Comando Vermelho impõe terror a comerciantes de água no Ceará: facção ameaça vendedores, provoca filas e deixa população refém da criminalidade

Comando Vermelho impõe terror a comerciantes de água no Ceará: facção ameaça vendedores, provoca filas e deixa população refém da criminalidade

Operação das forças de segurança prendeu novos suspeitos de integrar o grupo criminoso responsável por extorquir comerciantes em Banabuiú. Sete pessoas haviam sido presas até a manhã desta quinta-feira, enquanto dois apontados como mandantes permaneciam foragidos no Rio de Janeiro. Moradores chegaram a enfrentar filas para comprar água mineral, e o fornecimento precisou ser reorganizado com apoio policial.

O avanço de uma organização criminosa sobre o comércio de água mineral transformou a rotina dos moradores de Banabuiú, no Sertão Central do Ceará, em um cenário de medo, insegurança e restrição de um produto essencial. Suspeitos apontados como integrantes do Comando Vermelho (CV) são investigados por ameaçar e extorquir comerciantes, exigindo pagamentos para permitir que distribuidoras e vendedores continuassem trabalhando.

A gravidade da situação levou as forças de segurança a intensificar as operações na cidade. Nesta quinta-feira, 5 de novembro de 2026, quatro novos mandados de prisão foram cumpridos, elevando para sete o número de suspeitos presos, segundo o balanço divulgado pela Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará e pela Polícia Civil.

Dois homens apontados pelas autoridades como mandantes das extorsões foram identificados, mas permaneciam foragidos no Rio de Janeiro. As polícias dos dois estados trabalham em conjunto para localizar os investigados e cumprir os mandados de prisão preventiva autorizados pela Justiça.

O caso expõe uma realidade preocupante: comerciantes que deveriam exercer livremente suas atividades passaram a enfrentar ameaças de criminosos, enquanto moradores tiveram dificuldades para comprar garrafões de água mineral.

Facção teria exigido pagamento para permitir a venda de água

De acordo com as investigações, integrantes do grupo criminoso passaram a intimidar comerciantes e distribuidores de água mineral em Banabuiú. As ameaças teriam sido utilizadas para impor cobranças e estabelecer regras ilegais sobre quem poderia comercializar o produto.

A situação chegou a um ponto em que comerciantes, temendo represálias, suspenderam suas atividades. A paralisação comprometeu a distribuição de garrafões e provocou dificuldades para moradores que dependiam da compra de água mineral.

Informações reunidas durante as investigações apontam que os criminosos exigiam pagamentos periódicos dos estabelecimentos. Reportagem do jornal O POVO informou que documentos judiciais mencionavam cobranças de até R$ 750 por semana por distribuidora.

A cobrança, segundo a apuração, não era apresentada como uma negociação comercial legítima, mas como uma exigência acompanhada de ameaças. O objetivo investigado era submeter a atividade econômica local ao controle de integrantes da facção.

A prática representa uma forma de extorsão que ultrapassa a violência contra comerciantes individualmente. Quando criminosos tentam controlar a distribuição de um produto essencial, toda a população acaba atingida.

Moradores enfrentaram filas para conseguir água

O impacto das ameaças foi sentido diretamente pelas famílias de Banabuiú.

No sábado, 31 de outubro, moradores formaram filas para conseguir comprar garrafões de água mineral. Com estabelecimentos fechados ou com a comercialização comprometida, a população precisou recorrer a uma operação emergencial organizada com apoio das autoridades.

A Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece) passou a auxiliar no transporte de garrafões adquiridos junto a fornecedores de municípios vizinhos. Os produtos foram levados até Banabuiú, onde a comercialização ocorreu com apoio das forças de segurança.

Policiais militares acompanharam a operação para garantir que a distribuição pudesse acontecer sem novas ameaças.

É importante esclarecer que o abastecimento de água encanada não foi interrompido. O problema atingiu o comércio de água mineral, especialmente a venda e a entrega de garrafões utilizados pelas famílias.

A situação, entretanto, foi suficiente para alterar a rotina de milhares de pessoas. Um produto que normalmente chega à porta das residências passou a depender de uma logística emergencial e de proteção policial.

Operação prende novos suspeitos e busca mandantes no Rio de Janeiro

A ofensiva desta quinta-feira foi coordenada pela Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS), com participação do Departamento de Repressão ao Crime Organizado (DRCO), do Departamento de Polícia do Interior Sul (DPI Sul), da Polícia Civil e da Polícia Militar.

A operação contou ainda com o apoio de um helicóptero da Coordenadoria de Operações Aéreas (Ciopaer).

O trabalho policial foi realizado após investigações que identificaram suspeitos de integrar o grupo criminoso responsável pelas ameaças e cobranças ilegais.

Três pessoas já haviam sido presas em 22 de outubro, em uma ação conjunta da Polícia Civil e da Polícia Militar. Na ocasião, foram apreendidos seis aparelhos celulares, um revólver calibre .38, munições, um notebook e dinheiro em espécie.

As investigações avançaram e permitiram identificar dois supostos mandantes das extorsões. Segundo as autoridades, eles estão escondidos no Rio de Janeiro, e as diligências continuam para localizá-los.

A Polícia Civil solicitou as prisões preventivas, que foram autorizadas pelo Poder Judiciário. As equipes também trabalham na análise dos aparelhos apreendidos, que podem fornecer informações sobre a estrutura do grupo e a participação de outros suspeitos.

Polícia reforça patrulhamento para impedir novas ameaças

A presença policial foi ampliada em Banabuiú para evitar que os comerciantes voltem a ser intimidados e para garantir a retomada das atividades econômicas.

O policiamento conta com equipes do Policiamento Ostensivo Geral (POG), da Força Tática e do Motopatrulhamento. Também foram mobilizados policiais do Batalhão Especializado em Policiamento do Interior (BEPI), do CPRaio e do Comando da Polícia Militar para Prevenção e Apoio às Comunidades (Copac).

O delegado Harley Filho, coordenador da Coordenadoria de Planejamento Operacional da SSPDS, afirmou que o patrulhamento permanecerá reforçado. Segundo ele, os comerciantes estavam com medo e as forças de segurança atuaram para garantir a continuidade de um serviço essencial à população.

O delegado também pediu que moradores evitem compartilhar mensagens de ameaças sem confirmação. A orientação busca impedir que informações falsas aumentem o medo e prejudiquem o trabalho das autoridades.

Comércio de água começa a voltar à normalidade

Depois de dias de dificuldades, o funcionamento dos estabelecimentos que comercializam água mineral começou a ser restabelecido gradualmente na quarta-feira, 4 de novembro.

A Cagece continuou auxiliando na logística de transporte dos garrafões, mas a distribuição passou a ser realizada diretamente nos estabelecimentos comerciais, permitindo que os moradores retomassem gradualmente a compra e a entrega em suas residências.

Mesmo com a normalização progressiva, a segurança permanece reforçada. A retomada das atividades não significa que todos os riscos tenham desaparecido, especialmente porque dois homens apontados como mandantes continuam sendo procurados.

A investigação também precisa esclarecer como o grupo atuava, quais comerciantes foram ameaçados, quanto dinheiro teria sido exigido e se outros estabelecimentos foram submetidos ao mesmo esquema.

Não é um caso isolado no Ceará

A tentativa de controlar o comércio de água mineral não é um episódio completamente novo no estado. Em fevereiro de 2026, a CNN Brasil noticiou a prisão de dez suspeitos em Sobral, também investigados por ameaçar comerciantes e tentar impor regras sobre a venda e a distribuição de água.

Naquela investigação, os suspeitos seriam ligados ao Comando Vermelho e teriam exigido pagamentos por garrafões distribuídos, além de cobranças diárias de estabelecimentos comerciais.

Os dois episódios mostram que as autoridades precisam investigar não apenas os autores das ameaças, mas também a estrutura financeira e logística por trás das cobranças ilegais.

Quando uma facção tenta determinar quem pode vender, qual produto pode ser comercializado e quanto o comerciante deve pagar para trabalhar, o problema deixa de ser uma disputa localizada e passa a representar uma ameaça à liberdade econômica e à segurança da população.

A população não pode viver sob as regras de criminosos

O episódio de Banabuiú evidencia uma situação que não pode ser tratada como algo corriqueiro. Comerciantes foram ameaçados, estabelecimentos suspenderam atividades e famílias precisaram enfrentar filas para adquirir água mineral.

O direito de trabalhar, vender e comprar produtos essenciais não pode ficar condicionado à autorização de uma organização criminosa. A cobrança de valores mediante ameaças representa uma tentativa de substituir a autoridade do Estado pelo medo imposto por criminosos.

A resposta policial é necessária, mas o desafio não termina com as prisões já realizadas. É fundamental localizar os supostos mandantes, identificar todos os envolvidos, rastrear o dinheiro das extorsões e impedir que o grupo volte a intimidar comerciantes.

Também é indispensável garantir proteção às vítimas e testemunhas, que muitas vezes deixam de denunciar por medo de represálias.

Até que as investigações sejam concluídas, os suspeitos devem ser tratados como investigados, e sua responsabilidade criminal dependerá das provas e das decisões judiciais.

Em Banabuiú, a população não deveria precisar de escolta policial para comprar água. O episódio mostra o tamanho do prejuízo causado quando organizações criminosas tentam transformar necessidades básicas em instrumentos de extorsão. O Estado precisa garantir que os moradores possam viver, trabalhar e consumir sem pedir autorização ao crime organizado.

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