
Blindados? Dino tenta transformar críticas ao STF em “perseguição” — e ignora o óbvio
Ministro se irrita com pedidos de impeachment e pinta o Supremo como um clube de intocáveis, enquanto o país questiona seus excessos
Durante um evento em Brasília, Flávio Dino resolveu vestir a toga e o escudo ao mesmo tempo. O ministro do STF afirmou que existem 81 pedidos de impeachment contra membros da Corte, e que metade deles mira Alexandre de Moraes — como se isso fosse, por si só, um ato de perseguição e não um sintoma claro do desgaste causado por decisões polêmicas, políticas e cada vez mais questionadas.
Dino chegou ao ponto de dizer que, para existir tanto pedido assim, Moraes só poderia ser um “serial killer” ou uma vítima injustiçada. É o tipo de frase que revela mais sobre quem a pronuncia do que sobre o alvo: um ministro tentando transformar qualquer crítica em ataque pessoal, como se o STF fosse uma espécie de monarquia jurídica acima de qualquer contestação.
A defesa da blindagem
O ministro aproveitou o palco para defender a decisão de Gilmar Mendes que limita os pedidos de impeachment ao crivo da PGR, tirando do cidadão comum e até de parlamentares a capacidade de questionar ministros que extrapolam. Dino tentou justificar dizendo que essa seria uma “técnica decisória comum”. Mas no fundo, soa como o que realmente é: uma barreira, um escudo para que ministros possam agir sem risco de consequências.
Para reforçar essa narrativa, Dino ainda reclamou dos “xingamentos” de que o STF seria ativista ou governado por decisões monocráticas. Chamou isso de “falso”, ignorando o óbvio: o país inteiro tem visto justamente o contrário, com decisões individuais que mudam rumos políticos inteiros.
O país cobra limites — e não privilégios
Enquanto Dino se ofende com críticas, cresce a sensação de que parte do Supremo quer se colocar acima da lei, como se fosse uma casta privilegiada. A reação à avalanche de pedidos de impeachment não deveria ser buscar blindagem, mas encarar o motivo pelo qual tanta gente está tomando coragem de cobrar responsabilidade.
Se metade dos pedidos envolve o mesmo ministro, isso não é coincidência.
É sintoma. É alerta. É desgaste real.
E Flávio Dino deveria entender que repúdio não se combate com orgulho ferido, mas com transparência, equilíbrio e, acima de tudo, respeito aos limites da Constituição — aquela mesma que o Supremo adora citar, mas nem sempre parece disposto a seguir.