
“Conversa institucional” ou bastidor de pressão? Vorcaro admite encontro com Ibaneis no caso Master
Dono do Banco Master confirma que tratou da venda ao BRB com o governador do DF — e o STF derruba o sigilo do depoimento
Em mais um capítulo indigesto do escândalo que envolve o Banco Master, o empresário Daniel Vorcaro, dono da instituição, confirmou à Polícia Federal que conversou com o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, sobre a venda de ativos do banco ao Banco de Brasília (BRB).
O depoimento foi prestado em 30 de dezembro do ano passado, mas só agora veio à tona depois que o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF) e relator do caso, decidiu derrubar o sigilo das oitivas nesta quinta-feira (29/1).
E aí começa a pergunta que não quer calar: se era tudo tão “normal”, por que precisou de sigilo — e por que tanta gente poderosa aparece orbitando esse negócio?
Vorcaro confirma encontros e tenta vender a ideia de “normalidade”
Durante o depoimento, Vorcaro afirmou que se encontrou com Ibaneis “em poucas oportunidades” para tratar da venda do Master ao BRB, tentando enquadrar tudo como algo rotineiro, “institucional”, quase burocrático.
Segundo ele, os dois chegaram até a se visitar em casa:
“Conversei em algumas poucas oportunidades. O governador já foi a minha casa uma vez e eu já fui na casa dele. Nos encontramos poucas vezes, para conversas institucionais.”
A frase pode até soar elegante, mas na prática parece aquele velho roteiro brasileiro: quando o assunto é bilhão, sempre aparece alguém dizendo que era só uma conversa casual, só um café, só uma visita.
Só que ninguém vai na casa de governador e governador não vai na casa de banqueiro “por acaso”. Isso não é amizade inocente — é trânsito de influência.
“Tenho amigos em todos os Poderes”… e o povo que se vire
Questionado sobre sua relação com políticos, Vorcaro preferiu não citar nomes, mas soltou uma declaração que, por si só, já causa repulsa. Ele basicamente admitiu que tem portas abertas em Brasília inteira:
“Tenho amigos de todos os poderes.”
E ainda tentou se livrar do peso disso dizendo que suas relações políticas “não tiveram a ver” com o caso do BRB.
Mas é aí que mora o problema: quando alguém faz questão de dizer que tem amigos em todos os Poderes, não parece inocência — parece carteirada social, uma forma de deixar no ar que está bem conectado e protegido.
Enquanto isso, o brasileiro comum mal consegue falar com um gerente de banco sem pegar senha e esperar duas horas. Mas Vorcaro? Circula entre casas, gabinetes e palácios como se fosse dono do tabuleiro.
PF investiga suspeitas de irregularidades na tentativa de compra
A investigação da PF apura possíveis irregularidades envolvendo a tentativa de compra do Banco Master pelo BRB. As oitivas foram conduzidas pela delegada Janaína Pereira Lima Palazzo, com acompanhamento de:
- um juiz auxiliar do gabinete de Toffoli
- e um integrante do Ministério Público
O sigilo caiu após um pedido do Banco Central, que alegou necessidade de acessar o depoimento do diretor de Fiscalização, Ailton de Aquino Santos, também ouvido no caso.
Ou seja: até o Banco Central precisou entrar na história para tentar entender o tamanho do problema — porque, aparentemente, o buraco é mais fundo do que queriam que o público enxergasse.
Operação Compliance Zero: BRB teria tentado “dar fôlego” ao Master
A Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, aponta que o BRB teria feito operações consideradas irregulares com o Banco Master numa tentativa de dar fôlego à instituição, enquanto o Banco Central analisava a proposta de aquisição.
O BRB chegou a formalizar uma oferta em março deste ano, mas o negócio acabou vetado pelo BC.
E aqui a sensação é de nojo mesmo: porque quando um banco está afundando, o normal seria transparência e fiscalização pesada — não “manobras” e articulações nos bastidores para tentar salvar o que já parece podre.
O retrato é feio — e Vorcaro aparece no centro
No fim das contas, o que Vorcaro tenta vender como “conversa institucional” soa como mais um daqueles episódios em que gente poderosa se movimenta nos bastidores, enquanto o país assiste de fora, sem saber quem está puxando as cordas.
E o que dá revolta é ver que, quando o assunto envolve:
- banqueiro com trânsito livre,
- governador,
- banco estatal,
- operação suspeita,
- e STF liberando sigilo quando bem entende…
a história sempre parece caminhar para o mesmo lugar: um Brasil onde o cidadão paga a conta e os figurões discutem bilhões em salas fechadas.
Se isso não é motivo pra indignação, então nada mais é.