
Carnaval bancado pelo povo, respeito deixado de lado
Ministra canta, recebe alto cachê e expõe a farra com dinheiro público no governo Lula
O Carnaval de 2026 virou palco não só de festa, mas de indignação. Enquanto milhões de brasileiros apertam o cinto, a ministra da Cultura, Margareth Menezes, subiu em um trio elétrico em Salvador recebendo cifras elevadas, em um contexto que escancara o desrespeito com o dinheiro público e a leniência ética do governo Luiz Inácio Lula da Silva.
Margareth se apresentou no bloco Os Mascarados, organizado pela empresa Pau Viola Cultura e Entretenimento — a mesma que mantém interesses diretos no Ministério da Cultura e já foi autorizada a captar R$ 1 milhão via Lei Rouanet para outros projetos. Só essa coincidência já seria suficiente para acender o alerta. Mas o enredo vai além.
O show ocorreu no circuito Barra-Ondina, em Salvador, um dos mais valorizados do Carnaval. Segundo a própria equipe da ministra, o cachê foi de R$ 290 mil, valor que inclui músicos, produção e figurino. Na prática, trata-se de dinheiro público girando em torno de quem deveria justamente zelar por regras, limites e isenção.
O bloco foi patrocinado com R$ 1 milhão do governo da Bahia, por meio da Superintendência de Fomento ao Turismo. Até pouco tempo atrás, esse tipo de situação era proibido. Mas, convenientemente, a Comissão de Ética Pública mudou o entendimento durante o terceiro mandato de Lula, abrindo espaço para que a ministra pudesse faturar com recursos de estados e municípios.
A decisão é tão elástica que beira o cinismo institucional. Ao mesmo tempo em que autoriza apresentações sem uso de verba federal direta, a própria comissão reconhece que há risco de conflito de interesses quando a artista atua para empresas ligadas ao setor que ela mesma comanda. Ou seja: o governo faz vista grossa enquanto tenta manter um discurso formal de legalidade.
O contraste fica ainda mais gritante quando se olha para o passado. Em 2005, quando Gilberto Gil era ministro da Cultura, o entendimento era claro: nada de cachê pago com dinheiro público ou de empresas com interesses na pasta. Hoje, sob Lula e Margareth, o rigor virou complacência.
Desde que assumiu o ministério, Margareth viu a empresa responsável pelo bloco ter oito projetos autorizados para captação via Rouanet — quatro vezes mais do que na gestão anterior. Ainda que o discurso oficial tente minimizar, os números falam alto e reforçam a sensação de privilégio e promiscuidade entre política, cultura e recursos públicos.
Para completar, a ministra ainda fez outros shows no Carnaval, incluindo apresentações bancadas por prefeituras. Em anos anteriores, só em Salvador e Fortaleza, o gasto público com seus cachês já ultrapassava um ano inteiro de salário dela como ministra.
O governo Lula, que prometeu responsabilidade social e ética pública, assiste a tudo em silêncio. Enquanto isso, o brasileiro comum paga a conta — seja nos impostos, seja no descrédito crescente com instituições que parecem funcionar para poucos.
No fim das contas, o Carnaval passa, o trio desmonta, mas fica a pergunta que ecoa mais alto que qualquer tambor: quem está realmente se beneficiando da cultura bancadas com o suor do povo?