
Andrei Passos, diretor-geral da Polícia Federal, é mencionado em conversas de Daniel Vorcaro
Relatório da PF aponta que nome de Andrei Augusto Passos Rodrigues apareceu em tratativas do ex-banqueiro Daniel Vorcaro; mensagens também citam Paulo Gonet e indicam tentativa de acionar autoridades antes da prisão do empresário
O nome do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Augusto Passos Rodrigues, aparece no relatório produzido pela própria corporação a partir da análise dos celulares do ex-controlador do Banco Master, Daniel Bueno Vorcaro. A referência integra um conjunto de mensagens e documentos que ampliou a crise em torno das relações mantidas pelo banqueiro com autoridades e pessoas próximas ao poder em Brasília.
O documento, elaborado no contexto das investigações do caso Banco Master e posteriormente tornado público por decisão do ministro André Luiz de Almeida Mendonça, reúne 218 páginas e descreve contatos, encontros e tentativas de aproximação de Vorcaro com integrantes do Judiciário, Ministério Público, Polícia Federal e mundo político.
A menção a Andrei Rodrigues não significa, por si só, que o diretor-geral da PF tenha cometido qualquer irregularidade ou que tenha mantido uma relação pessoal ou institucional indevida com Vorcaro.
O ponto que chamou a atenção dos investigadores é outro: o nome do chefe da Polícia Federal aparece dentro de uma rede de contatos que Daniel Vorcaro aparentemente tentava acionar para administrar a pressão das investigações sobre seus negócios.
Quem é Andrei Augusto Passos Rodrigues
Andrei Augusto Passos Rodrigues é o diretor-geral da Polícia Federal e ocupa o principal posto da estrutura administrativa da corporação.
Sua presença no relatório ganha importância justamente pela função que exerce. A Polícia Federal foi responsável por operações que atingiram Daniel Vorcaro e o Banco Master e que colocaram o empresário sob investigação.
Assim, a referência ao diretor-geral não pode ser analisada simplesmente como mais um nome em uma agenda de contatos.
É necessário compreender em que contexto o nome de Andrei Rodrigues foi mencionado, quem pretendia procurá-lo, qual seria o objetivo dessa aproximação e se houve ou não qualquer contato efetivo entre as partes.
Até o momento, o relatório divulgado não estabelece que Andrei Rodrigues tenha recebido benefício, favorecido Vorcaro ou interferido ilegalmente em qualquer investigação.
O nome de Andrei aparece em conversa com Fábio Faria
Segundo o relatório da Polícia Federal, o contato de Andrei Rodrigues não foi encontrado diretamente na lista de contatos de Daniel Vorcaro.
O nome do diretor-geral da PF apareceu em uma conversa envolvendo o ex-banqueiro e o ex-deputado federal Fábio Faria.
A conversa ocorreu em abril de 2024 e tratava da possibilidade de convidar Andrei Rodrigues para um evento organizado no exterior e financiado pelo Banco Master.
O material também faz referência ao ex-deputado Fábio Faria, que exerceu o cargo de ministro das Comunicações durante o governo de Jair Messias Bolsonaro.
Em uma das mensagens reproduzidas no relatório, aparece a sugestão de convidar o diretor-geral da Polícia Federal para o evento.
Outra mensagem menciona a possibilidade de reunir nomes como o diretor da PF e o procurador-geral da República, Paulo Gustavo Gonet Branco.
A expressão registrada no material — segundo as reportagens que tiveram acesso ao documento — indica que o objetivo seria reunir figuras de enorme peso institucional em uma viagem ou evento bancado pelo grupo de Vorcaro.
O evento de luxo em Londres
A referência está relacionada a um evento realizado em Londres que, segundo a investigação, contou com despesas pagas pelo Banco Master.
O relatório descreve uma programação de alto padrão, com participação ou tentativa de participação de empresários, autoridades e pessoas influentes.
É nesse contexto que aparece a sugestão de convidar Andrei Rodrigues.
A investigação passou a observar o episódio não apenas como uma viagem ou evento social, mas como parte da tentativa de Daniel Vorcaro de construir e manter uma ampla rede de relacionamento com autoridades.
Isso não significa que todos os convidados tenham cometido qualquer irregularidade.
Uma autoridade ser convidada para um evento não é, isoladamente, prova de favorecimento.
A questão investigativa é saber qual era a finalidade da aproximação e se houve alguma contrapartida ou tentativa de influência institucional.
“Andrei e Paulo”
Outro ponto citado nas reportagens sobre o relatório é uma referência feita por Vorcaro à necessidade de atuação de “Andrei e Paulo”.
Segundo os investigadores, os nomes seriam uma referência a Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, e Paulo Gonet, procurador-geral da República.
A frase ganhou importância porque aparece dentro de um contexto no qual Vorcaro demonstrava preocupação com o avanço das investigações contra o Banco Master.
O banqueiro procurava interlocutores que pudessem, segundo a interpretação da PF, ajudá-lo a administrar a crescente pressão das autoridades.
Mas novamente existe uma diferença fundamental entre Vorcaro dizer que precisava da atuação de determinadas pessoas e essas pessoas efetivamente atuarem em favor dele.
O primeiro fato pode ser demonstrado pela mensagem.
O segundo exige provas adicionais.
Vorcaro tentou acionar autoridades antes da prisão
O relatório também apresenta outros episódios nos quais Vorcaro teria procurado intermediários para chegar a autoridades.
Dias antes de sua prisão, o banqueiro teria pedido que interlocutores procurassem Andrei Rodrigues e Paulo Gonet.
A preocupação de Vorcaro estava relacionada à atuação de agentes da Polícia Federal e ao risco de que, segundo suas próprias palavras, alguém pudesse fazer alguma “sacanagem” contra ele.
A sequência dos acontecimentos tornou essas mensagens especialmente relevantes.
Em novembro de 2025, Vorcaro chegou a perguntar a um contato atribuído a Alexandre de Moraes se deveria deixar o Brasil.
Pouco depois, foi preso pela Polícia Federal quando se preparava para viajar em um jato particular.
A coincidência temporal entre as mensagens e a prisão passou a ser um dos pontos centrais da investigação.
Mas, novamente, a mensagem de Vorcaro não permite concluir automaticamente que alguém tenha antecipado a prisão ou fornecido informações privilegiadas.
A Polícia Federal no centro da própria investigação
A presença do nome de Andrei Rodrigues cria uma situação institucional particularmente delicada.
A Polícia Federal é a instituição responsável por investigar parte dos fatos relacionados ao Banco Master.
Ao mesmo tempo, seu diretor-geral aparece citado em mensagens encontradas no celular de um dos principais investigados.
Isso não significa que a investigação esteja comprometida.
Mas cria uma necessidade adicional de transparência.
Quanto mais próximo o nome de uma autoridade estiver dos fatos investigados, mais importante se torna demonstrar que os procedimentos seguem critérios técnicos e independentes.
É justamente essa questão que torna o episódio politicamente sensível.
A PF não afirma que Andrei cometeu crime
O relatório da Polícia Federal não equivale a uma acusação criminal contra Andrei Rodrigues.
O documento reúne informações encontradas nos aparelhos de Daniel Vorcaro e apresenta interpretações investigativas sobre sua rede de contatos.
A simples menção ao nome de uma autoridade não comprova participação em qualquer irregularidade.
Esse cuidado é particularmente importante porque o material envolve dezenas de pessoas que tiveram diferentes níveis de contato com Vorcaro.
Alguns aparecem como interlocutores diretos.
Outros são citados por terceiros.
Há ainda pessoas que simplesmente foram consideradas para convites ou contatos.
Misturar todas essas situações como se fossem equivalentes produziria uma conclusão que o próprio material não sustenta.
O papel de Paulo Gonet
O procurador-geral da República, Paulo Gustavo Gonet Branco, também aparece no relatório.
O nome de Gonet surge em conversas relacionadas às tentativas de Vorcaro de manter acesso a autoridades capazes de influenciar ou esclarecer os rumos das investigações.
O relatório também cita o filho do procurador-geral, Pedro Gonet, em relação a um evento em Londres que teria recebido financiamento do Banco Master.
A Procuradoria-Geral da República, entretanto, reagiu ao relatório de maneira contundente.
Gonet pediu a nulidade do documento, questionando a forma como a investigação foi conduzida e a competência para apurar determinados fatos envolvendo ministros do Supremo Tribunal Federal.
A questão deverá ser submetida ao STF.
André Mendonça leva a crise ao plenário
O ministro André Luiz de Almeida Mendonça, responsável pela análise do material no Supremo, decidiu retirar o sigilo de documentos relacionados ao caso e defendeu que os elementos sejam examinados pelo plenário.
Mendonça deu prazo de cinco dias para que a Procuradoria-Geral da República se manifeste sobre o relatório.
A decisão colocou o presidente do STF, Edson Fachin, diante de uma situação excepcional.
De um lado, há a necessidade de preservar a integridade institucional da Corte.
De outro, existem documentos produzidos pela Polícia Federal contendo referências a ministros do Supremo, ao procurador-geral da República e ao próprio diretor-geral da PF.
Fachin afirmou que o tribunal adotará as medidas cabíveis e defendeu serenidade, responsabilidade e firmeza diante da crise.
Alexandre de Moraes também aparece no material
O nome mais sensível do relatório continua sendo o ministro Alexandre de Moraes.
As mensagens recuperadas do celular de Vorcaro apontam para contatos entre o banqueiro e o ministro, além de encontros e tentativas de tratar de assuntos relacionados ao Banco Master.
Uma das mensagens mais controversas mostra Vorcaro perguntando se deveria deixar o país antes de uma possível prisão.
A PF também identificou outras referências à família do ministro, incluindo benefícios oferecidos aos filhos de Moraes e relações profissionais envolvendo o escritório de sua esposa, Viviane Barci de Moraes.
Moraes, entretanto, não aparece no relatório como alguém formalmente acusado de crime.
Além disso, em parte das comunicações, os investigadores conseguiram recuperar mensagens enviadas por Vorcaro, mas não as respostas do interlocutor.
Essa limitação impede que as mensagens de Vorcaro sejam interpretadas isoladamente como prova de qualquer conduta do ministro.
O método usado para esconder as mensagens
Outro detalhe relevante da investigação é a maneira como Daniel Vorcaro utilizava seus aparelhos.
Segundo informações extraídas pela PF, o banqueiro escrevia mensagens no aplicativo de notas do celular, fazia capturas de tela e enviava as imagens pelo WhatsApp utilizando a função de visualização única.
A estratégia dificultava a recuperação das conversas.
Mesmo assim, os investigadores conseguiram localizar vestígios digitais suficientes para reconstruir parte das comunicações.
O procedimento tecnológico permitiu à Polícia Federal acessar informações que poderiam não aparecer em uma análise convencional do aplicativo.
A contradição institucional
O caso apresenta uma contradição que merece atenção.
De um lado, a Polícia Federal afirma que encontrou elementos relevantes sobre uma possível rede de influência construída por Daniel Vorcaro.
De outro, o nome do próprio diretor-geral da corporação aparece dentro desse material.
Isso não significa que Andrei Rodrigues tenha participado dessa suposta rede.
Mas significa que a própria instituição precisa ter interesse máximo em esclarecer a natureza da referência.
Quanto mais transparente for a explicação, menor será o espaço para interpretações políticas.
E quanto menos informação houver, maior será a possibilidade de que a disputa política substitua a investigação.
O desafio para Andrei Rodrigues
Para o diretor-geral da Polícia Federal, o episódio representa uma situação particularmente desconfortável.
A corporação que ele dirige está investigando Daniel Vorcaro.
O relatório elaborado pela PF menciona seu nome.
E o conteúdo das mensagens está sendo utilizado para discutir justamente a possível existência de uma rede de influência envolvendo autoridades.
A questão central, portanto, não é apenas saber se Vorcaro mencionou Andrei.
Isso já está documentado.
A pergunta é o que aconteceu depois da menção.
Houve contato?
Houve convite?
Houve reunião?
Houve alguma solicitação?
Houve alguma providência da PF?
Houve qualquer tentativa de interferência?
Essas são perguntas que somente documentos, registros oficiais, testemunhos e demais elementos da investigação poderão responder.
A crítica
A crítica que se impõe neste momento é institucional, e não partidária.
Uma democracia não pode funcionar com a lógica de que autoridades são intocáveis quando seus nomes aparecem em documentos de uma investigação.
Mas também não pode funcionar com a lógica oposta, segundo a qual qualquer pessoa mencionada em uma conversa passa automaticamente à condição de suspeita.
É necessário investigar.
É necessário confrontar versões.
É necessário preservar o direito de defesa.
E, sobretudo, é necessário garantir que a Polícia Federal possa investigar fatos envolvendo pessoas poderosas sem sofrer interferência política.
O caso de Andrei Rodrigues mostra exatamente por que essa independência é tão importante.
Um relatório que ampliou a crise
O relatório da Polícia Federal abriu uma nova frente na crise do Banco Master.
Antes, o foco estava principalmente na relação entre Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes.
Agora, o documento coloca no mesmo cenário nomes como Andrei Augusto Passos Rodrigues, Paulo Gustavo Gonet Branco, Fábio Faria, André Mendonça, Edson Fachin, Alexandre de Moraes e Daniel Bueno Vorcaro.
Cada um aparece em circunstâncias diferentes e com níveis de envolvimento completamente distintos.
Por isso, a responsabilidade jornalística exige não transformar uma lista de nomes em uma lista de culpados.
O que existe neste momento é uma investigação, documentos policiais, mensagens recuperadas e uma série de relações que precisam ser esclarecidas.
A questão que permanece
Daniel Vorcaro procurava acesso.
Essa característica aparece de maneira recorrente no material analisado pela Polícia Federal.
O banqueiro procurava ministros, procuradores, dirigentes policiais, políticos e empresários.
A dúvida agora é saber se essa rede era apenas uma extensa rede de relacionamento típica de um empresário poderoso ou se, em algum momento, transformou-se em mecanismo de influência sobre decisões de Estado.
No caso específico de Andrei Rodrigues, ainda não há base para afirmar que o diretor-geral da PF tenha atendido a qualquer pedido de Vorcaro ou interferido em favor do banqueiro.
Mas o fato de seu nome ter aparecido em conversas relacionadas à tentativa de aproximação com autoridades torna o episódio relevante o suficiente para exigir esclarecimentos.
E esse é o ponto central da crise: a força das instituições não será medida pela capacidade de esconder seus problemas, mas pela capacidade de investigá-los quando os próprios nomes mais poderosos aparecem no caminho.
Agora, cabe ao Supremo, à Procuradoria-Geral da República e à Polícia Federal separar o que foi apenas relacionamento, o que foi tentativa de acesso e, caso existam provas, o que eventualmente ultrapassou os limites da legalidade.
Até lá, uma mensagem de Daniel Vorcaro continua sendo uma mensagem de Daniel Vorcaro — não uma sentença contra quem foi mencionado nela.