Quando a Palavra Vira Faísca: Prefeito de Maricá causa revolta ao defender operação letal do Bope

Quando a Palavra Vira Faísca: Prefeito de Maricá causa revolta ao defender operação letal do Bope

Em seminário do PT no Rio, Washington Quaquá perde a linha, enfrenta protestos e dobra a aposta ao justificar uma ação policial que deixou 122 mortos

O clima que era para ser de debate virou quase um ringue. Durante um encontro do PT sobre segurança pública no Rio de Janeiro, o prefeito de Maricá e vice-presidente nacional do partido, Washington Quaquá, decidiu ir pelo caminho mais inflamado: defendeu com unhas e dentes a megaoperação nos Complexos da Penha e do Alemão, aquela mesma que entrou para a história como a mais letal já registrada no país. Foram 122 mortos — entre eles cinco policiais — e uma cicatriz aberta no debate público.

No microfone, Quaquá disparou a frase que incendiou o auditório:
“O Bope só matou otário, vagabundo, bandido. Perguntei se tinha trabalhador. Não tinha. Era tudo bandido.”

Mal terminou a frase e o salão virou um mar de contestação. Gritos de “mentira!” ecoaram como pedradas. Uma mulher foi para o enfrentamento direto, relembrando que um pedreiro foi decapitado na operação:
“Você está falando mentiras!”, protestou.

Quaquá, mantendo o tom duro, rebateu:
“Você vai ouvir eu falar ou vai ficar berrando? Eu ouço bobagens. Espero que, na democracia, vocês também ouçam.”

A postura não surpreende quem acompanha suas declarações. Ele já havia defendido outras vezes a operação — superando até o tristemente célebre massacre do Carandiru, de 1992. Mas o desconforto dentro do próprio PT é público: Lula chamou a ação de “matança”, enquanto Guilherme Boulos classificou o episódio como “desastroso”.


A lógica de Quaquá: ocupar ou morrer tentando

Após o bate-boca, o prefeito reforçou sua tese a jornalistas. Para ele, o erro da operação não foi o número de mortes, mas a falta de ocupação contínua do território dominado pelo tráfico.

“O povo pobre é oprimido, assassinado, roubado todos os dias. A ocupação é fundamental. Se fosse só para matar, tinham que matar 1.000 soldados do tráfico. Entraram e saíram. Esse é o problema.”

Na sua visão, o Estado não pode tratar essas áreas como visitas ocasionais: deve permanecer, estabelecer presença, reconstruir a lógica social — algo que ele acredita ser a única forma de libertar moradores de uma rotina de violência.

Quaquá ainda afirmou que, se a ocupação fosse completa, não se preocuparia com quantos traficantes fossem mortos — mas fez uma ressalva importante:
“Se um único inocente morreu, já é muito.”


Entre o discurso e a realidade: o abismo continua

A fala do prefeito expõe um dilema que o país insiste em empurrar para os cantos: como combater facções armadas sem transformar comunidades em zonas de guerra? Como defender vidas quando o próprio Estado, ao agir, provoca mortes que jamais poderão ser justificadas?

Quaquá tenta argumentar que defende o povo pobre — mas sua escolha de palavras, cortantes como lâmina, mostram um abismo entre quem governa e quem vive, de fato, na ponta do fuzil. Ao chamar mortos de “otários”, o prefeito ignora que, em territórios abandonados pelo Estado, é quase sempre o mais fraco que paga o preço.

A plateia reagiu porque sabe: não é simples separar “bandido” e “trabalhador” quando o mesmo CEP condena jovens antes do RG.

O debate segue. A ferida também.

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