
Aplausos de Pé, Choro e Contradição: Marina Silva Celebrada Enquanto o País Arde
Ministra é ovacionada na COP 30 enquanto desmatamento e queimadas disparam “dasgraçadamente” no desgoverno que prometeu salvar a floresta
A cena parece saída de um teatro político que só o Brasil consegue escrever: Marina Silva, ministra do Meio Ambiente, recebida com uma salva de palmas na plenária de encerramento da COP 30. De pé, sorrindo entre lágrimas, enquanto lá fora — longe do ar-condicionado e das câmeras internacionais — o desmatamento e as queimadas seguem galopando como um incêndio que ninguém quer apagar.
Marina, visivelmente emocionada, convidou os presentes a imaginarem um reencontro com suas versões de 1992, da lendária Rio-92. Um gesto poético, bonito, quase cinematográfico: “O que aquelas versões de nós nos diriam ao olhar para os resultados de hoje?”, perguntou, com a voz embargada.
Se alguém tivesse coragem de responder honestamente, talvez dissesse algo simples: “Queríamos muito mais — e certamente muito menos fogo.”
A ministra admitiu que os avanços estão longe do ideal, mas repetiu a tese do governo Lula: que, apesar das “dificuldades e contradições”, há um caminho para reverter o desmatamento, abandonar os combustíveis fósseis e planejar uma transição justa. Ironia fina do destino: esses mapas são prometidos ao mesmo tempo em que os satélites mostram que o país segue como um fósforo aceso no meio da floresta.
Marina reconheceu também que não houve consenso para incluir no documento final o tão esperado plano para o fim dos combustíveis fósseis. Ainda assim, celebrou o apoio recebido ao “projeto brasileiro” de traçar dois novos roteiros: um para impedir e reverter o desmatamento e outro para abandonar a energia suja. Tudo muito bonito — no papel.
Ao lado disso, a ministra destacou avanços no reconhecimento de povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais, além do lançamento de um fundo voltado às florestas tropicais. “Progredimos, ainda que modestamente”, disse, num raro momento de sinceridade que talvez merecesse mais atenção do que os aplausos.
Ela voltou à metáfora do encontro com a Rio-92: apesar das falhas, dos atrasos e da eterna briga entre interesses, ainda existe um fio de continuidade entre as promessas de ontem e os esforços de hoje. Segundo ela, o mais importante é que “ainda estamos aqui”.
Sim, estamos. Mas as árvores nem sempre.
Ao final, Marina agradeceu aos participantes por terem vindo ao “coração do planeta” — expressão que pegaria melhor se esse coração não estivesse, justamente agora, com febre alta. E concluiu, emocionada, que talvez o Brasil não tenha recebido os visitantes como mereciam, mas o fez como “um gesto de amor à humanidade e ao equilíbrio do planeta”.
A plateia levantou e aplaudiu longamente.
A pergunta que fica é outra: aplausos resolvem incêndio?