Perícia da PF identifica mensagens de Vorcaro para contato atribuído a Alexandre de Moraes e contraria versão apresentada pelo ministro

Perícia da PF identifica mensagens de Vorcaro para contato atribuído a Alexandre de Moraes e contraria versão apresentada pelo ministro

Relatório da Polícia Federal encontrou registros de mensagens enviadas pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro a um número salvo como “Alexandre de Moraes BRASILIA”; perícia, porém, não recuperou as respostas atribuídas ao ministro

A perícia realizada pela Polícia Federal (PF) no celular de Daniel Bueno Vorcaro, ex-dono do Banco Master, identificou registros de mensagens enviadas pelo banqueiro a um número de telefone associado, nos arquivos analisados, ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.

O achado técnico aparece em relatório elaborado pela PF no âmbito das investigações relacionadas ao Banco Master e ganhou relevância porque diverge da versão apresentada anteriormente em uma manifestação oficial atribuída ao ministro, segundo a qual não teria havido o tipo de comunicação descrito posteriormente pelos investigadores.

O material periciado encontrou um contato salvo no aparelho de Vorcaro como “Alexandre de Moraes BRASILIA”, além de registros de mensagens direcionadas ao número. A PF também identificou que o telefone teria sido compartilhado com Vorcaro em dezembro de 2023 e posteriormente armazenado na agenda do banqueiro.

O que a perícia encontrou

O relatório policial analisou informações extraídas do aparelho de Vorcaro e identificou diferentes formas utilizadas pelo banqueiro para se comunicar com o contato atribuído a Moraes.

Em parte dos registros, Vorcaro teria utilizado capturas de tela de textos preparados no aplicativo de notas do celular, posteriormente encaminhadas pelo WhatsApp por meio do recurso de visualização única.

Esse método dificultava a recuperação posterior das conversas. Apesar disso, os investigadores conseguiram encontrar vestígios das comunicações durante a perícia digital.

A PF também recuperou mensagens diretamente no WhatsApp. Em um conjunto de mensagens de novembro de 2025, por exemplo, aparecem textos enviados por Vorcaro ao contato atribuído a Moraes. Entre eles está uma pergunta sobre possíveis novidades e sobre a possibilidade de alguma medida ter sido bloqueada.

A divergência em relação à versão oficial

É justamente a existência desses registros que está no centro da controvérsia.

A perícia da PF aponta para a existência de mensagens enviadas por Vorcaro a um número identificado no aparelho como pertencente a Alexandre de Moraes.

O dado técnico, segundo as reportagens que tiveram acesso ao relatório, entra em contradição com a versão anteriormente apresentada publicamente sobre a inexistência daquele tipo de comunicação.

A divergência, contudo, precisa ser tratada com precisão.

A perícia comprova a existência dos registros no aparelho de Vorcaro e a identificação do destinatário como um contato atribuído a Moraes. Isso não significa, isoladamente, que todas as mensagens tenham sido efetivamente lidas ou respondidas pelo ministro, nem comprova que Moraes tenha praticado qualquer irregularidade.

Essa distinção é fundamental para compreender o alcance do material.

As respostas de Moraes não foram recuperadas

Um dos principais limites apontados pela própria documentação é que as respostas de Alexandre de Moraes não aparecem no material periciado pela PF.

Os investigadores conseguiram recuperar mensagens enviadas por Vorcaro, mas não encontraram, no conjunto analisado, o conteúdo correspondente às eventuais respostas do interlocutor.

A CNN Brasil também destacou esse ponto: o relatório apresenta as mensagens enviadas pelo ex-banqueiro, mas não registra respostas de Moraes.

Isso significa que o conteúdo disponível permite reconstruir o que Vorcaro dizia ou pedia, mas não permite, a partir desses registros isoladamente, saber exatamente qual teria sido a reação de Moraes.

Vorcaro pedia ajuda diante do avanço das investigações

O conteúdo recuperado pela PF chama atenção principalmente porque algumas mensagens foram enviadas quando o Banco Master já estava sob forte pressão das investigações.

Segundo o relatório divulgado, Vorcaro teria procurado o contato atribuído a Moraes para tratar de assuntos relacionados à situação do banco e ao avanço das medidas de investigação.

Em uma das mensagens, o banqueiro teria questionado se deveria deixar o país diante da possibilidade de ser preso.

Em outra comunicação, aparecem referências a Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, e Paulo Gonet, procurador-geral da República.

Segundo a interpretação apresentada pelos investigadores, Vorcaro estaria tentando obter, por intermédio de Moraes, algum tipo de atuação junto a autoridades responsáveis pelas investigações. Essa interpretação, entretanto, ainda é objeto de apuração e não equivale a uma conclusão judicial sobre eventual atuação de Moraes.

A pergunta que aumentou a pressão sobre o STF

Entre os trechos mais repercutidos está uma mensagem enviada por Vorcaro pouco antes de sua prisão.

O banqueiro teria perguntado ao contato atribuído a Moraes:

“Acha que 2ª já tenho que estar fora?”

A mensagem teria sido enviada dois dias antes de sua prisão.

O conteúdo chamou a atenção dos investigadores porque sugere que Vorcaro buscava orientação ou avaliação sobre a possibilidade de deixar o país diante do avanço das investigações.

Mas, novamente, há uma questão essencial: o relatório recuperou a mensagem enviada por Vorcaro, não uma eventual resposta de Moraes.

Portanto, o documento não permite concluir, somente a partir desse trecho, se o ministro respondeu, o que teria respondido ou se tomou qualquer providência em consequência da mensagem.

O método usado por Vorcaro para esconder os registros

A maneira como as mensagens eram enviadas também se tornou parte importante da investigação.

Segundo a perícia, Vorcaro recorria a textos preparados em aplicativos de notas e fazia capturas de tela. Essas imagens eram então enviadas pelo WhatsApp utilizando o recurso de visualização única.

O procedimento dificultava a permanência dos registros na conversa tradicional do aplicativo.

Ainda assim, o aparelho apreendido pela PF continha rastros suficientes para que os investigadores reconstruíssem parte da comunicação.

A descoberta mostra a importância da perícia digital na investigação, já que parte do conteúdo não estava disponível de maneira convencional no histórico do WhatsApp.

O número atribuído a Moraes

Outro elemento destacado pela investigação é a identificação do número.

A PF encontrou no aparelho de Vorcaro o contato salvo como “Alexandre de Moraes BRASILIA”. Segundo o relatório, o número teria sido compartilhado com o banqueiro em dezembro de 2023 e posteriormente salvo em sua agenda.

O relatório também reúne referências a encontros entre Vorcaro e Moraes ao longo de 2024 e 2025.

Esses elementos foram analisados conjuntamente pelos investigadores para estabelecer a relação entre o número e o ministro.

O caso envolve também negócios milionários

As mensagens não são o único elemento que colocou a relação entre Vorcaro e Moraes sob escrutínio.

A PF também analisou um contrato envolvendo o Banco Master e o escritório de advocacia Barci de Moraes, ligado à advogada Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro.

Segundo informações divulgadas a partir da investigação, o contrato alcançou aproximadamente R$ 131 milhões.

A perícia identificou ainda que um perfil denominado “Ministro Alexandre de Moraes” apareceu como último editor de versões da minuta contratual.

O escritório afirmou que Moraes foi consultado para verificar eventuais impedimentos jurídicos relacionados ao contrato. A existência do contrato e a participação profissional do escritório, por si só, não comprovam irregularidade.

Viagens, aeronaves e outros benefícios também aparecem na investigação

O relatório analisado pela PF também reuniu informações sobre vantagens e serviços que teriam sido oferecidos por Vorcaro a Moraes e pessoas próximas.

Entre os elementos mencionados estão negociações envolvendo jato e helicóptero, além de apoio logístico e outros benefícios.

A PF, entretanto, não concluiu que todas as ofertas tenham sido aceitas ou que necessariamente tenham se transformado em benefícios efetivamente recebidos pelo ministro.

Essa diferença entre oferta, negociação, utilização e efetivo recebimento é central para a análise jurídica do caso.

Mendonça determina aprofundamento das apurações

O material veio à tona depois que o ministro André Mendonça, relator do caso no STF, determinou providências para esclarecer as referências encontradas nos aparelhos de Vorcaro.

Mendonça também solicitou informações à Procuradoria-Geral da República sobre mensagens nas quais Vorcaro mencionaria a necessidade de obter proteção de “Paulo” e “Andrei”, nomes que os investigadores associaram a Paulo Gonet e Andrei Rodrigues.

A medida ampliou a tensão dentro do Supremo e colocou em lados diferentes ministros que antes atuavam conjuntamente em outras frentes.

Uma crise que ultrapassa Moraes e Vorcaro

A divulgação do relatório transformou o caso Banco Master em uma crise institucional de grandes proporções.

A investigação passou a envolver não apenas a relação entre Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes, mas também a atuação de integrantes da Polícia Federal, da Procuradoria-Geral da República e do próprio Supremo Tribunal Federal.

O presidente da Corte, Edson Fachin, afirmou que pretende adotar as medidas necessárias para preservar a integridade institucional do tribunal em meio à tensão.

A situação também colocou André Mendonça no centro do conflito, justamente por ter determinado a análise e a divulgação de informações que atingem diretamente outro integrante da Corte.

O que o relatório prova — e o que ainda não prova

A repercussão política do caso não elimina a necessidade de separar os fatos comprovados tecnicamente das hipóteses ainda investigadas.

Até o momento, os dados divulgados permitem afirmar que:

  • a PF encontrou no celular de Vorcaro um contato identificado como “Alexandre de Moraes BRASILIA”;
  • foram recuperados registros de mensagens enviadas por Vorcaro a esse contato;
  • parte dessas mensagens foi preservada por meio de capturas de tela e outros vestígios digitais;
  • a perícia identificou o número associado ao contato;
  • existem mensagens nas quais Vorcaro pede ou sugere providências relacionadas às investigações;
  • as respostas atribuídas a Moraes não aparecem no material recuperado.

Por outro lado, os registros divulgados não permitem afirmar, isoladamente, que Moraes tenha atendido aos pedidos de Vorcaro, interferido em investigações, recebido benefícios indevidos ou cometido qualquer crime.

Essas são questões que dependem de outras provas, da análise integral dos aparelhos e das manifestações dos envolvidos.

Conclusão

A descoberta da Polícia Federal coloca uma nova peça no centro da crise que envolve o Banco Master.

O ponto mais sensível é a divergência entre a versão anteriormente apresentada sobre a inexistência desse tipo de comunicação e a constatação pericial de que havia, no celular de Daniel Vorcaro, registros de mensagens enviadas a um contato identificado como Alexandre de Moraes.

O achado aumenta a pressão por esclarecimentos porque não se trata apenas de uma declaração de Vorcaro ou de uma acusação política: há registros digitais encontrados durante uma perícia oficial da Polícia Federal.

Ao mesmo tempo, a investigação ainda possui limites importantes. O material recuperado mostra as mensagens enviadas pelo banqueiro, mas não as respostas de Moraes. Assim, permanece em aberto o que o ministro teria respondido, se respondeu, e se alguma providência foi efetivamente tomada em favor de Vorcaro.

É justamente essa lacuna que deverá determinar os próximos capítulos da investigação.

O relatório da PF, portanto, não encerra a questão — ele a torna mais grave e exige respostas. A existência das mensagens precisa agora ser confrontada com outros elementos de prova, registros de encontros, documentos, contratos e eventuais comunicações complementares.

Enquanto isso, o caso deixa de ser apenas uma investigação sobre os negócios do Banco Master e passa a representar uma das mais delicadas crises de credibilidade já enfrentadas pelo Supremo Tribunal Federal, envolvendo diretamente Alexandre de Moraes, André Mendonça, Daniel Vorcaro, a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República.

A questão central já não é apenas se Vorcaro procurou Moraes. A perícia indica que procurou. O que ainda precisa ser esclarecido é o que aconteceu depois dessas mensagens.

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