
Denúncia de suposta “rachadinha” nos Correios amplia crise da estatal e coloca gestão sob pressão
Sindicato levou ao Ministério Público Federal acusações de um suposto esquema envolvendo cargos de confiança, enquanto investigados negam irregularidades. Caso aumenta a pressão sobre a administração dos Correios, indicada pelo governo Lula, em meio ao maior rombo financeiro da empresa.
A crise enfrentada pelos Correios ganhou um novo capítulo após uma denúncia encaminhada ao Ministério Público Federal (MPF) apontar a existência de um suposto esquema de “rachadinha” envolvendo cargos de confiança na estatal. As acusações foram apresentadas pelo Sindicato dos Trabalhadores dos Correios do Rio de Janeiro (Sintect-RJ) e estão em fase de averiguação preliminar pelo MPF. Até o momento, não há conclusão oficial sobre os fatos investigados.
Segundo a denúncia, cerca de 300 pessoas teriam sido nomeadas para funções de gestão mediante o compromisso de repassar parte dos salários ou das gratificações a integrantes da estrutura denunciada. Treze testemunhas relataram ao MPF que os descontos variariam entre 5% e 15% dos vencimentos, com pagamentos mensais que iam de R$ 50 a R$ 1 mil, dependendo do cargo ocupado.
Entre os citados na notícia-crime estão o ex-presidente dos Correios, Fabiano Silva dos Santos, e o secretário-geral da Federação Nacional dos Trabalhadores em Empresas de Correios e Telégrafos (Fentect), Emerson Marinho. Ambos rejeitam as acusações e afirmam que a denúncia decorre de uma disputa política e sindical. Fabiano declarou que desconhece qualquer esquema e afirmou que pretende adotar medidas judiciais contra os denunciantes. Emerson também classificou as acusações como falsas e disse ser alvo de perseguição política.
A investigação foi inicialmente apresentada ao MPF no Rio de Janeiro, mas acabou transferida para o Distrito Federal porque os principais investigados exercem funções de alcance nacional e a sede administrativa dos Correios está localizada em Brasília. O Ministério Público informou que o caso permanece em fase preliminar, etapa destinada à análise das informações antes de eventual abertura de inquérito.
De acordo com os documentos encaminhados ao MPF, o suposto esquema envolveria indicações para cargos de confiança condicionadas ao repasse periódico de parte da remuneração. Os denunciantes sustentam que os fatos podem caracterizar crimes como tráfico de influência, corrupção passiva, concussão, associação criminosa e atos de improbidade administrativa. Essas hipóteses ainda dependem da análise das autoridades responsáveis pela investigação.
Os Correios afirmaram, por meio de nota, que a Diretoria Executiva não compactua com práticas ilícitas e que eventuais irregularidades são apuradas pela Corregedoria da empresa, com adoção das medidas cabíveis sempre que houver comprovação de ilegalidades.
A denúncia surge em um momento especialmente delicado para a estatal. Os Correios enfrentam uma grave crise financeira, registrando prejuízo bilionário e adotando medidas como programas de desligamento voluntário e busca por financiamento para manter suas operações.
O episódio também aumenta a pressão política sobre a atual administração da empresa, cuja diretoria foi nomeada durante o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Diante da sucessão de dificuldades financeiras e agora das denúncias encaminhadas ao Ministério Público, cresce a cobrança por mais transparência, fortalecimento dos mecanismos de controle interno e apuração rigorosa dos fatos, preservando o direito de defesa dos investigados e a credibilidade de uma das maiores empresas públicas do país.