Alerj corre contra o tempo para decidir futuro de Rodrigo Bacellar

Alerj corre contra o tempo para decidir futuro de Rodrigo Bacellar

Prisão do presidente da Assembleia sacode o Rio; aliados pressionam por sessão relâmpago antes mesmo da chegada da notificação oficial

A política fluminense amanheceu em turbulência. O presidente da Assembleia Legislativa do Rio, Rodrigo Bacellar (União Brasil), foi preso pela Polícia Federal durante a Operação Unha e Carne — e agora a própria Alerj terá de decidir se mantém ou revoga a prisão de seu comandante.

Segundo a PF, Bacellar é suspeito de ter vazado informações sigilosas da Operação Zargun, realizada em setembro, que acabou levando à prisão do então deputado TH Joias. A TV Globo confirmou que a direção da Alerj já teve acesso à decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), mas a notificação formal — exigida por lei — só deve chegar na manhã desta quinta-feira (4). A partir daí, os deputados terão a última palavra.

Pelas constituições federal e estadual, o Legislativo tem de ser comunicado em até 24 horas. E os aliados de Bacellar não querem perder tempo: já articulam uma sessão extraordinária para votar o caso assim que o aviso oficial desembarcar na Casa.

Um filme conhecido: a Alerj mais uma vez votando para soltar deputados

Se a votação acontecer, será a terceira vez em poucos anos que o plenário decide sobre a prisão de parlamentares — e a segunda vez envolvendo um presidente da Casa. Em 2017, a Alerj reverteu a prisão de Jorge Picciani, Paulo Melo e Edson Albertassi, todos detidos na Operação Cadeia Velha, da Lava Jato. Dois anos depois, em 2019, cinco deputados também foram libertados após votação no plenário.

Curiosamente, Rodrigo Bacellar — hoje preso — votou pela soltura dos colegas naquela ocasião, quando ainda era filiado ao Solidariedade.

O rito: CCJ analisa, plenário decide

Seguindo o protocolo, a comunicação do STF será encaminhada à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), presidida por um dos aliados mais próximos de Bacellar, o deputado Rodrigo Amorim. A CCJ avaliará se recomenda a manutenção ou o relaxamento da prisão. Depois, o parecer vai para o plenário, onde os 70 deputados votam.

Para reverter a prisão, são necessários pelo menos 36 votos — a maioria simples.

Aliados ouvidos pela TV Globo admitem que querem votar o quanto antes, tentando aproveitar o clima para blindar o presidente da Casa.

As acusações: obstrução, vazamento e influência política

Na decisão que determinou a prisão, o ministro Alexandre de Moraes não economizou nas palavras: há “fortes indícios” de que Bacellar atuou para atrapalhar investigações contra facções criminosas, usando sua influência política dentro do Estado.

Segundo a PF, no dia anterior à Operação Zargun, Bacellar teria avisado TH Joias por telefone sobre os mandados que seriam cumpridos, orientando-o a “sumir com provas”. TH deixou sua casa às pressas, usando até caminhão-baú para esvaziar o imóvel — um movimento que reforçou as suspeitas.

A prisão aconteceu dentro da própria Superintendência da PF no Rio, após Bacellar ser convidado para uma reunião. O encontro virou flagrante: ao chegar, recebeu voz de prisão e teve o celular apreendido.

TH Joias: o pivô da crise

TH Joias — que já era alvo de duas investigações simultâneas — foi preso por tráfico de drogas, corrupção e lavagem de dinheiro, acusado de negociar armas e acessórios para o Comando Vermelho. Para o Ministério Público, TH usou o mandato para favorecer a facção, inclusive nomeando comparsas para cargos dentro da própria Alerj.

As operações Zargun e Bandeirante revelaram um esquema robusto que unia traficantes, agentes públicos, policiais e até um delegado federal. Havia importação de armas do Paraguai, equipamentos da China, lavagem de dinheiro e tentativas de infiltrar aliados dentro do Estado.

E agora?

A Alerj afirmou que ainda não foi oficialmente comunicada, mas que tomará “todas as medidas cabíveis” assim que o STF enviar a notificação. Até o momento, a defesa de Bacellar não se pronunciou.

A decisão sobre manter ou libertar o presidente da Assembleia — um dos políticos mais influentes do estado — deve colocar mais uma vez os holofotes sobre o Legislativo fluminense e sua já conhecida rotina de confrontar decisões judiciais.

O Rio, mais uma vez, observa um roteiro que parece nunca mudar: operações, prisões, grampos, suspeitas… e uma Alerj obrigada a decidir o futuro de seus próprios membros.

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