Nunes barra “jeitinhos” na Câmara: vereadores queriam doar ruas de SP para igreja, empresa e ONG da mãe de um deles

Nunes barra “jeitinhos” na Câmara: vereadores queriam doar ruas de SP para igreja, empresa e ONG da mãe de um deles

Prefeito veta manobras que tentavam transformar bens públicos em presentes privados — de vielas milionárias a ruas inteiras entregues sem consulta aos moradores.

O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), precisou agir como o adulto na sala. Ao sancionar o projeto de lei que autoriza o leilão de áreas públicas na cidade — incluindo ruas e travessas em bairros valorizados —, ele vetou três emendas que beiravam o absurdo. As propostas tentavam transferir espaços públicos para empresas privadas, uma igreja evangélica e até uma ONG comandada pela mãe de um vereador.

As emendas, reveladas pela imprensa, estavam escondidas no projeto que prevê o leilão da Travessa Engenheiro Antônio de Souza Barros Júnior, nos Jardins, avaliada em R$ 25 milhões — área cobiçada por uma construtora interessada em erguer um condomínio de luxo.

O primeiro veto foi para o vereador Marcelo Messias (MDB), que queria leiloar a Rua América Central, em Santo Amaro, sem sequer avisar os moradores. A via, composta por casas e pequenas empresas, interessava a uma farmacêutica que já havia comprado 80% dos imóveis e queria fechar a rua como se fosse um quintal particular. O caso já está nas mãos do Ministério Público, que investiga o verdadeiro motivo da “generosidade” do parlamentar.

Outra emenda derrubada foi do vereador Isac Félix (PL), que tentava passar a Rua Canoal, na Vila Andrade, para a Igreja Batista do Morumbi — a mesma que, no ano passado, já havia tentado o mesmo golpe para fechar a via.

E, por fim, o veto que mais chamou atenção: o do vereador Silvinho Leite (União Brasil), que queria conceder por 20 anos uma área pública de 642 metros quadrados para uma ONG presidida por ninguém menos que sua mãe, Teresa Pereira dos Santos. O terreno fica próximo à Marginal Pinheiros e não tem uso atual — o que, aparentemente, o tornava um alvo “conveniente”.

Mesmo com os vetos, o prefeito manteve cinco outras emendas no projeto original, que seguem autorizando leilões de áreas públicas em diferentes regiões da capital. Entre elas, uma viela nos Jardins que pode virar condomínio fechado e até terrenos em Pirituba e Itaim Bibi destinados a projetos esportivos.

A Prefeitura diz que, se o Metrô precisar da área dos Jardins para a Linha 16-Violeta, poderá comprá-la “a preço de mercado”.

Enquanto isso, o caso das emendas vetadas mostra como parte da política paulistana ainda tenta tratar o que é público como se fosse herança de família — ou, pior, como moeda de troca para aliados e igrejas amigas.

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