade eleitoral sem evidências específicas sobre a intenção de seus autores.
O que pode ser afirmado objetivamente é que o conteúdo surge em um período eleitoral de alta exposição pública do candidato.
Observação: acusação não é condenação
Há uma diferença que precisa ser preservada durante toda a cobertura.
Não há, nas fontes consultadas, comprovação judicial de que Flávio Bolsonaro tenha cometido os crimes sugeridos por algumas das interpretações que circulam a partir do material.
Também não há comprovação independente, nas fontes consultadas, da alegada intermediação de um cliente junto ao gabinete de Kassio Nunes Marques.
Quanto às festas e à vida privada, as reportagens apresentam mensagens, fotografias e relatos atribuídos ao ex-sócio. Isso é diferente de uma confirmação judicial ou de uma investigação independente que estabeleça definitivamente os fatos.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, classificou as acusações de Santini como “infundadas”, segundo o PlatôBR. O UOL informou ainda que procurou Flávio, Santini, Alan Belaciano e o gabinete de Kassio Nunes Marques em busca de manifestações.
O que está comprovado e o que permanece como alegação
A leitura mais cuidadosa do episódio pode ser resumida assim:
Com documentação apresentada: a existência da antiga sociedade entre Flávio e Santini e a disputa financeira de R$ 1,47 milhão; a existência da nota fiscal do Rolex de R$ 305 mil em nome de Alan Belaciano; e a existência das mensagens e registros apresentados nas reportagens.
Relatado pelo ex-sócio: a participação de Flávio em determinados encontros privados, o pagamento de despesas por pessoas próximas e a suposta intermediação de interesses junto ao STF.
Ainda sem confirmação independente nas fontes consultadas: a efetiva intermediação de um processo junto ao gabinete de Kassio Nunes Marques e as conclusões mais amplas derivadas das mensagens sobre a vida privada do senador.
Essa separação é importante porque uma denúncia pode ser relevante jornalisticamente sem que todas as suas alegações estejam comprovadas.
No caso envolvendo Flávio Bolsonaro, o episódio coloca novamente em evidência o papel de um antigo aliado que se tornou adversário em uma disputa financeira e agora apresenta um acervo de mensagens, fotografias e documentos potencialmente relevantes. Mas, especialmente em período eleitoral, o dever de separar prova, relato, interpretação e acusação torna-se ainda mais importante.