
Celular de Daniel Vorcaro registra 316 interações com Alexandre de Moraes antes da prisão; dados levantam questionamentos sobre relação entre banqueiro e ministro do STF
Registros encontrados no aparelho do empresário Daniel Vorcaro apontam 316 interações relacionadas ao ministro Alexandre de Moraes. Levantamento também indica a possibilidade de um encontro presencial antes da prisão do banqueiro. Moraes nega ter participado de reuniões com Vorcaro. O episódio amplia os questionamentos sobre a relação entre o dono do Banco Master e integrantes das mais altas esferas do poder em Brasília.
A relação entre o banqueiro Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes voltou ao centro das atenções após a divulgação de informações extraídas do celular do empresário. Segundo reportagem do Times Brasil, o aparelho de Vorcaro reúne 316 registros de interações envolvendo Moraes, número que chama atenção pela frequência dos contatos e pelo contexto em que ocorreram.
A informação também foi repercutida pelo MSN. O levantamento aponta registros anteriores à prisão de Vorcaro e menciona a possibilidade de um encontro presencial entre o banqueiro e o ministro.
O caso exige esclarecimentos detalhados, especialmente porque envolve um empresário que se tornou personagem central de uma crise financeira e de investigações relacionadas ao Banco Master, além de um integrante da mais alta Corte do Judiciário brasileiro.
É importante, contudo, distinguir o que os registros efetivamente demonstram: 316 interações não significam necessariamente 316 conversas pessoais ou encontros presenciais. Tampouco comprovam, isoladamente, qualquer irregularidade ou favorecimento. A natureza dos registros, os interlocutores, as datas e o conteúdo das comunicações são fundamentais para estabelecer a dimensão real dessa relação.
As 316 interações e as mensagens recuperadas do celular
Segundo levantamento publicado pelo UOL em 6 de novembro de 2026, a análise do aparelho de Daniel Vorcaro identificou 316 registros de interação com Alexandre de Moraes entre 17 de setembro e 17 de novembro de 2025.
A distribuição dos registros chama atenção:
- 187 mensagens foram enviadas por Daniel Vorcaro ao ministro.
- 129 registros correspondem a mensagens atribuídas a Moraes e notificações do próprio aplicativo.
- 69 mensagens foram identificadas na análise: 52 já eram conhecidas e outras 17 foram recuperadas.
- O material inclui mensagens de texto, fotografias, chamadas, ligações perdidas e notificações do WhatsApp.
A investigação jornalística foi conduzida pelos jornalistas Cézar Feitoza, Natália Portinari e Fabio Serapião. A análise utilizou bancos de dados secundários do WhatsApp preservados no iPhone apreendido pela Polícia Federal em 17 de novembro de 2025.
Um detalhe merece destaque: Vorcaro utilizava mensagens temporárias e enviava textos escritos no bloco de notas do celular como imagens de visualização única. O método dificultava a recuperação posterior do conteúdo. Parte das mensagens foi reconstruída a partir de registros secundários, e nem todo o material pôde ser recuperado integralmente. UOL Notícias+2
Mensagens de novembro indicam possível encontro presencial
Um dos trechos mais relevantes da apuração envolve o dia 14 de novembro de 2025, apenas três dias antes da prisão de Vorcaro.
Naquela data, o banqueiro viajou de São Paulo para Brasília em seu avião particular. Os registros recuperados apresentam a seguinte sequência:
- Às 13h24, uma mensagem atribuída a Alexandre de Moraes dizia: “Me avise quando pousar”.
- Às 13h25, Vorcaro respondeu que estava em voo.
- Às 14h32, Moraes perguntou: “Chegou?”
- Às 14h35, Vorcaro respondeu: “Agora pousei”.
- Às 14h46, Moraes escreveu: “A caminho então”.
A sequência é especialmente importante porque sugere uma combinação para um encontro presencial. A reportagem informa que Vorcaro desembarcou em Brasília e seguiu para sua residência no Lago Sul.
Entretanto, é necessário fazer uma distinção: as mensagens constituem indícios de que um encontro estava sendo organizado, mas não comprovam, por si só, que Moraes efetivamente esteve com Vorcaro naquele endereço ou que a reunião aconteceu.
Dois dias antes, em 12 de novembro, também aparecem mensagens de natureza pessoal. Vorcaro elogiou Moraes como pai, e o ministro respondeu com uma referência à participação na vida familiar. Esse tipo de diálogo acrescenta elementos à discussão sobre o grau de proximidade entre os interlocutores. UOL Notícias+2
Os pedidos de ajuda e a preocupação com a Polícia Federal
Outro ponto delicado envolve as mensagens nas quais Vorcaro demonstrava preocupação com possíveis medidas contra o Banco Master.
Segundo as informações recuperadas e o material anteriormente analisado pela Polícia Federal, o banqueiro procurava informações e possíveis formas de evitar ou adiar medidas que poderiam atingir a instituição financeira.
Em uma das mensagens, Vorcaro mencionou Paulo Gonet, procurador-geral da República, e Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal.
O banqueiro escreveu sobre a possibilidade de tentar reverter a situação por meio dos dois. Em outro trecho, pediu que uma eventual medida fosse atrasada para a semana seguinte, argumentando que isso poderia evitar o colapso do banco.
Também perguntou sobre a possibilidade de alguma providência ocorrer na manhã seguinte e demonstrou preocupação com o que poderia acontecer na segunda-feira.
Essas mensagens levantam uma questão institucional relevante: por que um banqueiro sob pressão de autoridades investigativas procurava manter contato com um ministro do Supremo Tribunal Federal?
Não há, com base nesses registros isoladamente, comprovação de que Moraes tenha interferido na Polícia Federal, na Procuradoria-Geral da República ou nas decisões relacionadas ao Banco Master. Mas o conteúdo exige esclarecimentos sobre a natureza das conversas, os pedidos apresentados e as respostas eventualmente fornecidas. UOL Notícias+1
O contrato de R$ 131 milhões envolvendo a esposa do ministro
A polêmica não se limita às mensagens pessoais.
Outro episódio envolve Viviane Barci de Moraes, advogada e esposa do ministro Alexandre de Moraes, e o escritório Barci de Moraes Sociedade de Advogados.
Em janeiro de 2024, o Banco Master, de Daniel Vorcaro, firmou um contrato com o escritório, cujo valor previsto era de aproximadamente R$ 131 milhões, com honorários mensais de cerca de R$ 3,6 milhões.
Segundo reportagem baseada em metadados examinados pela Polícia Federal, uma versão do contrato foi editada em um perfil identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”.
O escritório confirmou que o ministro foi consultado, na condição de marido da sócia-diretora, para verificar eventuais impedimentos legais. A banca afirmou que os serviços advocatícios foram contratados e efetivamente prestados, sustentando que não havia impedimento porque Moraes não julgava processos envolvendo o Banco Master.
A investigação também trouxe à tona uma segunda proposta, de até R$ 50 milhões, que previa R$ 40 milhões em cotas de um jatinho e de um helicóptero e outros R$ 10 milhões para despesas de voos.
O escritório de Viviane afirmou que essa segunda proposta não foi aceita e que não houve assinatura de um novo contrato.
É importante separar os fatos: o contrato de aproximadamente R$ 131 milhões existiu; a consulta ao ministro foi admitida pelo escritório; já a segunda proposta de R$ 50 milhões não foi aceita, segundo a banca. A existência desses negócios não comprova automaticamente ilegalidade, mas torna legítimo o questionamento sobre transparência, conflitos de interesses e eventual necessidade de apuração independente. UOL Notícias+3
Fábio Faria aparece na aproximação entre Vorcaro e Moraes
Outro nome que aparece nas investigações é o de Fábio Faria, ex-ministro das Comunicações do governo Jair Bolsonaro.
Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, Fábio Faria teria intermediado a aproximação entre Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes no final de 2023, encaminhando ao banqueiro o contato telefônico do ministro.
As mensagens também fazem referência a um almoço previsto para o dia 30 e a contatos posteriores envolvendo Moraes e Viviane Barci de Moraes.
Em março de 2024, Fábio Faria teria intermediado outra tentativa de encontro. Moraes respondeu que não poderia jantar, mas teria disponibilidade para tomar um uísque.
O ex-ministro afirmou que sugeriu o escritório de Viviane para atuação em uma questão judicial em São Paulo, mas declarou que não participou das negociações financeiras e não conhecia os valores do contrato.
Esses registros acrescentam outro personagem importante à história: Fábio Faria, que teria participado da aproximação entre o banqueiro e o ministro. Folha+1
O que Alexandre de Moraes respondeu?
Alexandre de Moraes contestou as informações envolvendo as mensagens atribuídas a ele e Daniel Vorcaro.
Em manifestação divulgada anteriormente pela Secretaria de Comunicação do STF, a pedido do ministro, Moraes afirmou que mensagens de visualização única enviadas por Vorcaro em 17 de novembro de 2025 não correspondiam aos contatos telefônicos do magistrado nos arquivos apreendidos.
A nota sustentou que os registros estavam associados a pastas de outros contatos existentes no aparelho do banqueiro e afirmou que as mensagens não foram destinadas a Moraes.
A defesa de Vorcaro também questionou a integridade dos dados e a cadeia de custódia do celular, levantando suspeitas sobre a possibilidade de manipulação de arquivos.
Com a nova apuração, porém, o debate ganhou outra dimensão: o levantamento do UOL recuperou 17 mensagens adicionais, incluindo respostas atribuídas a Moraes e conversas que sugerem um encontro em 14 de novembro de 2025.
O ministro e a defesa do banqueiro contestam a autenticidade e a integridade do material divulgado. Portanto, é necessário que as mensagens sejam submetidas a exame técnico independente e que as divergências sejam esclarecidas.
Há uma diferença importante entre negar que determinadas mensagens do dia da prisão tenham sido destinadas ao ministro e esclarecer integralmente os demais registros de comunicação identificados no aparelho. UOL Economia+3
Os nomes centrais do caso
| Envolvido | Relação com o caso |
|---|---|
| Alexandre de Moraes | Ministro do STF e interlocutor apontado nos registros do celular. |
| Daniel Vorcaro | Ex-dono do Banco Master, responsável pelo aparelho analisado. |
| Viviane Barci de Moraes | Advogada, esposa de Moraes e responsável pelo escritório contratado pelo Banco Master. |
| Fábio Faria | Ex-ministro das Comunicações, apontado como intermediário da aproximação. |
| André Mendonça | Ministro do STF que atua na condução de questões relacionadas às investigações. |
| Paulo Gonet | Procurador-geral da República, citado nas mensagens de Vorcaro. |
| Andrei Rodrigues | Diretor-geral da Polícia Federal, também mencionado nas conversas. |
| Cézar Feitoza | Jornalista responsável pela apuração ao lado de Natália Portinari e Fabio Serapião. |
| Natália Portinari | Jornalista participante da investigação publicada pelo UOL. |
| Fabio Serapião | Jornalista participante da investigação publicada pelo UOL. |
Um caso que exige transparência e investigação
O episódio envolvendo Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro não pode ser tratado como uma simples troca de mensagens entre conhecidos.
Estamos falando de um ministro do Supremo Tribunal Federal, de um banqueiro que acabou preso pela Polícia Federal e de um contrato milionário envolvendo o escritório de advocacia de sua esposa.
A combinação desses elementos exige respostas objetivas.
É necessário esclarecer a natureza dos contatos, o conteúdo integral das conversas, a eventual realização do encontro de 14 de novembro, os motivos dos pedidos apresentados por Vorcaro e se houve alguma atuação do ministro em favor dos interesses do banqueiro.
Também é necessário esclarecer se existiu alguma interferência, direta ou indireta, em procedimentos conduzidos pela Polícia Federal ou por outras instituições.
Não se pode transformar suspeitas em condenações antecipadas. Da mesma maneira, não se pode considerar que uma simples nota de esclarecimento encerre questionamentos sustentados por registros digitais e documentos que precisam ser examinados.
A credibilidade das instituições depende justamente da capacidade de investigar situações que envolvam autoridades de alto escalão, sem privilégios e sem tratamento diferenciado.
O STF também precisa estar sujeito à transparência, à fiscalização pública e ao escrutínio jornalístico.
A sociedade brasileira tem direito de saber se houve apenas uma relação pessoal entre um ministro e um empresário ou se os contatos ultrapassaram os limites compatíveis com a responsabilidade institucional de um magistrado.
O esclarecimento precisa ser completo, documentado e independente.