
Com aval de Lula, Edinho Silva articula afastamento de Washington Quaquá e de ala do PT; disputa expõe divisão dentro do partido
Presidente nacional do Partido dos Trabalhadores defende uma reorganização da legenda e cobra a saída de dirigentes acusados de falta de empenho na campanha presidencial de 2026. Prefeito de Maricá reage, acusa Edinho de tentar concentrar poder e ameaça disputar os rumos da sigla. Conflito também envolve materiais eleitorais, recursos partidários, emendas parlamentares e divergências dentro da corrente majoritária do PT.
A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições presidenciais de 2026 não encerrou as disputas políticas dentro do Partido dos Trabalhadores (PT). Pelo contrário: poucos dias depois do resultado eleitoral, a legenda passou a enfrentar uma crise interna envolvendo seu presidente nacional, Edinho Silva, o prefeito de Maricá (RJ), Washington Quaquá, e integrantes de uma ala informalmente conhecida como “centrão petista”.
Com o suposto aval de Lula, Edinho Silva passou a defender uma profunda reorganização partidária, incluindo o afastamento de dirigentes considerados desalinhados com as orientações da direção nacional e acusados de não terem participado adequadamente da campanha presidencial. A movimentação, entretanto, abriu uma disputa entre lideranças que pertencem à própria corrente majoritária do partido e ameaça ampliar as divisões internas.
A articulação ganhou força durante uma reunião da Executiva Nacional do PT, realizada em 29 de outubro. Na ocasião, Edinho defendeu que dirigentes insatisfeitos com o projeto partidário ou que não estivessem comprometidos com suas orientações procurassem uma saída negociada da legenda.
No encerramento da reunião, o presidente nacional do PT foi além e mencionou a possibilidade de um “divórcio litigioso”, expressão interpretada por integrantes da sigla como uma referência à possibilidade de expulsão de determinados filiados.
Edinho também relatou ter conversado com Lula sobre o futuro do partido, depois de um encontro entre os dois. Segundo as informações divulgadas pela Folha de S.Paulo e reproduzidas pelo Estado de Minas, a iniciativa teria o respaldo do presidente da República.
WASHINGTON QUAQUÁ APARECE COMO PRINCIPAL ALVO DA DISPUTA
Um dos principais nomes envolvidos na crise é Washington Quaquá, prefeito de Maricá, no Rio de Janeiro, e vice-presidente nacional do PT.
Quaquá passou a ser apontado como um dos principais alvos da reorganização defendida por Edinho. A justificativa apresentada por integrantes do partido envolve sua atuação durante a campanha presidencial, especialmente as acusações de que teria faltado empenho de determinados dirigentes na mobilização eleitoral em favor de Lula.
Maricá, município administrado por Quaquá, registrou votação favorável a Flávio Bolsonaro nos dois turnos da eleição presidencial de 2026, situação que também entrou no debate interno.
Outro episódio citado envolve Diego Zeidan, filho de Quaquá e presidente estadual do PT no Rio de Janeiro. Segundo os relatos publicados, Diego viajou para a Bahia depois do primeiro turno, circunstância que teria provocado uma intervenção na coordenação da campanha petista no estado.
Quaquá contestou a interpretação e afirmou que participou da mobilização eleitoral de Lula no Rio de Janeiro. Sobre o afastamento do filho, alegou que Diego precisou interromper suas atividades por quatro dias, seguindo orientação médica, depois de apresentar um pico de pressão arterial.
O prefeito também não participou da reunião da Executiva Nacional em 29 de outubro. Sua justificativa foi de que aquele não seria o espaço adequado para avaliar a condução da campanha presidencial.
QUAQUÁ REAGE E ATACA EDINHO SILVA
A resposta de Washington Quaquá foi marcada por declarações duras contra o presidente nacional do partido.
O prefeito chamou Edinho Silva de “mentiroso”, “incompetente” e “fofoqueiro”, contestando as acusações de omissão eleitoral e questionando sua autoridade para conduzir o processo de reorganização partidária.
Quaquá também afirmou que possui uma trajetória antiga dentro do PT e que não pretende abandonar a legenda.
Em sua reação, declarou que Edinho deveria deixar o partido e procurar o PSOL, afirmando que sua própria trajetória estaria mais ligada às origens do petismo.
A disputa ganhou novos capítulos em 4 de novembro. Em entrevista publicada pela revista Veja, Quaquá afirmou que pretende procurar Lula pessoalmente para esclarecer se o presidente realmente autorizou uma movimentação para afastá-lo do partido.
O prefeito também declarou que existem articulações para antecipar a saída de Edinho Silva da presidência nacional do PT, caso ele continue conduzindo a legenda nessa direção.
Quaquá ainda responsabilizou Edinho pelo desempenho eleitoral do partido no primeiro turno e levantou questionamentos sobre a arrecadação de recursos para o diretório petista de Araraquara, cidade onde Edinho foi prefeito.
Segundo a acusação apresentada pelo prefeito, o PT de Araraquara teria arrecadado aproximadamente R$ 5 milhões enquanto faltavam materiais de campanha em outros estados. Trata-se de uma alegação de Quaquá, que não representa, por si só, comprovação de irregularidade.
PEDIDOS DE EXPULSÃO E POLÊMICAS ANTERIORES
A possibilidade de afastamento de Quaquá não surgiu exclusivamente por causa da campanha presidencial.
O prefeito já enfrentava pedidos de abertura de procedimentos na Comissão de Ética do PT em razão de declarações e posicionamentos políticos que provocaram desconforto entre integrantes da legenda.
Entre os episódios mencionados estão sua defesa pública dos irmãos Domingos e Chiquinho Brazão, envolvidos no processo relacionado ao assassinato da vereadora Marielle Franco. Domingos Brazão é apontado nas investigações como mandante do crime.
Outro episódio envolve declarações de Quaquá sobre a operação policial realizada nos complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro, que deixou mais de 120 mortos, segundo os relatos publicados. O prefeito manifestou apoio à atuação policial, provocando reações de setores do próprio partido.
Também causou controvérsia uma fotografia na qual Quaquá aparece abraçado ao ex-ministro da Saúde e deputado federal Eduardo Pazuello, do PL do Rio de Janeiro. A imagem foi considerada inaceitável por integrantes petistas, que questionaram a proximidade com um representante do governo Jair Bolsonaro.
Esses episódios alimentaram pedidos de punição dentro do partido, mas as solicitações anteriores não haviam avançado de maneira significativa.
A DISPUTA ENVOLVE A CORRENTE MAJORITÁRIA DO PT
Um aspecto importante da crise é que a disputa não acontece simplesmente entre grupos de esquerda e direita dentro do PT.
Edinho Silva e Washington Quaquá pertencem à Construindo um Novo Brasil (CNB), corrente majoritária da legenda, que reúne diferentes lideranças e interesses políticos.
Entre os integrantes e dirigentes associados a esse campo estão Gleide Andrade, tesoureira nacional do partido; Jilmar Tatto, vice-presidente; Beto Faro e Humberto Costa, senadores; e José Guimarães, ministro da Secretaria de Relações Institucionais.
A CNB abriga diferentes posições sobre a condução do partido, a relação com o Congresso Nacional, as alianças políticas e a distribuição de poder dentro da organização.
Edinho e Quaquá, inclusive, estiveram do mesmo lado em parte da disputa pela presidência nacional do PT. Após um acordo político articulado por Lula, Quaquá apoiou Edinho para assumir o comando da legenda.
Agora, os antigos aliados estão em lados opostos de uma disputa que pode modificar a correlação de forças dentro da corrente majoritária.
A possibilidade de expulsões, portanto, não representa apenas uma questão disciplinar. Pode provocar uma reorganização das lideranças e abrir espaço para novas disputas pelo controle da direção nacional.
LULA TAMBÉM COBRA ALINHAMENTO NOS MATERIAIS DE CAMPANHA
Outro ponto que contribuiu para o agravamento da crise envolve a utilização do nome e da imagem de Lula nos materiais eleitorais produzidos por candidatos petistas.
Em setembro, Edinho Silva cobrou que os candidatos do partido incluíssem o nome do presidente e dos candidatos majoritários apoiados pela legenda nos materiais de divulgação.
A direção nacional demonstrou insatisfação com panfletos e materiais de campanha que não apresentavam Lula, mesmo quando produzidos por candidatos do próprio PT.
Edinho chegou a ameaçar exigir a devolução de recursos do fundo eleitoral em situações de descumprimento das orientações partidárias.
A cobrança provocou discussões em grupos internos, nos quais foram compartilhados materiais de candidatos a governos estaduais, ao Senado e à Câmara dos Deputados que não apresentavam o nome do presidente.
Segundo os relatos, Lula mantém registros desses materiais e demonstrou insatisfação com dirigentes que não teriam trabalhado em sintonia com sua candidatura.
O episódio reforçou a cobrança por fidelidade partidária e passou a integrar o conjunto de justificativas para a reorganização defendida por Edinho.
EMENDAS PARLAMENTARES E O FUTURO DO PARTIDO
A discussão também envolve a maneira como o PT pretende atuar no Congresso Nacional.
Lula tem defendido que o partido recupere sua identidade política e reduza a dependência de práticas relacionadas à distribuição de recursos por meio de emendas parlamentares.
Dentro da legenda, integrantes que passaram a atuar de maneira mais pragmática nas negociações políticas e parlamentares foram associados ao apelido de “centrão do PT”.
A crítica apresentada por setores da direção é que o partido não deveria se transformar em um agrupamento de mandatos e interesses individuais, perdendo espaço para seu projeto político coletivo.
Edinho Silva tem defendido que a legenda não seja utilizada como instrumento de projeção pessoal, crescimento patrimonial ou enriquecimento de seus integrantes.
A proposta de reorganização também está relacionada à tentativa de aproximar o PT de setores mais jovens que participaram da mobilização eleitoral de Lula.
O presidente tem manifestado preocupação com a possibilidade de o partido perder sua capacidade de mobilização popular caso não responda às demandas de renovação política.
PT NEGA PROCESSO DE EXPURGO E DEFENDE DIREITO DE DEFESA
Em meio às acusações, surgiu uma manifestação importante de outra liderança do partido.
Em entrevista publicada pelo Metrópoles em 4 de novembro, o secretário nacional de Comunicação do PT, Éden Valadares, rejeitou a existência de um processo de expulsão generalizada de integrantes considerados desalinhados, inclusive se a iniciativa tivesse sido solicitada por Lula.
Valadares afirmou que o partido possui instâncias próprias para analisar eventuais infrações e que qualquer procedimento precisa respeitar o devido processo legal e o direito ao contraditório.
O dirigente também negou a existência de um processo inquisitório ou de perseguição interna.
A declaração demonstra que a iniciativa atribuída a Edinho não representa necessariamente uma posição consensual entre todas as lideranças da direção nacional.
Eventuais procedimentos contra Quaquá e outros integrantes precisam seguir as regras internas do partido, com análise das acusações e possibilidade de defesa.
UMA CRISE QUE PODE ALTERAR O EQUILÍBRIO INTERNO DO PT
O conflito entre Edinho Silva e Washington Quaquá revela uma disputa mais ampla sobre o futuro do Partido dos Trabalhadores depois da eleição presidencial de 2026.
De um lado, Edinho defende uma reorganização da legenda, maior alinhamento às orientações nacionais e afastamento de dirigentes considerados incompatíveis com o projeto político apresentado por Lula.
De outro, Quaquá rejeita as acusações, contesta a condução da direção nacional e afirma que continuará disputando os rumos do partido.
A situação também coloca Lula no centro da discussão, uma vez que seu suposto aval à iniciativa de Edinho é um dos elementos mais importantes das reportagens sobre a crise. O presidente ainda terá de lidar com as consequências políticas de uma disputa que envolve integrantes da própria corrente majoritária.
A questão central é se o PT conseguirá realizar uma reorganização interna sem aprofundar suas divisões ou se a tentativa de afastamento de adversários acabará provocando uma disputa ainda maior pelo comando da legenda.
Depois de uma eleição presidencial marcada por fortes embates externos, o partido agora enfrenta uma batalha dentro de suas próprias estruturas. E, dessa vez, os adversários estão do mesmo lado da história partidária: são dirigentes que ajudaram a construir, sustentar e disputar o poder dentro do próprio PT.