Após pressão indígena, Lula revoga decreto que previa concessões em hidrovias da Amazônia

Após pressão indígena, Lula revoga decreto que previa concessões em hidrovias da Amazônia

Decisão encerra mais de um mês de protestos no Tapajós e foi anunciada por Guilherme Boulos após reuniões no Planalto

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu revogar o Decreto nº 12.600, editado em agosto de 2025, que previa a inclusão de trechos dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização (PND), abrindo caminho para futuras concessões hidroviárias. A decisão foi tomada nesta segunda-feira (23), depois de mais de 30 dias de mobilização contínua de povos indígenas no oeste do Pará.

O anúncio foi feito pelo ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, após reunião no Palácio do Planalto com a ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, e lideranças indígenas do Baixo Tapajós. Parte dessas lideranças participou da ocupação do terminal portuário da Cargill, em Santarém (PA), como forma de protesto contra o decreto.

Segundo Boulos, a revogação é resultado de um processo de diálogo conduzido ao longo das últimas semanas. “Os povos indígenas mantiveram uma manifestação por mais de 30 dias, alertando para os impactos que o decreto poderia causar às suas comunidades, além de quilombolas e ribeirinhos. O governo ouviu essas preocupações e, após debates internos, decidiu revogar o decreto”, afirmou o ministro.

O texto agora cancelado autorizava a realização de estudos técnicos, ambientais e logísticos para viabilizar concessões voltadas à navegabilidade dos rios, incluindo ações como dragagem e manutenção de canais. Para indígenas de pelo menos 14 povos do Baixo e Médio Tapajós, além de lideranças Kayapó, Panará e Munduruku, a medida poderia facilitar o uso intensivo dos rios para o escoamento de commodities, afetando diretamente a qualidade da água, a pesca, a segurança alimentar, a fauna e até sítios arqueológicos da região.

Os protestos tiveram início em 22 de janeiro de 2026 e incluíram a ocupação de estruturas portuárias em Santarém, bloqueios de acesso ao terminal e a interceptação de balsas no rio Tapajós. A mobilização reuniu cerca de 1,2 mil pessoas e ganhou repercussão nacional.

De acordo com Boulos, a decisão foi tomada após conversas diretas com Lula e reuniões com diferentes ministérios da Esplanada. Sonia Guajajara já havia se posicionado publicamente contra o decreto. O governo informou que o ato de revogação será publicado no Diário Oficial da União (DOU) desta terça-feira (24), formalizando o recuo.

Com a medida, o Palácio do Planalto busca encerrar o conflito e sinalizar abertura ao diálogo com os povos indígenas, que cobravam maior participação nas decisões sobre projetos com impacto direto em seus territórios e modos de vida.

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