André Mendonça deixa sociedade do Instituto Iter em meio a questionamentos sobre contratos públicos e encontro com Vorcaro

André Mendonça deixa sociedade do Instituto Iter em meio a questionamentos sobre contratos públicos e encontro com Vorcaro

Ministro do STF afirma que cedeu suas cotas e as da esposa sem receber qualquer valor e diz nunca ter obtido lucro com a instituição; Iter será transformado em entidade sem fins lucrativos e Mendonça continuará apenas como professor

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Luiz de Almeida Mendonça decidiu deixar a sociedade do Instituto Iter, entidade de ensino e capacitação profissional fundada por ele e que passou a ser alvo de questionamentos após a divulgação de contratos firmados com órgãos públicos.

A decisão foi anunciada nesta quinta-feira (3), em meio a uma sequência de reportagens sobre os negócios do instituto e à repercussão de um encontro entre Mendonça e o empresário Daniel Bueno Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, realizado em março de 2025 na própria sede do Iter, em São Paulo.

Segundo nota divulgada pela assessoria do ministro, Mendonça transferirá a totalidade de suas cotas e também as cotas pertencentes à sua esposa, Janei Mendonça, sem receber qualquer contrapartida financeira.

O ministro afirma ainda que jamais auferiu lucro do Instituto Iter.

A instituição será transformada em uma entidade sem fins lucrativos, e Mendonça permanecerá vinculado ao projeto somente na condição de professor, exercendo atividades acadêmicas.

Decisão ocorre em meio à repercussão dos contratos públicos

A saída de Mendonça ocorre justamente quando o Instituto Iter passou a receber atenção por causa do volume de contratos celebrados com órgãos públicos.

Segundo levantamento divulgado pelo UOL, o instituto firmou ao menos 52 contratos com instituições públicas, sem licitação, que somam aproximadamente R$ 8,2 milhões, em pouco mais de dois anos.

Entre os contratantes aparecem prefeituras, governos estaduais e tribunais de contas.

Um dos maiores contratos mencionados foi firmado com o Tribunal de Justiça do Amazonas, no valor de aproximadamente R$ 1,6 milhão.

O governo de São Paulo também aparece entre os contratantes, com contrato de valor semelhante.

A instituição, por sua vez, afirma que os contratos respeitaram a legislação.

O presidente do Iter, Victor Godoy Veiga, argumenta que cursos e programas de formação constituem serviços técnicos especializados de natureza predominantemente intelectual e que a legislação permite, em determinadas circunstâncias, a contratação direta por inexigibilidade de licitação.

Segundo ele, os cursos possuem projetos pedagógicos, conteúdos e equipes próprias, o que dificultaria uma competição convencional de preços.

Número de contratos cresceu rapidamente

Os dados publicados pelo UOL mostram também um crescimento expressivo do número e do valor dos contratos do Instituto Iter.

Em 2024, primeiro ano de funcionamento, foram registrados 10 contratos, totalizando aproximadamente R$ 115 mil.

Em 2025, o número saltou para 32 contratos, que somaram cerca de R$ 4 milhões.

Entre janeiro e agosto de 2026, o instituto já havia firmado outros contratos avaliados em aproximadamente R$ 4,1 milhões.

Somados, os valores chegam aos cerca de R$ 8,2 milhões apontados pelo levantamento.

O crescimento dos negócios com o poder público contribuiu para levantar questionamentos sobre a participação societária de um ministro do STF em uma instituição que presta serviços justamente a órgãos públicos.

Isso, porém, não significa que os contratos tenham sido considerados ilegais. A instituição sustenta que as contratações seguiram a legislação e que a escolha da modalidade de contratação cabe ao órgão público responsável pelo processo.

Mendonça diz que nunca recebeu lucro

A defesa apresentada por André Mendonça é direta.

Segundo a nota divulgada nesta quinta-feira, o ministro decidiu abrir mão de suas cotas e das cotas de sua esposa sem receber qualquer pagamento em troca.

O comunicado afirma ainda que eventual valor correspondente às cotas permanecerá destinado integralmente a finalidades sociais e educacionais.

O Iter também declarou que não houve distribuição de lucros ou dividendos aos sócios durante os dois anos de funcionamento da instituição.

A informação é importante porque reportagens anteriores haviam levantado dúvidas sobre a existência de ganhos pessoais dos sócios.

Mendonça nega ter recebido lucro.

Segundo relatos publicados pela imprensa, ele teria informado a interlocutores que a instituição teve prejuízo no primeiro ano e apenas um pequeno saldo positivo no segundo.

O dízimo e as obras sociais

A relação financeira de Mendonça com o instituto já havia sido explicada publicamente pelo próprio ministro.

Em vídeo divulgado anteriormente, ele afirmou que, caso houvesse lucro ou resultado positivo relacionado à sua participação, pretendia destinar parte para o dízimo religioso e o restante para obras sociais e educação.

Na ocasião, Mendonça afirmou que ele e sua esposa haviam decidido direcionar os recursos para essas finalidades.

Agora, ao deixar formalmente a sociedade, o ministro afirma que as cotas serão cedidas sem contrapartida financeira e que os recursos correspondentes permanecerão vinculados a objetivos sociais e educacionais.

O Instituto Iter será transformado em entidade sem fins lucrativos

A mudança societária não será apenas a saída pessoal de Mendonça.

Segundo a nota, o próprio Instituto Iter será transformado em uma entidade sem fins lucrativos.

A alteração pretende reforçar o caráter educacional e social da organização.

Mendonça continuará ligado ao instituto, mas deixará de ser sócio e, conforme sua assessoria, não exercerá funções de gestão.

Sua participação ficará restrita à atividade acadêmica.

O ministro continuará como professor.

Essa distinção é central para a decisão anunciada nesta quinta-feira: Mendonça deixará de possuir participação societária na instituição, mas não abandonará completamente sua relação acadêmica com o projeto.

O encontro com Daniel Vorcaro aumentou a pressão

A saída do ministro também ocorre em um momento particularmente delicado por causa da repercussão de seu encontro com Daniel Vorcaro.

Vorcaro, ex-dono do Banco Master, é personagem central das investigações envolvendo a instituição financeira e mantém registros de contatos com diversas autoridades.

Em 14 de março de 2025, Vorcaro esteve na sede do Instituto Iter, em São Paulo, onde se encontrou com Mendonça.

O encontro não constava da agenda oficial do ministro.

Mendonça confirmou posteriormente que recebeu o empresário.

Segundo a explicação apresentada pelo ministro, a reunião durou aproximadamente 20 a 30 minutos e teve como pauta uma questão judicial envolvendo precatórios, relacionada à Suspensão de Tutela Provisória 976 e a créditos de interesse do empresário.

Áudios colocaram em dúvida a versão sobre o encontro

O encontro ganhou nova dimensão depois que áudios e mensagens encontrados no celular de Vorcaro foram divulgados.

Os registros analisados pela Polícia Federal sugerem que o empresário buscava tratar de assuntos relacionados ao Banco Master.

Segundo as informações divulgadas, mensagens atribuídas ao advogado Ciro Rocha Soares, que teria intermediado o encontro, indicam que Mendonça já tinha conhecimento de questões envolvendo o banco.

O ministro, entretanto, afirmou que sua participação se limitou a ouvir os relatos apresentados e que a reunião tinha relação com o processo judicial envolvendo precatórios.

Mendonça também declarou que votou posteriormente contra interesses de Vorcaro em questões relacionadas ao processo.

Cezinha de Madureira e Ciro Rocha Soares

A reunião entre Mendonça e Vorcaro teria sido intermediada pelo deputado federal Cezinha de Madureira (PSD-SP) e pelo advogado Ciro Rocha Soares.

Os dois aparecem nas informações relacionadas à aproximação do empresário com o ministro.

O encontro ocorreu nas instalações do Instituto Iter, o que acrescentou um componente de interesse à atual discussão sobre a instituição.

Isso porque, além de ser o local utilizado para a reunião, o Iter era uma organização da qual Mendonça continuava sendo sócio.

A situação passou, portanto, a envolver simultaneamente duas questões distintas: a atuação do ministro em relação ao empresário e sua participação societária em uma instituição privada que mantinha contratos com órgãos públicos.

Não há, até o momento, uma conclusão judicial de que a reunião ou os contratos tenham sido ilegais.

O papel de Victor Godoy

A saída de Mendonça foi formalizada após uma conversa com Victor Godoy Veiga, presidente do Instituto Iter.

Segundo a nota divulgada pela assessoria do ministro, a decisão foi tomada em 2 de setembro.

Mendonça teria orientado Godoy a adotar as providências necessárias para formalizar sua saída e a de sua esposa do quadro societário.

Victor Godoy é também responsável pela administração da instituição e passou a ser uma das principais vozes na defesa da legalidade dos contratos firmados pelo Iter com o poder público.

Ele sustenta que os procedimentos foram realizados de acordo com as normas de contratação pública e com mecanismos de governança e conformidade.

O contrato com o Tribunal de Justiça do Amazonas

Entre os contratos que chamaram atenção está o firmado com o Tribunal de Justiça do Amazonas, no valor de aproximadamente R$ 1,6 milhão.

A instituição também fechou contratos com outros órgãos públicos, incluindo governos estaduais e prefeituras.

O argumento do Iter é que os serviços oferecidos são especializados e possuem características próprias, permitindo, conforme a legislação, contratação por inexigibilidade quando não houver possibilidade de competição adequada.

A existência de contratação direta, portanto, não significa automaticamente irregularidade.

O ponto que gerou questionamentos foi a combinação entre o volume dos contratos e a participação societária de um ministro do Supremo em uma empresa que presta serviços de capacitação ao setor público.

Governo de São Paulo e Prefeitura de São Paulo

Entre os contratantes também estão órgãos ligados ao governo paulista e à Prefeitura de São Paulo.

O governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos) e a administração do prefeito Ricardo Nunes (MDB) aparecem entre as estruturas públicas que contrataram serviços do Instituto Iter.

As contratações passaram a ser exploradas politicamente por críticos de Mendonça, que questionam a existência de possíveis conflitos de interesse.

Até o momento, contudo, questionamentos políticos não equivalem a uma conclusão de irregularidade.

Os contratos continuam sujeitos às regras administrativas e aos mecanismos de controle previstos na legislação.

A autorização do MEC para curso de pós-graduação

Outro episódio que entrou no debate ocorreu quando o Ministério da Educação (MEC) autorizou o Instituto Iter a oferecer curso de pós-graduação lato sensu.

A autorização foi considerada incomum por pessoas ligadas ao setor educacional em razão da rapidez do processo.

A Folha já havia revelado anteriormente que o MEC autorizou o instituto a oferecer especialização.

A decisão passou a ser questionada porque o Iter tinha entre seus fundadores um ministro do STF.

Não há, porém, indicação de que a autorização tenha sido ilegal.

O episódio apenas acrescentou mais um elemento ao debate sobre a proximidade entre o instituto e instituições públicas.

A crise institucional do STF amplia o peso político da decisão

A saída de Mendonça acontece ainda em um momento de forte tensão dentro do Supremo.

O relatório produzido pela Polícia Federal a partir do celular de Daniel Vorcaro revelou mensagens enviadas pelo empresário a um contato identificado como “Alexandre de Moraes BRASILIA”, associado ao ministro Alexandre de Moraes.

O conteúdo provocou uma crise institucional na Corte e colocou Mendonça no centro do processo porque foi ele quem determinou providências relacionadas à investigação.

A situação gerou um confronto político e institucional entre diferentes setores do STF e da Polícia Federal.

Nesse cenário, a decisão de Mendonça de abandonar a sociedade do Iter ocorre justamente quando seu próprio encontro com Vorcaro voltou a ser discutido publicamente.

Mendonça tenta eliminar o vínculo financeiro

A decisão possui uma consequência prática importante.

Ao transferir suas cotas e as de sua esposa, Mendonça elimina sua participação financeira direta na instituição.

O instituto passará a ter uma estrutura sem fins lucrativos, e o ministro permanecerá apenas como professor.

Dessa maneira, a partir da formalização da mudança, a relação entre Mendonça e o Iter deixa de ser societária e passa a ser exclusivamente acadêmica.

A medida também procura afastar a possibilidade de novos questionamentos sobre eventual benefício financeiro do magistrado decorrente de contratos celebrados pelo instituto.

A defesa de Mendonça

A posição do ministro é que nunca recebeu lucros do Iter e que sua decisão de sair da sociedade não decorre do reconhecimento de qualquer irregularidade.

A assessoria apresenta a mudança como uma decisão destinada a reforçar a vocação social e educacional da instituição.

O ministro continuará participando academicamente, mas não terá mais participação societária.

O Iter, por sua vez, sustenta que não houve distribuição de lucros ou dividendos durante o período em que funcionou como empresa.

O que ainda precisa ser esclarecido

Apesar da saída de Mendonça, permanecem questões que deverão continuar sendo examinadas.

Entre elas estão a extensão e os critérios dos contratos firmados pelo Instituto Iter com órgãos públicos, a utilização da inexigibilidade de licitação em cada contratação e a relação entre a atuação acadêmica de Mendonça e a estrutura empresarial da instituição.

Também permanece no centro das atenções o encontro entre Mendonça e Vorcaro.

A principal questão é determinar exatamente qual foi a pauta da reunião realizada no Instituto Iter e se houve qualquer consequência prática decorrente dela.

Até agora, não há uma conclusão judicial estabelecendo que Mendonça tenha cometido irregularidade por causa do instituto ou do encontro com Vorcaro.

O que existem são questionamentos, documentos, contratos, registros de reunião e versões diferentes sobre determinados aspectos do encontro.

Conclusão

A decisão de André Mendonça de deixar a sociedade do Instituto Iter representa uma mudança importante na relação entre o ministro do STF e a instituição que ele próprio ajudou a criar.

Mendonça afirma que não recebeu lucro do instituto e que está transferindo suas cotas e as de sua esposa sem qualquer contrapartida financeira. O Iter será transformado em uma entidade sem fins lucrativos, enquanto o ministro permanecerá somente como professor.

A decisão, entretanto, ocorre em um momento politicamente sensível.

De um lado, existem os milhões de reais em contratos firmados pelo Iter com órgãos públicos, incluindo governos, prefeituras e tribunais. De outro, está a repercussão do encontro de Mendonça com Daniel Vorcaro, realizado justamente na sede do instituto e fora da agenda oficial.

A instituição afirma que suas contratações obedeceram à legislação e que não houve distribuição de lucros. Mendonça, por sua vez, nega ter auferido ganhos financeiros e decidiu eliminar seu vínculo societário.

A saída do ministro não encerra os questionamentos, mas modifica significativamente o cenário: Mendonça deixa de ser sócio, abre mão das cotas sem receber pagamento e mantém apenas uma relação acadêmica com o Instituto Iter.

Agora, o que permanecerá sob análise são os contratos já firmados, a regularidade de cada contratação e, sobretudo, os elementos que ainda possam esclarecer o encontro entre Mendonça e Vorcaro.

Em meio à crise que envolve o Supremo, a Polícia Federal, o Banco Master e diferentes autoridades públicas, a decisão de Mendonça pode ser interpretada como uma tentativa de eliminar qualquer vínculo financeiro que possa alimentar novos questionamentos sobre sua atuação como ministro do STF — sem que isso, por si só, represente reconhecimento de irregularidade.

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