Imóveis, jato e helicóptero: contratos de Vorcaro com escritório da esposa de Moraes ampliam controvérsia

Imóveis, jato e helicóptero: contratos de Vorcaro com escritório da esposa de Moraes ampliam controvérsia

Documentos citados em investigações mostram contrato de até R$ 50 milhões que permitia pagamento com imóveis e bens; aeronaves de luxo também aparecem nas negociações e em registros de voos de Alexandre de Moraes e Viviane Barci

Novos documentos analisados pela Polícia Federal ampliaram a dimensão dos negócios entre empresas ligadas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, antigo controlador do Banco Master, e o escritório Barci de Moraes, da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.

Um dos contratos, assinado em 12 de maio de 2025 entre o escritório e a Viking Participações, empresa responsável pelo patrimônio de Vorcaro, estabelecia remuneração de até R$ 50 milhões durante 36 meses. O documento previa que os honorários poderiam ser pagos não apenas por transferência bancária, mas também por meio de dação em pagamento de imóveis, bens móveis ou serviços.

A previsão significa que, dentro das condições estabelecidas no contrato, propriedades pertencentes à empresa de Vorcaro poderiam ser utilizadas para quitar valores devidos ao escritório. Os pagamentos poderiam ocorrer mensal, trimestral ou semestralmente, conforme as demandas apresentadas pela contratante.

O contrato das aeronaves

A investigação encontrou ainda uma minuta relacionada a um segundo acordo de R$ 50 milhões entre a Viking Participações e o escritório de Viviane Barci.

Nesse documento, R$ 40 milhões seriam pagos por meio de cotas de empresas proprietárias de duas aeronaves: um Embraer Legacy 650, prefixo PP-NLR, e um Airbus EC 155 B1, helicóptero executivo. Os outros R$ 10 milhões corresponderiam ao reembolso de despesas relacionadas a voos.

As aeronaves estavam vinculadas a estruturas de compartilhamento de bens de luxo da Prime You, empresa que teve Vorcaro entre seus sócios. Nesse modelo, o proprietário não necessariamente detém sozinho o avião ou helicóptero: investidores possuem cotas que dão direito à utilização dos bens.

Segundo a investigação, as cotas avaliadas em aproximadamente R$ 40 milhões seriam destinadas ao escritório como forma de pagamento pelos serviços jurídicos.

O escritório Barci de Moraes, entretanto, afirma que esse segundo contrato jamais foi assinado e que a proposta envolvendo as aeronaves não foi aceita. A banca sustenta que o único contrato efetivamente firmado posteriormente foi o acordo anterior com o Banco Master.

O Legacy 650

O jato negociado é um Legacy 650, fabricado pela Embraer. Segundo informações divulgadas pela Prime You e reproduzidas pela VEJA, a aeronave pode transportar até 13 passageiros e três tripulantes, alcançar aproximadamente 850 km/h e realizar voos de até 6.700 quilômetros.

A autonomia permitiria, por exemplo, um voo direto entre São Paulo e Miami.

A cota relacionada ao Legacy 650 teria sido avaliada em aproximadamente R$ 5,5 milhões, enquanto a participação referente ao helicóptero chegaria a cerca de R$ 1,3 milhão, conforme os materiais analisados na reportagem.

O helicóptero Airbus

O segundo bem era um Airbus Helicopters EC 155 B1, modelo de 2012, com capacidade para aproximadamente oito passageiros e dois tripulantes.

A aeronave pode atingir cerca de 290 km/h e tem autonomia aproximada de 745 quilômetros, sendo um modelo utilizado tanto na aviação executiva quanto em operações civis, médicas e de emergência.

“Os ativos são deles já”

Mensagens recuperadas pela Polícia Federal acrescentaram outro elemento à investigação.

Em maio de 2025, Daniel Vorcaro discutiu com um advogado quando as aeronaves previstas na negociação deveriam ser transferidas. Na conversa, ao ser questionado sobre o momento da transferência, Vorcaro respondeu que “os ativos são deles já”, em referência às aeronaves e ao escritório de Viviane Barci de Moraes.

Outro diálogo analisado pela PF mostra uma conversa envolvendo Marcos Mata, ex-sócio de Vorcaro na Prime Aviation, e Viviane Barci. Ao ser questionada sobre a utilização das aeronaves, Viviane teria respondido que ela e outras pessoas estavam gostando do uso e elogiado o atendimento recebido.

Esse material é tratado pela investigação como parte do conjunto de elementos que precisa ser analisado para determinar o que efetivamente ocorreu com as aeronaves e com a negociação contratual.

Os voos de Alexandre e Viviane

A controvérsia ganhou outra dimensão porque registros de aviação já haviam apontado que Alexandre de Moraes e Viviane Barci utilizaram aeronaves operadas por empresas ligadas a Vorcaro.

Dados da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) e do Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea) indicaram voos entre maio e outubro de 2025.

Entre os registros estão viagens em aeronaves da Prime Aviation, incluindo o PR-SAD, o PT-PVH e o PP-BIO, além de um voo em um Falcon 2000, registrado em nome de uma empresa que tinha entre seus sócios Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro.

Segundo os levantamentos publicados anteriormente, foram identificados ao menos oito deslocamentos envolvendo Alexandre de Moraes e Viviane Barci em aeronaves vinculadas a empresas de Vorcaro ou a pessoas de seu círculo empresarial.

Em julho de 2025, por exemplo, o nome do ministro apareceu em registros relacionados ao voo do PP-NLR, justamente o Legacy 650 que posteriormente surgiu na documentação da negociação com o escritório de sua esposa.

Moraes nega ter viajado em aeronaves de Vorcaro

Apesar dos registros apresentados nas reportagens, Alexandre de Moraes negou que tenha viajado em aviões de Daniel Vorcaro ou na companhia dele.

O ministro classificou as informações como falsas e afirmou que nunca viajou em aeronave de Vorcaro ou de Fabiano Zettel, a quem disse não conhecer.

O escritório de Viviane Barci, por sua vez, afirmou que contratava diferentes operadores de táxi aéreo, incluindo a Prime Aviation, e que Vorcaro e Zettel não estavam presentes nos voos. Também sustentou que os valores relacionados aos deslocamentos eram compensados dentro dos honorários previstos contratualmente.

A Prime Aviation declarou que não divulga dados de usuários das aeronaves por razões de confidencialidade e proteção de dados.

R$ 208 milhões em contratos

A documentação analisada pela imprensa e pela PF aponta ainda para uma relação contratual mais ampla.

Os contratos identificados entre o escritório Barci de Moraes e empresas ligadas a Daniel Vorcaro chegam a R$ 208 milhões: um contrato de aproximadamente R$ 108 milhões com o Banco Master e outros dois acordos de R$ 50 milhões cada com a Viking Participações.

O escritório confirmou a existência do contrato com o Banco Master, mas afirma que o acordo envolvendo as aeronaves não foi efetivamente firmado.

A Polícia Federal continua analisando mensagens, contratos, registros de voos e movimentações relacionadas ao grupo de Vorcaro. Até o momento, a existência desses contratos, das negociações e dos registros de aeronaves não constitui, por si só, prova de crime ou de favorecimento por parte de Alexandre de Moraes ou Viviane Barci de Moraes. O ponto central da apuração é determinar a natureza dos negócios, os serviços efetivamente prestados, os pagamentos realizados e a eventual relação desses negócios com as decisões ou atribuições públicas do ministro.

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