Ano eleitoral faz milagre: Lula descobre a ciência, a vacina e o Butantan

Ano eleitoral faz milagre: Lula descobre a ciência, a vacina e o Butantan

Presidente reaparece como defensor da pesquisa pública, promete rios de dinheiro à ciência e posa de salvador da vacinação em pleno calendário eleitoral

Em pleno ano eleitoral, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva resolveu redescobrir velhas pautas — ciência, vacina, investimento público e o Instituto Butantan. Durante visita à instituição, Lula fez um discurso inflamado, recheado de promessas, números otimistas e frases de efeito, como se o Brasil estivesse vivendo um despertar científico inédito, convenientemente sincronizado com o calendário das urnas.

Diante de pesquisadores e autoridades, o petista afirmou que o Brasil vive um “momento político delicado”, atribuindo os problemas do país a um suposto “sectarismo negacionista” e à chamada “loucura digital”. No entanto, evitou qualquer autocrítica sobre os próprios tropeços do governo e preferiu pintar um cenário em que a salvação viria, mais uma vez, pelas mãos do Estado — e, claro, do seu governo.

No tom de quem faz campanha, Lula voltou a defender o investimento público como se fosse uma descoberta recente. Questionou quem, além do Estado, investiria em pesquisa no Brasil e sugeriu que empresários, por mais ricos que sejam, não arriscariam recursos próprios. A fala ignora décadas de debate sobre inovação, parcerias privadas e eficiência no uso de recursos públicos, mas cumpre bem o papel retórico de exaltar o governo como único motor do desenvolvimento.

Ao citar a primeira vacina brasileira contra a dengue, o presidente apelou ao velho discurso do “complexo de vira-lata”, pedindo que o país confie em sua própria capacidade científica. A mensagem, embora correta no mérito, soa ensaiada e tardia — especialmente quando surge com força justamente no momento em que Lula precisa reconstruir pontes com a opinião pública.

Como em todo discurso eleitoral bem treinado, não faltaram números grandiosos: menor inflação em anos, desemprego histórico, massa salarial recorde, exportações em alta e avanços em saúde e educação. Tudo apresentado como prova incontestável de que o país vai bem — e de que qualquer desconfiança seria quase uma afronta à narrativa oficial.

No cenário internacional, Lula defendeu o multilateralismo e afirmou que o Brasil não escolherá entre Estados Unidos e China, mas sim o que for melhor para o país. A fala, genérica e diplomática, reforça a imagem de estadista global, outro figurino bastante útil em tempos de campanha.

O presidente também garantiu que o fortalecimento do Butantan não tem viés partidário ou regional, embora o discurso tenha sido cuidadosamente moldado para reforçar sua marca política. Prometeu que não faltará dinheiro para a pesquisa científica enquanto estiver no poder, numa declaração que soa mais como promessa eleitoral do que como política de Estado de longo prazo.

No encerramento, Lula criticou a desinformação e disse que será preciso mobilizar professores, líderes religiosos e políticos para convencer a população a se vacinar. A preocupação é legítima, mas o timing levanta suspeitas: por que esse entusiasmo todo só agora?

No fim, fica a sensação de déjà-vu. Em ano eleitoral, a ciência vira prioridade, a vacina ganha holofote e o investimento público se transforma em discurso de palanque. Passadas as eleições, resta saber se o compromisso permanece — ou se a ciência volta a ser esquecida até a próxima disputa nas urnas.

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