
Carnaval bancado pelo poder: milhões públicos, palmas políticas e um samba que acabou rebaixado
Verba estatal, reuniões no Planalto e presença de ministros expõem a mistura indigesta entre propaganda política e dinheiro do contribuinte
Enquanto o brasileiro comum aperta o cinto para pagar conta de luz, comida e aluguel, o poder resolveu abrir os cofres para bancar um enredo político na Sapucaí. A escola Acadêmicos de Niterói desfilou em 2026 com um tema exaltando Luiz Inácio Lula da Silva, ao custo nada modesto de R$ 9,6 milhões em dinheiro público. O resultado? Um desfile fraco, nota baixa e o amargo rebaixamento.
O que revolta não é o samba — é o enredo fora da avenida. O dinheiro veio de todos os lados: Prefeitura de Niterói, governo do Estado do Rio, Prefeitura do Rio e até do governo federal, por meio da Embratur e da Riotur. Um verdadeiro consórcio político-financeiro para embalar uma homenagem ao presidente, paga pelo contribuinte.
Como se não bastasse, o Planalto entrou no ritmo. A primeira-dama Janja da Silva visitou a escola duas vezes, sempre com deslocamentos, equipe e segurança custeados com recursos públicos. Em uma dessas agendas, estava ao seu lado a ministra Anielle Franco, que transformou o último ensaio da escola em compromisso oficial. Em vídeos nas redes sociais, sorrisos, poses e o gesto do “L” — tudo devidamente registrado, como se fosse campanha, não governo.
O enredo político avançou ainda mais quando o presidente da escola, Wallace Palhares, foi recebido no Palácio do Planalto. Não uma, mas ao menos duas vezes. Lá, encontrou-se com a ministra Gleisi Hoffmann, cuja pasta não tem qualquer ligação com cultura ou carnaval. Também participaram aliados políticos, parlamentares e operadores de articulação — um cenário que escancara a promiscuidade entre política institucional e festa bancada pelo Estado.
Para completar o retrato, a Embratur, hoje comandada por Marcelo Freixo, repassou R$ 1 milhão à escola. O governo do Rio colocou mais R$ 2,5 milhões, e a Prefeitura de Niterói despejou outros R$ 4 milhões. Tudo isso em um país onde faltam leitos, remédios, segurança e dignidade básica para milhões.
O nome do enredo — “Do Alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil” — prometia grandeza, mas entregou constrangimento. Com a pior pontuação do Grupo Especial, a escola foi rebaixada, deixando como legado não a celebração cultural, mas a sensação de que o carnaval virou palanque e o orçamento público, confete.
É impossível não sentir repúdio. Não pela cultura popular, que merece respeito, mas pela lógica torta de um governo que encontra dinheiro fácil para autopromoção simbólica, enquanto pede paciência ao povo diante da crise. Quando o samba vira propaganda e o Estado vira patrocinador de vaidade política, quem paga a conta é sempre o mesmo: o brasileiro.