
Carnaval ou Passarela de Pretensões?
Erika Hilton desfila com faixa de “presidenta” enquanto política veste fantasia de celebridade — e a festa vira palanque travestido de folia
No sábado de Carnaval, o Sambódromo do Anhembi em São Paulo foi palco não só de samba, mas de um verdadeiro espetáculo político — com direito a faixa de “presidenta” ostentada no meio da folia. A deputada Erika Hilton desfilou pela Mocidade Unida da Mooca com uma faixa presidencial, transformando o carro alegórico em um outdoor de pretensões eleitorais em plena avenida.
No terceiro carro da escola, cujo enredo exaltava temas sociais e a força de mulheres negras, a presença de Hilton com a palavra “presidenta” estampada chamou mais atenção que as próprias alas. Tudo parecia menos Carnaval e mais desfile de vaidades políticas, como se a apoteose da Mooca fosse um red carpet mascarado de tradição.
Fantasia com diploma de política?
A Mocidade Unida da Mooca trouxe à avenida o enredo “Gèlèdés – Agbára Obinrin”, em homenagem ao Instituto Geledés e à luta das mulheres negras. Isso poderia ser uma celebração legítima da cultura e da ancestralidade. Mas a escolha de colocar uma deputada com título de “presidenta” como destaque deixou muitos questionando se a passarela virou palanque.
Enquanto a bateria marcava o ritmo e foliões no Anhembi aplaudiam, era difícil não perceber que a deputada não estava ali apenas para sambar — mas para fazer marketing político pessoal. É a velha política tentando se vestir de Carnaval, usando a festa popular como vitrine para projeção de imagem e conquistas futuras.
Política ou busca de fama?
O uso de uma faixa com a palavra “presidenta” em um desfile carnavalesco soa, no mínimo, como ironia travestida de participação cívica. Não seria a primeira vez que políticos entram na avenida; muitos usam o Carnaval para se mostrar próximos do povo.
Mas quando a avenida deixa de ser espaço de celebração cultural e vira espaço para propaganda de ambições pessoais — ou quando se transforma em desfile de celebridades disfarçadas de mandatárias em potencial — a linha entre cultura e politicagem fica perigosamente tênue. Afinal, a escola de samba deveria servir para enaltecer histórias e tradições, não para promover currículos eleitorais antes da hora.
Carnaval transformado em vitrine
Não bastasse isso, o excesso de marketing pessoal em um evento comunitário ressalta a ironia de ver representantes eleitas fazendo pose de estrela de novela em vez de focar na função pública. O público, que paga ingresso e vibra com a festa, acaba testemunhando mais um episódio de espetáculo midiático do que um verdadeiro tributo ao espírito popular da folia.
Se o Carnaval é sinônimo de liberdade, alegria e identidade cultural, também merece ser respeitado como tal — e não convertido em tapete vermelho para ambições políticas disfarçadas de samba-enredo. A avenida é grande demais para ser palco de vaidades momentâneas; resta saber se o público ainda distingue brilho legítimo de pura promoção de marketing político.